quarta-feira, agosto 23, 2006

Desastre ambiental no Mediterrâneo

Nos primeiros dias do ataque Israelita ao Líbano, entre as várias infraestruturas bombardeadas, encontrava-se uma estação de energia. O ataque foi em sí desmedido pois afectou toda a população Libanesa e não o objectivo assumido - a estrutura do Hezbollah). Em resultado da destruição da estação, 15 mil toneladas de petróleo verteram para o Mediterrâneo, espalhando-se ao longo de mais de 150 km de costa, atingindo a Síria, e possivelmente o Chipre, Turquia e Grécia.
Durante o princípio de Agosto, não puderam ser tomadas quaisquer medidas de tratamento, devido aos ataques aéreos e bloqueio naval Israelita. Só agora, com o cessar-fogo assegurado, é que especialistas podem aferir a gravidade da situação e avançar com medidas.
O ministro do Ambiente Libanês, Yacoub al-Sarrafe, estima o custo da limpeza em USD$200 milhões. Incalculável é o custo ambiental, para a indústria pesqueira, e para o turismo, áreas onde os efeitos do derrame serão sentidos durante mais de uma década.
Paralelamente ao derrame, fogos nas centrais de energia, que duram há semanas, têm lançado gases tóxicos, atingindo um terço da população Libanêsa.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Testes de morte

A guerra sempre serviu como ocasião para investir e testar novas formas de armamento. A ilustração mais sombria na história moderna terá sido o Projecto Manhattan, envolvendo mais de cem mil cientistas, engenheiros e outros técnicos, dispersos em trinta unidades de investigação e produção. Este programa acelerado logrou melhorar a nossa compreensão da energia atómica e torná-la numa arma de guerra. E porque não se podia deixar de demonstrar o resultado de um investimento de cerca de 22,5 mil milhões de dólares (2006), quase 200 mil pessoas morreram em resultado do lançamento das bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki.

Foi também durante a Segunda Guerra Mundial que dois químicos de Harvard desenvolveram o Napalm, ao juntar gasolina aos sais de alumínio dos ácidos nafténico e palmítico, formando um gel incendiário facilmente manuseável. Embora tenha sido usado pelos EUA ainda no final dessa guerra, na Europa e no Pacífico, ou ainda pelas forças militares da Grécia contra as forças comunistas gregas durante a sua guerra civil, o seu uso é geralmente associado à Guerra no Vietname, onde foi usado extensiva e indiscriminadamente. Esta guerra foi também palco da introdução de armas herbicidas, uma forma de arma química, já então proibida pelos Acordos de Genebra. A aplicação destes químicos, incluindo o Agente Laranja, durante uma década, fez muito mais que destruir as plantações da população vietnamita. Afectou a sua saúde e a de milhares de soldados estado-unidenses, causando por exemplo um aumento de incidência de vários tipos de cancro. Embora a Dow Chemical e o Monsanto, companhias produtoras do Agente Laranja, tenham já pago milhões de dólares em compensação a veteranos dos EUA, Austrália, Nova Zelândia e Canadá, nenhum vietnamita recebeu ainda qualquer compensação(1).

O uso de armas químicas precedeu todas estas guerras – o gás mostarda foi usado pelos alemães na frente europeia em 1917 e pelos britânicos contra os bolcheviques em 1919 – e, apesar da Convenção sobre Armas Químicas estar em vigor desde 1998, o seu uso persiste ainda hoje. Os EUA usam fósforo branco, um químico incendiário, no Iraque ocupado, como sucedeu por exemplo na batalha de Falluja em Novembro de 2004. E existem indícios de que Israel faz uso deste químico nos presentes ataques ao Líbano(2).

Evidências

Mas tudo isto são formas de armas antigas. Não andam a testar nada de novo? Um documentário recente, Guerra das Estrelas no Iraque, produzido por Maurizio Torrealta e Sigfrido Ranucci para a RAI(3), revela evidências de que os EUA fazem uso no Iraque de armas de energia dirigida (laser) e micro-ondas: metal derretido, corpos sem cabeça ou membros, ou com apenas as cabeças queimadas, corpos reduzidos em tamanho. Sobreviventes das armas misteriosas afirmam que não ouviram qualquer ruído ou explosão. Não tinham balas ou estilhaços nos corpos.

Interrogado sobre se estas armas experimentais já estavam em condições de serem usadas em combate, o Pentágono respondeu «quando o mundo real intervém recorremos a coisas em fase de desenvolvimento e podemos usá-las. Portanto... não tenho resposta. (...) O General Franks está aberto a novas coisas, e se estão disponíveis, está disposto a usá-las em combate, mesmo antes de estarem completamente testadas». O analista William Arkin estima que os EUA gastam provavelmente 300 a 400 milhões de euros no desenvolvimento deste tipo de armas.
Estas armas emitem feixes de electrões, alguns num espectro fora do espectro do visível, têm alcance a longa distância e podem perfurar metal. Contrariamente à maioria das armas convencionais, não usam impacto cinético. Não há uma bala que destrói fisicamente o alvo, mas sim energia, inaudível, possivelmente invisível. Fontes do Pentágono revelam que uma arma laser, conhecida como Zeus, foi já utilizada no Afeganistão. Montadas num veículo móvel (MTHEL(4)), poderiam ser usadas para destruir mísseis e outras instalações. Mas em conjunto com armas acústicas estão também pensadas para actuar contra grupos de pessoas, quer sejam inocentes no Iraque ou um grupo de manifestantes numa cidade ocidental.
__________

(1) Um processo legal movido por um grupo vietnamita nos EUA foi rejeitado pelo juiz do Tribunal Distrital em Março de 2005. Um apelo movido mais tarde deverá ter sessão de argumentos no final deste ano.
(2) O Human Rights Watch alerta que Israel tem também feito uso de bombas de fragmentação contra civis Libaneses.
(3) Pode ser visto buscando o nome original, Star Wars in Iraq, em Google Video (http://video.google.com/)
(4) Mobile Tactical High Energy Laser

quarta-feira, agosto 16, 2006

Diplomacia??

É razoável exigir-se que só se opte pela intervenção militar quando estiverem esgotadas todas as opções diplomáticas. Mas a diplomacia, até por exigência do próprio processo, faz-se muitas vezes por detrás de portas fechadas. Como saber então se os parceiros estão a negociar de boa fé? Como pode a opinião pública avaliar se a diplomacia foi de facto esgotada? Quando por vezes os esforços diplomáticos são divulgadas, a comunicação social nem sempre detalha em pormenor as propostas em cima da mesa, ou retrata apropriadamente os acontecimentos que precedem as negociações. Mas o Deus e o Diabo estão nos detalhes. Temos assistido a inúmeros casos em que os EUA tem declarado o falhanço da via diplomática, quando na verdade trabalhou para a subverter, sempre com a preocupação porém de criar a ideia que esforços foram desenvolvidos da sua parte, mas recusados por parte do opositor.

Veja-se o recente exemplo durante a crise no Líbano. O Hezbollah sequestrou 2 soldados Israelitas a 12 de Julho, com o objectivo, explicitado de imediato, de negociar a sua troca por prisioneiros Libaneses. Israel negou-se a fazer qualquer troca, afirmando que com terroristas não se pode negociar, e ripostou militarmente em peso. Importava recordar que Israel não só já havia negociado com organizações que considera terroristas, como inclusivamente já o havia feito com o Hezbollah, tendo realizado em 2004 uma troca de centenas de prisioneiros Libaneses e Palestinos pelos corpos de 3 soldados Israelitas (ver). Após o irromper do conflito armado, a Secretária de Estado dos EUA, Condoleeza Rice, afirmava-se firmemente por um cessar-fogo, assim que possível, quando as condições estivessem reunidas (ver), isto é, depois de destruída a infraestrutura Libanesa, enfraquecido o Hezbollah (ou assim pensavam), e posicionadas tropas Israelitas no sul do Líbano. Diplomacia à lei da bala.

Intimamente associado ao conflito no Líbano está o relacionamento dos EUA (e Israel) com o Irão, que os EUA tem vindo a alegar possuir planos de produção de armas nucleares. Neste contexto, tem sido praticamente irrelevante não serem apresentadas corroborações de tal alegação: o Director Geral da Agência Internacional de Energia Atómica, Mohamed ElBaradei, re-afirmou em Abril deste ano que não existem evidências que o Irão esteja a desviar material nuclear para fins bélicos (ver). Sobre o Presidente Iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, tem-se desenhado uma caricatura de pessoa perigosa e incapaz de negociar, que nega o Holocausto e proclama querer destruir Israel (embora uma leitura atenta dos seus discursos torne claro que tais caracterizações são exageros enviesados (ver)). Com o terreno já calcado, o porta-voz do Departamento de Estado do EUA, Sean McCormack, pôde afirmar que "nada indica que os Iranianos estejam dispostos a entrar num processo diplomático sério" sobre o assunto nuclear (ver).

Como entender então que o Irão tido um papel positivo na Conferência de Bona em finais de 2001, onde se discutiu o futuro do Afeganistão pós-Taliban, incluindo limitar as exigências de lugares ministeriais da Aliança do Norte. Como agradeceu os EUA? Incluindo o Irão no Eixo do Mal, no discurso do Estado da Nação. Apesar disso, o Irão continuou a lançar a mão diplomática, colaborando na luta contra o terrorismo e al-qaeda. A pedido dos EUA enviou tropas para vigilar a fronteira com o Afeganistão para evitar a fuga de elementos do al-qaeda; e suspendeu os vistos de alguns dos seus elementos que teriam entrado no Irão. Ainda em em 2002, apoiou a iniciativa Árabe pôr fim ao conflito com Israel, um considerável afastamento da sua recusa em reconhecer o estado judaico, sob a condição de Israel cumprir as resoluções 242 e 338 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Mas a persistência de uma atitude agressiva por parte dos EUA, apesar da boa vontade demonstrada, levou o Líder Supremo Ayatollah Ali Khamenei a denunciar negociações com os EUA como inglórias.

Em 2003, porém, deu-se a ocupação Estado-unidense do Iraque. O Irão viu-se com três trunfos para conversações diplomáticas: a sua influência sobre os grupos Shia no Iraque; os elementos do al-qaeda em detidos no Iraque, que os EUA desejavam interrogar; e as preocupações dos EUA com o programa nuclear Iraniano. Enviou então uma proposta de conversações onde oferecia concessões no seu programa nuclear, reforço da sua acção contra terroristas refugiados no Irão, abertura na sua relação com Israel, terminar o apoio material aos grupos Palestinos (como o Hamas e Jihad Islâmica) encoragando-os a porem fim à acção violenta, e pressionar o Hezbollah a tornar-se apenas numa organização política. O Presidente Bush, o Vice-presidente Dick Cheney, o Secretário de Defesa Donald Rumsfeld e o então Secretário de Estado Collin Powell decidiram ignorar a proposta. Mais, na ausência de provas Rumsfeld alegou que o ataque terrorista em Riade, em Maio de 2003, havia sido cometido por elementos do al-qaeda provindos do Irão, e implicaram uma cumplicidade entre o Irão e a al-qaeda. Rumsfeld cancelou então um encontro com represantes do Irão e fechou as portas diplomáticas. Mas no outono desse ano, Richard Armitage, sub-secretário de estado afirmava ao Congresso que os EUA estavam dispostos a dialogar, mas apenas quando o Irão concordasse partilhar inteligência sobre a al-qaeda (!). O Irão iniciou então diálogo com a Grã-Bretanha, França e Alemanha, mas a relutância dos EUA em negociar impedia chegar-se a um acordo (ver).

Um processo semelhante sucedeu no tratamento da Síria pelos EUA. No seguimento dos ataques do onze de Setembro, a Síria disponibilizou milhares de ficheiros de inteligência sobre a al-qaeda aos EUA, tornando-se uma das principais fontes de informação dos EUA sobre a organização. Na altura, mostrou-se também aberta a conversar sobre o seu apoio ao Hezbollah (ver). Embora a Síria não tenha sido incluida na versão final do Eixo do Mal, era considerada como tal pelos neo-conservadores, e as vias diplomáticas foram fechadas. Em 2003, Israel estava disposto a negociar com a Síria, inclusivamente sobre os Montes Golã, mas os EUA desencoragou-os.

Nestes e outros casos (veja-se a habilidade com o a Administração Bush destruiu as aberturas criadas por Bill Clinton com a Correia do Norte), o interesse dos EUA tem sido criar a ilusão de impossibilidade de diplomacia. Conjuntamente com um espectro de ameça imediata corroborada por fabulações, prepara terreno para eventuais aventuras militares.

terça-feira, agosto 15, 2006

Estratégia de longo prazo: ataque ao Líbano prelúdio para ataque ao Irão

Segundo Seymour Hersh, investigador e vencedor do Prémio Pulitzer por ter exposto o massacre de My Lai durante a guerra do Vietnam, no seu mais recente artigo no New Yorker, revela que Israel tinha planos de ataque ao Hezbollah, que havia partilhado com a Administração Bush, bastante antes do sequestro de 12 de Julho. Esperavam por um momento oportuno para implementar o plano de bombardeamentos massivos, prevendo que mais cedo ou mais tarde o Hezbollah lançaria um ataque. Daí que a campanha alargada tenha surgido tão rapidamente após o sequestro.

No início da primavera, houve estreita cooperação entre a Força Aérea dos EUA e Israel - por si nada de original - com o fim específico de elaborar um estratégia de ataque a instalações subterrâneas. Tanto o Iraque como o Hezbollah possuem artilharia, armazens de armamento, etc. enterrados e protegidos de ataques convencionais. O ataque Israelita no sul do Líbano foi, do ponto de vista dos EUA, um prelúdio para o que poderá vir a ser um ataque dos EUA ao Irão. Ao enfraquecer o Hezbollah, pensavam, estariam também a precaver-se contra a sua resposta contra Israel quando o ataque ao Irão tivesse lugar.

Contudo, ao contrário do que pensava Israel e os EUA, os ataques só marginalmente enfraqueceram a capacidade do Hezbollah, que não só resistiu aos ataques como os evadiu e pode continuamente lançar ataques contra Israel, lançando mais de 12 mil mísseis de curto-alacance. Os ataques à infraestrutura Libanesa (aeroporto, estradas, depósitos de combustível, etc) tão pouco levaram a população Cristã e Sunni Libanesa a revoltar-se contra os Shias do Hezbollah. E os países árabes maioritariamente Sunni (e.g., Egípto, Arábia Saudita, Jordão), que a Casa Branca deseja que forme um bloco de oposição aos países maioritariamente Shia (e.g., Irão, Síria), embora inicialmente tenham culpado o Hezbollah pelo conflito, mudaram de postura quando confrontados com a violência de Israel e os protestos de outros países e dos seus próprios cidadãos.

Hersh descreve também alguma tensão dentro do núcleo duro da Casa Branca em torno desta campanha. Israel dirigiu-se primeiramente ao gabinete do vice-presidente Dick Cheney, convencido que recrutando o seu apoio seria abrir caminho para o apoio do Presidente George W. Bush e os restantes elementos da Casa Branca. Cheney aprovou os planos de ataque massivo ao Líbano e insistiu que tal deveria ser feito rapidamente, para permitir que os resultados fossem avaliados e planear então o ataque ao Irão, enquanto Bush está ainda na Presidência. Rumsfeld está convencido que os ataques aéreos que funcionaram no Afeganistão, mas não no Iraque, também não funcionarão contra forças entrincheiradas como o Hezbollah. Para as erradicar será necessário enviar tropas terrestres, e Rumsfeld sabe os custos que tal está a implicar no Iraque.
Desde 12 Julho:
~1,100 mortos no Líbano (maioritariamente civis)
1/4 população Líbanesa desalojada
tecido económico destruido no Líbano
100 soldados e 40 civis em Israel (ver)