Quinta-feira, Maio 03, 2012

Marxismo, Darwinismo e Natureza Humana

Intervenção no Congresso «Marx em Maio», 3 de Maio 2012, Faculdade de Letras


Marxismo, Darwinismo e a natureza humana
André Levy

A publicação da obra «Sobre a Origem das Espécies», de Charles Darwin, em 1859, e as ideias nela expostas sobre a evolução das espécies, corroboradas por um volume e diversidade de evidências arrasadora, abriu uma nova era para a Biologia. As ideias foram recebidas com grande entusiasmo por Engels e Marx, que concebiam a história humana como parte da história natural, e porque as ideias de Darwin assentavam em dois pilares fundamentais para Engels e Marx. A sua visão dava um papel predominante aos factores históricos e oferecia uma explicação material para a diversidade biológica, oposta às explicações criacionistas que reduziam a história ao momento de criação e invocavam forças divinas, ou sobrenaturais. Neste sentido, Darwin era um materialista histórico sendo o seu principal domínio de explicação a natureza.

Chamo a atenção que não me vou limitar às ideias de Darwin per se, mas sob a capa de Darwinismo, ou mais simplesmente Biologia Evolutiva, irei referir-me a este corpo de estudo, incluindo os muitos progressos assinaláveis realizados por outros biólogos desde Darwin. Assim, algumas das ideias que irei expor poderão não corresponder às ideias de Darwin nem à perspectiva consensual da actual comunidade científica, mas corresponderão sempre a uma perspectiva frutífera, encabeçada por biólogos iminentes. A área da Biologia Evolutiva, partindo da Evolução como um Facto, pauta-se por uma história de progressos e pela diversidade de ideias, sinal de uma ciência viva e frutífera.

Por exemplo, Darwin concebia uma dinâmica em que a natureza se limitava a oferecer desafios, aos quais as espécies davam resposta, adaptando-se através do mecanismo material da selecção natural. Hoje temos uma visão muito mais dinâmica e interactiva, dialéctica se quiserem, na qual os organismos se adaptam ao ambiente – seja ele factores abióticos, como a temperatura, a humidade, a textura do solo, etc., ou outros organismos – mas também o modificam, alterando desta forma as pressões selectivas que por sua vez actuam de novo sobre os organismos.

Em algumas espécies sociais, a dinâmica é bem complexa, envolvendo 3 modos de transmissão hereditária que interagem entre si. Por exemplo, nos seres humanos, uma geração transmite à geração seguinte uma selecção dos seus genes, através de um processo Mendeliano mediado por mecanismos evolutivos. Adicionalmente, transmite o ambiente por ela modificado; e, por fim, transmite também comportamentos e elementos culturais. Estes últimos dois processos de hereditariedade são independentes dos genes, mas constituem componentes do ambiente selectivo que influencia que genes serão transmitido entre gerações. Por outro lado, os genes, na medida em que influenciam a capacidade de alterar o ambiente, as preferências e comportamentos dos organismos, influencia a transmissão de ambiente e cultura entre gerações.

Deste modo, a espécie humana não se limita a adaptar-se ao meio; mas adapta o meio a si próprio. Este processo de construção activa do meio não é, porém, exclusivo da nossa espécie. Os castores, por exemplo, constroem diques e tocas que alteram profundamente o fluir de riachos; algumas espécies de formigas modificam o subsolo e constroem estruturas à superfície que fazem do seu complexo de corredores e câmaras uma sofisticada rede com sistema de ar condicionado. De modo menos activo, nas plantas, a forma, posicionamento e tamanho de uma folha modifica o microambiente que envolve a folha, tornando-a ideal para maximizar a captação de luz, controlar a temperatura e minimizar a perda de água por transpiração.

A biologia evolutiva é pois uma ciência no qual o materialismo histórico e o pensamento dialético, elementos centrais do Marxismo, podem figurar de forma proeminente. Digo podem pois nem toda a comunidade científica adopta um pensamento dialético, apesar da complexidade da realidade biológica, na qual múltiplos factores interactuam entre si, gritar por uma perspectiva dialética.

Por exemplo, no campo da genética e desenvolvimento, isto é nas transformações de um organismo ao longo da sua vida, muitos biólogos encaram os genes como omnipotentes, como tendo efeito directo no organismo. Esta postura reducionista e determinista tem  também expressão na busca do gene responsável por um qualquer aspecto do organismo, frequentemente de uma doença. Este programa de investigação presta-se a financiamentos de projectos e a títulos de artigos de jornal – que deste modo propagam uma visão ideológica específica sobre o modo de actuação dos genes. mas que corresponde a uma visão simplista do real modo de actuação dos genes. Na maioria dos aspectos do organismo (o seu fenótipo) estão envolvidos vários genes, que interagem entre si e interagem com factores ambientais no processo de desenvolvimento. A expressão de genes depende em parte do ambiente (celular e do organismo), e os ambientes são escolhidos em parte devido à composição genética de um indivíduo. Em ambos os processos de transformação histórico, evolução e desenvolvimento, há profundas interacções entre factores intrínsecos e extrínsecos que tornam a identificação de factores causais únicos difícil, se não mesmo inapropriada. Esta perspectiva dialética, mais complexa, mas mais perto da realidade, tem travado um debate ideológico com a perspectiva reducionista e determinista. A visão dialética do desenvolvimento e modo de actuação dos genes encontra-se muito bem tratada nas obras de biólogos marxistas, como Richard Lewontin ou Richard Levins.

Um segundo exemplo da aplicação da dialéctica na biologia evolutiva: Darwin sublinhou que a evolução biológica era um processo gradual, quantitativo, por analogia com os processos graduais e uniformes de transformação geológica propostos por Lyell, e em contraste com as ideias criacionistas e catastrofistas. O pensamento dialético sugere que mudanças quantitativas podem dar origem a mudanças qualitativas. Tal ideia veio a ser proposta por alguns autores, ao longo do século XX, no seio da biologia evolutiva, incluindo por Stephan Jay Gould, por sinal um marxista, mas a ser recusada pela generalidade da comunidade científica. A resistência devia-se ao facto de alterações qualitativas terem de surgir com forma integrada e funcional, de modo súbito, caso contrário seriam eliminadas por selecção natural. Mais recentemente, fruto do melhor entendimento do papel dos genes no desenvolvimento, esta ideia veio a ganhar corpo e fundamentação material. Isto porque ao longo do desenvolvimento existem genes reguladores, responsáveis pela activação e inibição de redes de outros genes. Assim, uma alteração quantitativa num gene regulador, por exemplo alterando onde este é expresso, pode conduzir à expressão de uma rede integrada de genes mais a jusante e, logo, ao surgimento de uma estrutura complexa e integrada noutro local do organismo. A título de exemplo, as moscas têm apenas um par de asas, no segundo segmento torácico. No terceiro segmento torácico, têm uma estrutura vestigial, os alteres. A evolução de alteres para um segundo par de asas, como existe noutros grupos de insectos, poderia parecer um processo que não poderia ocorrer repentinamente, pois envolve alteração no desenvolvimento do tecido das asas, nos músculos que coordenam o seu movimento, nos nervos que controlam os músculos, etc. Contudo, a modificação de apenas um gene regulador, implicado na expressão de asas no segundo segmento torácico, exprimindo este gene também no terceiro segmento torácico leva ao surgimento de um novo par de asas neste segmento, no qual há integração dos vários tipos de tecido.

Voltando à figura de Darwin. No seu processo de descoberta, em particular da ideia de selecção natural, a leitura de uma obra do Reverendo Thomas Malthus teve importância significativa – como aliás mais tarde para outro naturalista, Alfred Russel Wallace, que independentemente inferiu a ideia de selecção natural. O trabalho de Malthus, «Um ensaio sobre o Princípio da População», sugere que a população humana cresce a um ritmo exponencial, maior que o crescimento aritemético da produção alimentar. Malthus fez uso desta discrepância para defender, no que era fundamentalmente um panfleto político, que o Estado devia implementar políticas que limitassem o crescimento demográfico, incluindo deixar de prestar apoio social aos mais pobres, que na sua concepção estariam inevitavelmente destinados a morrer. A assistência aos mais necessitados apenas agravaria a competição pelos recursos limitados.

Darwin não era um Malthusiano social, mas a ideia de competição por recursos limitados, em que apenas alguns indivíduos poderiam sobreviver e reproduzir-se, constituiu a inspiração para a ideia de selecção natural. Herbert Spencer veio a descrever este processo como “sobrevivência dos mais aptos” e a aplicação desta noção às sociedades humanas veio a constituir o campo apelidado de Darwinismo Social, embora Darwin se tivesse demarcado desta corrente. Darwin aliás escreveu relativamente pouco sobre a espécie humana, questões sociais ou culturais, apesar de ter algumas posições políticas progressistas, nomeadamente, antiescravagismo e defensa de que todas as populações humanas pertenciam à mesma espécie.

O Darwinismo Social influenciou, e influencia, a argumentação de políticos e empresários que se apropriaram da ideia da “sobrevivência dos mais aptos” ou mesmo “sobrevivência dos mais fortes” para justificar o individualismo, a competição desenfreada e o capitalismo laissez-faire. Dois exemplos de afirmações de grandes capitalistas. Andrew Carnegie: “a competição pode ser por vezes dura para o individuo, mas é justificada porque é melhor para a raça, e porque garante a sobrevivência dos mais aptos em cada domínio.” John D. Rockefeller Jr. “O crescimento das grandes empresas é meramente a sobrevivência dos mais aptos … A Rosa apenas pode ser produzida no seu pleno esplendor e fragrância, que nos dá tanto prazer, se sacrificarmos os jovens botões de flor que crescem à sua volta. Isto não é um tendência malévola dos negócios. É meramente o trabalhar da lei da natureza e da lei de Deus.”

“No mercado como na natureza”, diriam, invocando uma  interpretação distorcida dos processos naturais, já que a evolução não se resume à ideia redutora da “sobrevivência dos mais aptos”. Darwin integrou esta expressão na 6a e última edição em vida de «A Origem das Espécies», mas ela é porém uma descrição parcelar do processo de selecção natural, que envolve não só a diferença entre a capacidade de sobrevivência dos indivíduos, mas também a reprodução diferencial. Naturalmente que só os indivíduos que sobrevivem se podem reproduzir, mas é a taxa de reprodução que dita a contribuição de um indivíduo para a geração seguinte.

Mas mesmo que a expressão fosse correcta, ao invocá-la para a actividade social humana, comete-se uma falácia naturalista, de que o que é natural é bom, que a ocorrência de selecção natural na natureza justifica a sua aplicação consciente na actividade económica, como se a nossa espécie não fosse capaz de praticar uma ética que nos liberte, no campo económico, da nossa natureza mais animal.

O Darwinismo Social veio ainda a dar aso ao Eugenismo, uma ciência aplicada que tem como programa o melhoramento da espécie. No início do século XX, não era uma ciência periférica. Existiam sociedades e congressos que contaram com a presença de iminentes cientistas e figuras proeminentes, incluindo um filho de Darwin e Winston Churchill. Tão pouco foi uma ciência meramente académica, mas deu aso a programas de esterilização no Canadá e na Suécia, entre outros, e ao programa de extermínio Nazi. Mas note-se que o erro destes programas não reside na base científica, na capacidade de transformar uma população da nossa espécie. Tal é possível, num certo nível. O ser humano tem conduzido processos análogos com espécies domesticadas. A questão é se é desejável. É uma questão ética: podemos justificar a esterilização e morte de uns indivíduos para melhorar a espécie? Donde imana uma segunda pergunta: o que significa melhorar a espécie? Nos processos de selecção artificial de espécies domesticadas a resposta é, por exemplo, uma vaca que produza mais e melhor leite ou carne. O melhor surge em função do interesse humano, não provém de nenhuma vantagem natural para a vaca. No caso da eugenia, o melhor corresponde uma raça ou característica superior, mais uma vez uma superioridade que não advém de qualquer base biológica, mas de uma escolha de um grupo de humanos, com base em fundamentos meramente ideológicos. Embora procurassem argumentar uma superioridade biológica do colonial face ao indígena, do ariano face ao judeu ou roma, essa suposta superioridade tem por detrás uma perspectiva cultural enviesada, racista, e não uma base biológica.

Permitam-me agora mudar para uma outra questão: a perspectiva sobre a natureza humana em Marx e como convém que esta seja modificada e melhorada em função dos progressos no estudo da nossa espécie e dos nossos parentes mais próximos. A compreensão do ser humano enquanto animal, enquanto membro da árvore da vida, com instintos e impulsos naturais, com características comportamentais universais e logo dificilmente sujeitas a alteração, é de grande relevância para a nossa reflexão sobre como podemos organizar uma sociedade. Pois, como poderemos apontar como uma sociedade deve ser organizada sem um conhecimento de como são os seres humanos. Nós não somos nem autómatos cujo comportamento é unicamente ditado por factores intrínsecos, nem nascemos como livros em branco, nos quais só o social escreve suas frases. Somos fruto de uma interacção entre factores intrínsecos e extrínsecos, uma mistura de natureza e nutrição (ou nature and nuture).

A séptima Tese Sobre Feurbach, de Marx, sugere porém que «... a essência humana não é uma abstração inerente a cada indivíduo. Na sua realidade ela é o conjunto das relações sociais.» Daqui decorre que não há uma natureza humana fixa, que se formos capazes de mudar o “conjunto das relações sociais”, podemos mudar a natureza humana, construir um “homem novo”.

Há porém aspectos universais das sociedades humanas, do comportamento humano? O estudo de populações humanas e das espécies mais próximas da nossa, em particular os grandes símios, como o chimpanzé e o gorila, sugerem que sim. Por exemplo, apesar de grande diversidade na forma como se manifesta, as sociedades humanas tendem a exibir alguma forma de liderança, individual ou colectiva. Nos grandes símios, observamos também hierarquias sociais. Significa isto que uma sociedade sem classes é inviável? Não, o que isto ilustra é uma tendência para uma organização com hierarquia. Nada implica sobre como a liderança é determinada, qual a sua duração, qual a extensão do seu poder, e sobretudo não implica que a liderança possa explorar os liderados. Entre chimpanzés, a posição do macho alfa está permanentemente sobre escrutínio. Se ele for incapaz de manter o respeito da restante comunidade, pela justeza das suas posições e pela capacidade de manter a harmonia social, a sua posição ficará em risco. Mas significa isto então que sociedades absolutamente igualitárias são impossíveis? Também não. Estas observações apenas nos informam sobre tendências naturais. Não cometamos também a falácia naturalista assumindo que a sociedade se tem de conformar com essas tendências. Mas não deixa de ser útil conhecer estas tendências intrínsecas, sobretudo optando-se por uma sociedade que as contraria. Não tendo nós porque sujeitar em absoluto a nossa sociedade em função dessas tendências, há que ter presente o conflito, de forma a mais eficazmente lidar com as suas consequências.

Um segundo exemplo de tendências comportamentais: temos tendência a identificar-nos com os indivíduos do nosso círculo social e, inversamente, encarar indivíduos diferentes com estranheza, incompreensão, desconfiança e no limite violência. O outro pode ser diferente por falar outra língua, ter outro tipo de vestes, ter outra religião, outra tez de pele, etc. Novamente, tal não significa que os fenómenos de xenofobia e racismo sejam inevitáveis, apenas que são previsíveis, sobretudo entre comunidades muito homogéneas. Pessoas que nasçam num ambiente diverso, multicultural, onde não exista demarcação social ou económica entre os diversos grupos, não irá encarar indivíduos diferentes de si mesmo e sua família como outros. Mas é importante saber que esta tendência está presente, e que pode ser exacerbada. Temos os casos de siitas e sunitas no Iraque, ou hutus e tutsis no Ruanda. Grupos que coabitaram décadas de forma harmoniosa, havendo casais de membros de ambos grupos, mas cuja rivalidade foi incentivada extrinsecamente, tomando partido desta tendência humana para categorizar, rotular o outro, sentir receio, e mesmo exprimir violência contra o outro.

Um último exemplo, muito querido dos ideólogos do neo-liberalismo, a tendência para a competição e individualismo. Sem dúvida que na nossa espécie indivíduos exibem tendências competitivas. Mas exibem igualmente a capacidade de cooperar. Ambas tendências coexistem, mas a maior expressão de uma ou outra tendência varia consoante a sociedade. A teoria de jogos oferece-nos um modelo que prevê o predomínio de uma ou outra tendência consoante o custo de ser individualista versus cooperar: o Dilema do Prisioneiro. (Este jogo tem várias versões. Apresenta-se uma versão simplificada.) Dois presos são interrogados separadamente, e a cada um é dada a possibilidade de acusar o outro e sair livre, sendo o segundo preso condenado. O preso pode optar por não acusar, mas arrisca-se a passar tempo na prisão se o segundo preso o acusar a ele. Se ambos acusarem o outro, ambos passam um tempo mais reduzido na prisão. Se nenhum acusar, ambos são libertados. Usando este jogo como analogia das relações humanas em sociedade, conclui-se que se apenas tivermos em conta o nosso interesse próprio, temos vantagem em confessar. Mas em sociedade as escolhas dos outros importam. A melhor solução global é ambos os presos não acusarem. Mas há incerteza sobre a decisão do outro.

A estratégia óptima entre dois indivíduos que jogam o dilema repetidamente, ou se duas pessoas interagem frequentemente em sociedade, é cooperar, até ser traído pelo outro, e nesse caso retaliar (Tit-for-Tat). Isto é, pode existir cooperação numa sociedade quando as pessoas interagem frequentemente, mas tal é mais raro numa sociedade atomizada, de indivíduos alienados. Mas mesmo numa sociedade coesa, haverá sempre a oportunidade de um indivíduo poder lucrar a curto prazo rompendo com a estratégia de cooperação. Melhorar o nível de educação, eliminar a pobreza, e alterar o ambiente social pode alterar a intensidade de bufos ou batoteiros do contrato de cooperação, mas não eliminá-los. Só alterando os custos de romper com a cooperação, se pode eliminar os batoteiros, e isso implica retaliação. Uma sociedade que deseje eliminar o individualismo terá que compreender esta dinâmica e evitar a todo o custo as condições que produzem os alienados da rede social.

Para terminar, uma última palavra sobre a natureza do trabalho. No “Capital”, Livro Primeiro, Tomo I, Quinto Capítulo (segundo numeração da Edições Avante!), Marx escreve:

“... o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza. Desenvolve as potencialidades nela adormecidas e submete ao seu domínio o jogo das forças naturais. Não se trata aqui das formas instintivas, animais, de trabalho. Quando o trabalhador chega ao mercado para vender sua força de trabalho, é imensa a distância histórica que medeia entre sua condição e a do homem primitivo com sua forma ainda instintiva de trabalho. Pressupomos o trabalho sob forma exclusivamente humana. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não transforma apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto que tinha conscientemente em mira, o qual constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual tem de subordinar sua vontade. E essa subordinação não é um ato fortuito. Além do esforço dos órgãos que trabalham, é mister a vontade adequada que se manifesta através da atenção durante todo o curso do trabalho.”

Para Marx, portanto, o que distingue o trabalho humano é o facto da ideia preceder a execução. Porém, dado o nosso progresso na observação e estudo de outros animais podemos afirmar que estes não só usam instrumentos que criam para determinado fim, mas são capazes de antecipar na sua mente os vários passos necessários para completar uma tarefa, e agir em cooperação para a finalizar. Por exemplo, o primatólogo Frans de Waal estudou durante vários anos os chimpanzés do Jardim Zoológico Arnhem, na Holanda, onde reside uma colónia em condições semi-naturais. A maioria das árvores estão protegidas por redes electrificadas, para impedir que a desfoliação completa pelos chimpanzés. Mas existem algumas árvores desprotegidas, algumas das quais são árvores mortas, nas quais é fácil partir ramos. Estes ramos são por vezes usados para ganhar acesso às árvores protegidas. Tal implica partir de uma árvore seca um ramo que tenha um tamanho apropriado, idealmente um ramo que termine num ramificação, para assegurar melhor apoio na árvore. O ramo é levado até a árvore ramificada. Um dos chimpanzés permanece no solo, segurando o ramo, enquanto um segundo chimpanzé trepa o ramo, evitando a rede electrificada, e colhendo folhas, que partilha com o seu parceiro. Este é apenas um exemplo entre outros animais, que não o homem, em que o planeamento mental precede a execução física – a característica que Marx aponta como exclusivo do homem, que distingue o trabalho humano da actividade transformativa de outros animais. Naturalmente, o homem leva o planeamento mental a níveis de maior complexidade do que outros animais, em particular outros grandes primatas. Mas conclui-se que esta não é uma capacidade única ao ser humano.

Haverá então algo que distinga o trabalho do ser humano das actividades de outros animais? Talvez o mais distintivo tenha surgido quando o trabalho humano passou a produzir valor sem valor de uso para o trabalhador, mas exclusivamente valor com valor de uso para outrém, tendo para o trabalhor valor de troca. A diferenciação torna-se ainda mais demarcada quando o valor é a própria força de trabalho humana, suscetível de exploração e produção de mais valia. Neste sentido, o produto da actividade de uma vaca domesticada ou um escravo humano são semelhantes. São uma componente do capital fixo. Só quando o ser humano se vê em condição de oferecer a sua força de trabalho é que este se assume como componente do capital variável, capaz de produzir mais-valia.

Em conclusão, a biologia evolutiva tem tudo a ganhar com assumir como alicerces o materialismo histórico e o materialismo dialético. E o Marxismo tem tudo a ganhar com os avanços na biologia e psicologia de modo a refinar o seu entendimento da nossa espécie e a forma de construir uma sociedade mais justa, mais solidária e isenta de exploração.

Segunda-feira, Abril 30, 2012

Lutas de 2012 - 1ª parte



 Esta compilação das lutas de trabalhadores em Portugal, entre Janeiro e o 1º de Maio de 2012, é feita com base na agenda da CGTP e nas notícias do Avante!.  Neste período relativamente curto decorreram acções nacionais significativas, com destaque para a grande manifestação nacional de 11 de Fevereiro e a Greve Geral de 22 de Março.

JANEIRO 2012
  • Greve dos Bombeiros Sapadores de Lisboa, iniciada a 28 de Dezembro, até 8/Jan, contra a intenção de criar um quinto turno de trabalho sem o devido aumento de efectivos
  • Dezenas de trabalhadores do Grupo Carlos Saraiva manifestaram-se dia 8, junto ao Grande Hotel Salgados, no concelho de Albufeira, onde decorria um congresso de uma marca automóvel, para assim denunciarem a falta de pagamento de salários desde Setembro.
  • Manifestação Nacional dos trabalhadores da EMEF (Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário), junto à Administração da CP (11/Jan)
  • O Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional (SNCGP) desconvocou a greve marcada para o dia 13, após o Ministério da Justiça (MJ) ter garantido alterar o estatuto profissional e contratar novos guardas prisionais.
  • Greve dos trabalhadores portuários, iniciada dia 9/Jan, convocada para reivindicar a suspensão ou a retirada da insolvência da Empresa de Trabalho Portuário (ETP) do porto de Aveiro, desencadeada pela Aveiropor e a Socarpor. Além 62 postos de trabalho, estavam em causa o intuito patronal de desregulação e precarização de todo o trabalho portuário ali realizado.
  • Acções da Interjovem pelo trabalho com direitos, denunciando a grave situação de desemprego entre os jovens trabalhadores. A taxa de desemprego nacional é de 12,4% e é de 17,3% nos jovens até aos 35 anos. Famalicão (16/Jan); Porto, com os trabalhadores do Centro Comercial Vivace (20/Jan); Setúbal (10/Jan), Lisboa (25/Jan)
  • Acção de protesto contra o aumento das taxas moderadoras na Saúde, em Beja. (14/Jan)
  • CGTP-IN abandona reunião da Concertação Social, e alerta para a gravidade das medidas ali cozinhadas pelo Governo, pela UGT e pelos patrões (16/Jan)
  •  Desfile da Rua do Carmo para a AR, de activistas sindicais com o objectivo de entregar os pareceres contra a proposta de trabalho gratuito (proposta de lei n.º 36/XII que "estabelece o aumento excepcional e temporário dos períodos normais de trabalho sem acréscimo de retribuição") (18/Jan)
  • Marcha de trabalhadores no Vale do Ave, contra o aumento do Horário de Trabalho e o roubo dos direitos contratuais pelo Governo, com concentração e saída de Nespereira até à cidade de Guimarães. (21/Jan)
  • Em plenário diante da administração da Amarsul, na Moita, os trabalhadores aprovaram por unanimidade uma resolução onde se afirma que «outra política é possível e necessária» e se diz «não à exploração, às desigualdades e ao empobrecimento». (24/Jan)
  • Concentração desde o início da tarde junto aos portões que dão acesso ao edifício da TAP, localizado na zona no Aeroporto de Lisboa para protestar contra os cortes salariais e a suspensão dos subsídios de férias e de Natal (27/Jan).
  • Vigilia/Concentração dos trabalhadores da Cerâmica Valadares, em Gaia, que decidiram, em plenário, parar a laboração da fábrica até receberem os salários em atraso e concentraram-se em frente aos portões da empresa. (30/Jan- 13/Fev). No dia 2 de Fevereiro os trabalhadores desfilaram pelas ruas de Vila Nova de Gaia, em luta pelo pagamento dos salários de Dezembro e Janeiro. Em 13 de Fevereiro, os trabalhadores, em Plenário, decidiram retomar a laboração, depois de ter sido feito um acordo com a administração e assinado um compromisso de que o pagamento do mês de Janeiro será feito até ao dia 20, e que o mês de Fevereiro será pago a tempo e horas.
FEVEREIRO 2012
  •    Dia de greves no sector dos Transportes (2/Jan), incluindo Transtejo e Soflusa, Carris, CP, CP-CARGA E REFER, STCP PORTO. Pela defesa do serviço público de qualidade ao serviço do País e dos cidadãos; Contra a redução de carreiras e serviços; Contra as privatizações da concessão das empresas públicas do sector; Pela negociação colectiva e aumento do poder de compra; Pela defesa e cumprimento dos Acordos de Empresa; Contra os despedimentos e aumento da precariedade no trabalho; Contra qualquer tentativa de imposição do aumento dos horários de trabalho; Contra a repressão nas empresas.
  • Manifestação dos trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, pelas ruas da cidade, aberta a trabalhadores, antigos funcionários, familiares e população que culminou num plenário na Praça da República, em defesa da manutenção da empresa e dos postos de trabalho. (3/Fev)
  • Concentração dos trabalhadores da JADO-IBERIA, em Braga, seguida de deslocação até à Segurança Social, em solidariedade com a luta dos trabalhadores vitimas do lay-off e em protesto contra o "acordo social". (3/Fev)
  • Contra alterações unilaterais aos contratos de trabalho, cerca de 90 trabalhadores da empresa portuguesa ProCME, subcontratada da distribuidora eléctrica francesa ERDF e a de gás natural GRDF, estavam, dia 9, concentrados há dez dias, em protesto, diante dos escritórios da empresa, em Ramonville-Saint-Agne, nos subúrbios de Toulouse. Provenientes de Marselha, Nice e Montepellier, mantinham uma greve contra a eliminação do direito a viagens pagas a Portugal, de cinco em cinco semanas, e o pagamento do alojamento em França.
  • Grande Manifestação Nacional, em Lisboa contra o medo e resignação. Mais de 300 mil pessoas responderam ao apelo da CGTP-IN e fizeram, no Terreiro do Paço, a maior manifestação desde há mais de 30 anos. (11/Fev)
  • Greve dos trabalhadores da FDO, pelo pagamento dos salários em dívida (Novembro, Dezembro e Janeiro) bem como do subsídio de Natal de 2011. (13/Fev)
  • Centenas de sargentos, praças e militares no activo e aposentados protestaram, dia 16, em várias cidades, «contra o desmantelamento das Forças Armadas». Na residência oficial do primeiro-ministro entregaram as suas reivindicações.
  • A Onopackaging Portugal foi condenada a reintegrar um dirigente sindical e dois trabalhadores que sofreram um despedimento colectivo, num acórdão do Tribunal da Relação de Évora. Em Almada, o Tribunal de Trabalho sentenciou a SN Seixal a reintegrar um trabalhador com vínculo precário que desempenhava funções de trabalho permanente.
  •  Acções de protesto e denúncia dos trabalhadores das Cantinas e Refeitórios, pela atitude da AHRESP (Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal) em querer retirar direitos aos trabalhadores: no Refeitório da TAP (22/Fev); no Refeitório da SIC (23/Fev)
  • Greve dos trabalhadores da Mirandela - Artes Gráficas, SA, que na falta de resposta da empresa decidiram em reunião de trabalhadores, entrar em greve pelo pagamento dos salários em atraso a todos os trabalhadores. A situação do não pagamento atempado dos salários e de outras prestações pecuniárias já se arrasta há alguns anos na empresa, os trabalhadores já não recebem os subsídios de férias e de Natal há 4 anos. (22/Fev)
  • Concentração dos trabalhadores do sector público, diante da delegação da Comissão Europeia, em Lisboa, contra as políticas das, no âmbito de uma jornada de luta europeia, promovida pela União Internacional de Sindicatos de Serviços Públicos e Similares, da Federação Sindical Mundial. (23/Fev)
  • Vigília dos trabalhadores da Frente Comum, frente à residência Oficial do Primeiro Ministro, pelo emprego com direitos, por horários de trabalhos justos e contra a destruição das carreiras (28/Fev)
  • Dia Nacional de Acção e Luta, contra a austeridade, a exploração e a pobreza; pelo emprego, salários, direitos e serviços públicos, enquadrado na jornada de luta europeia, promovida pela CES – Confederação Europeia de Sindicatos, a que a CGTP-IN se associou (29/Fev)
  • Uma greve de duas horas dos trabalhadores portuários das ilhas do Faial, Pico, São Jorge, Flores e Corvo, para reclamarem as mesmas condições de trabalho praticadas nas restantes ilhas do arquipélago pela empresa Portos dos Açores (29/FEv-2/Mar).
MARÇO 2012
  • Cerca de dois mil profissionais da GNR, de todo o País, repudiaram o novo regime remuneratório e a extinção do seu subsistema de saúde, num «Passeio contra as injustiças», em Lisboa. (1/Mar)
  • No Vale do Côa, os trabalhadores do Parque Arqueológico e do Côa Museu protestaram contra o fim do seu vínculo público, conquistado com a sua luta e que ficou contemplado no diploma de criação da Fundação Côa Parque. (1/Mar)
  • Plenário Nacional de Dirigentes, Delegados e Activistas Sindicais da Administração Pública, na Casa do Alentejo, com posterior deslocação para o Ministério das Finanças. (2/Mar)
  • Centenas de professores participaram numa vigília da Fenprof, de «24 horas contra a precariedade e o desemprego». Nos últimos seis anos aposentaram-se mais de 23 mil professores mas só entraram nos quadros 396. Ao mesmo tempo tem vindo a acentuar-se a instabilidade, havendo escolas em que mais de metade dos professores têm vínculos precários «há 10, 20 ou mais anos». (2-3/Mar)
  • Concentração de activistas sindicais da empresa Horários do Funchal, em frente à Secretaria Regional dos Transportes, onde entregaram um abaixo assinado de trabalhadores e utentes contra a privatização. (3/Mar)
  • Manifestação dos trabalhadores da EMEF, em Lisboa. (7/Mar)
  • Concentração nacional de dirigentes, delegados e activistas dos sectores das cantinas, refeitórios, restaurantes e pousadas, junto às sedes das associações patronais para exigir a revisão dos CCT´s e o aumento dos salários (14/Mar)
  •  GREVE GERAL contra o pacote de exploração e empobrecimento, Por uma Mudança de Política, Emprego, Salários, Direitos, Serviços Públicos (22/Mar)
  • Concentração contra o "pacote da exploração e empobrecimento", em Lisboa (Largo do Camões), seguida de desfile para a Assembleia da República, onde a proposta de Lei do governo para a alteração do Código do Trabalho era debatida na generalidade. (28/Mar)
  •  Greve na Transtejo, prosseguindo a sua luta contra a alteração das escalas de serviço, contra a redução de carreiras e pela discussão e negociação do seu AE (28/Mar)
  • Manifestação no Dia Nacional da Juventude,  em Lisboa, com o lema "Queremos Trabalho! Exigimos Direitos! Esta País também é para Jovens", para protestar contra o desemprego e a precariedade; pela exigência de políticas que garantam os direitos e respondam aos problemas dos jovens trabalhadores. (31/Mar)

ABRIL 2012
  •  Greves parciais dos trabalhadores da NAV Portugal, pela defesa da empresa e dos postos de trabalho (13/Abr).
  • Concentração de dirigentes e delegados sindicais, no Largo do Intendente, onde funciona o gabinete do presidente da CM de Lisboa, pela continuação dos refeitórios municipais sob a alçada do município. O STML - Sindicato do trabalhadores do Município de Lisboa - entregou um abaixo-assinado contra a «privatização camuflada» daquela área e contra a política de desresponsabilização social do actual executivo. (13/Abr)
  • Greve de 24 horas, por aumentos de salários, respeitando a dignidade e os direitos dos trabalhadores, na fábrica de travões Robert Bosch, em Alferrarede, Abrantes. (13/Abr)
  • Acções nos centros de emprego de Setúbal e do Seixal e em postos de apresentação quinzenal, no Barreiro e no Vale da Amoreira, do Movimento dos Trabalhadores Desempregados (13/Abr)
  • Manifestação Nacional em Defesa do Serviço Nacional de Saúde (organizada pelo Movimento de Utentes dos Serviços Públicos), em Lisboa, Porto e Braga (14/Abr)
  • Greve e manifestação nacional dos guardas-florestais, em Lisboa, com concentração no Largo do Carmo, seguida de desfile até ao Terreiro do Paço, para defronte da secretaria de Estado da Administração Interna e, em seguida, junto ao Ministério das Finanças. (18/Abr)
  • Concentração de Dirigentes, Delegados e Activistas Sindicais, na cidade da Covilhã - Pela Negociação Colectiva, Contra o Roubo de Direitos, por Melhores Salários. (18/Abr)
  • Plenário Nacional de Trabalhadores não docentes das escolas da rede pública, em Lisboa donde partiu um desfile até ao Ministério da Educação e Ciência (20/Abr)
  • Desfiles celebrando os valores e conquistas da Revolução dos Cravos (25/Abril) que constituíram simultaneamente um acto de resistência às políticas de austeridade e à ingerência da Troika.

Domingo, Abril 29, 2012

Os intelectuais

«... Os intelectuais não são apenas uma camada crescentemente assalariada e tendencialmente proletarizada. São uma camada de trabalhadores que, tenham ou não consciência disso, têm nas relações de produção capitalistas o principal bloqueio ao livre desenvolvimento da sua actividade e do seu trabalho criador. O capitalismo, no seu estádio de desenvolvimento actual, exerce uma enorme compressão sobre a autonomia relativa do trabalho intelectual, instrumentaliza e mercantiliza a investigação e a criação científica e artística, a controvérsia filosófica, a comunicação social, a justiça, a educação, a saúde. O imperialismo torna a cultura entretenimento, a ciência arma de destruição, a informação arma de guerra. Não há actividade intelectual cujo livre desenvolvimento não exija hoje a luta contra o capitalismo pela alternativa – o socialismo. Nós sabemos isso. É indispensável que a grande massa dos intelectuais o venha a saber também. ...»

Jerónimo de Sousa, Secretário Geral do PCP, na VI Assembleia de Organização do Sector Intelectual da Organização Regional de Lisboa, 28 de Abril, 2012.

Sábado, Março 31, 2012

Congresso Internacional Marx em Maio



Nos próximos dias 3, 4 e 5 de Maio de 2012, realizar-se-á, na Faculdade de Letras da Universidade
de Lisboa, o Congresso Internacional Marx em Maio, perspectivas para o séc.XXI, organizado pelo
Grupo de Estudos Marxistas (GEM). Congresso multidisciplinar, incluindo participantes das áreas
da Filosofia, da História e da Economia, mas também das Ciências naturais, das Artes plásticas,
da Política e do mundo sindical, o seu fio condutor será a actualidade e fertilidade do pensamento
marxista enquanto instrumento fundamental de análise crítica. Num contexto de crise generalizada,
pautada pela desconsideração do papel da racionalidade, da teoria e da cultura como elementos
fundamentais de transformação, individual e colectiva, o Congresso Marx em Maio procurará
contribuir para o aprofundamento de problemáticas centrais dos nossos dias e para o estímulo de
um pensamento científico guiado por uma racionalidade crítica e dialéctica.

A lista dos participantes, assim como o título das comunicações estão disponíveis em:
http://marxemmaio.wordpress.com

Para mais informações, contactar : grupodeestudosmarxistas@gmail.com

Domingo, Março 18, 2012

Fornecedor de elementos ao Wikileaks acusado de terrorista

 Na passada 5ª e 6ª, em Fort Meade, perto de Baltimore, teve lugar a audição pre-tribunal, a portas fechadas, do soldado de primeira classe Bradley Manning. É acusado de ter passado centenas de milhar de documentos (comunicações e relatórios) militares e do governo ao sítio WikiLeaks. Os procuradores acusam Manning de ter prestado assistência ao al-Qaeda. A defesa alega que Manning não poderia ter tido acesso ao material classificado e que a sua divulgação pouco ou nada pôs em perigo a segurança nacional. Segundo os seus advogados, tem sido tratado "pior do que um suspeito de terrorismo." Durante a audição, a defesa terá pedido acesso a um video que mostrará instâncias de humilhação e tortura de Manning durante a sua detenção. O Presidente Obama, apesar do julgamento não ter tido inicio, já declarou que Manning "violou a lei". (Acompanhem o caso e a campanha de apoio em FireDogLake). 




---- Desculpem o aproveitamento deste caso sério, mas gostava de ouvir opiniões sobre como traduzir "whistleblower" para Português. O sítio Linguee, instrumento útil para traduções, oferece algumas sugestões: alerta-rápido (?), denunciante, ou informante; que me parecem insatisfatórias. O termo original implica mais que apenas denunciar ou informar, acção que pode ser feita por uma variedade de pessoas. Implica que quem denuncia ou informa está numa posição privilegiada de acesso a informação, e que contrariando regras que condicionam a divulgação de informação, toma uma acção de consciência face ao conhecimento de uma ilegalidade mantida em segredo. O termo foi formulado por Ralph Nader, nos anos 1970, invocando o apito do árbitro perante uma falta, precisamente para evitar as conotações negativas de termos como informante ou bufo (pensem informador da PIDE). Uma tradução literal (apitador) carece peso e referencial, mas talvez isso seja por falta de prática do seu uso.