A crise financeira dos EUA e as suas repercussões globais são motivo de atenção e preocupação. A queda na bolsa não atinge apenas os mais ricos, mas afecta directamente os trabalhadores norte-americanos, cujas pensões estão investidas em Planos de Poupança Reforma – 401(K) –, os quais consistem em portfólios de acções. Menos atenção tem sido dada à simultânea crise da economia real dos EUA, a crise de produção, de vendas, de crescente empobrecimento e desemprego. Enquanto o governo federal aprova um pacote de ajuda financeira aos bancos na ordem dos 700 mil milhões de dólares(1), a classe média, os trabalhadores, o crescente número de pobres vê a sua situação agravar-se sem solução no horizonte.
O novo Prémio Nobel da Economia, Paul Krugman, escreveu recentemente: «Só nesta semana, vimos as vendas comerciais caírem num precipício, o mesmo com a produção industrial. As declarações de desemprego estão ao nível de um acentuada recessão, e o Philadelphia Fed, um índice de manufactura, está a cair ao ritmo mais rápido dos últimos 20 anos. Todos os sinais indicam uma depressão económica que será grave, brutal – e prolongada. (...) a taxa de desemprego vai certamente ultrapassar os 7 por cento, muito possivelmente os 8 pontos percentuais, fazendo desta recessão a pior num quarto de século».(2) Só este ano, o sector privado perdeu um milhão de postos de trabalho. A taxa de pobreza durante os dois mandatos de Bush cresceu de 11,3 para 12,5 por cento. Os trabalhadores têm visto os seus horários de trabalho reduzidos e os seus salários perderem valor face à inflação.(3) Embora esteja previsto um aumento do salário mínimo – rendimento de 1.7 milhões de estadunidenses – para $6,55/hora, este é muito inferior ao valor de há 40 anos, ajustado para a inflação: $10/hora.
Um número crescente de trabalhadores necessitam de um segundo (ou terceiro) emprego para obterem um rendimento de subsistência familiar. Mais de 3 milhões de famílias perderam a sua casa, por execução da hipoteca, nos últimos dois anos.
Desigualdade social e batalha das urnas
Em paralelo, cresce a desigualdade económica. Durante a presidência Bush, o rendimento médio decresceu 2,5 por cento para o quinto mais pobre da população, mas aumentou 9 por cento para o quinto mais rico. O 1 por cento mais rico da população possui cerca de 34 por cento da riqueza, mais que o 90 por cento mais pobre da população, que são quase um terço do total. À custa de grandes isenções fiscais para os mais ricos e os monopólios, e do dispêndio militar hercúleo (mais de metade da despesa militar mundial), incluindo a ocupação do Iraque e Afeganistão, a dívida pública federal ultrapassou a marca dos 10 milhões de milhões de dólares.
É neste contexto de grave situação económica, financeira e social que dentro a 4 de Novembro os norte-americanos vão às urnas. Toda a atenção está virada para as candidaturas de Obama/Biden e McCain/Palin. Mas estas não são as únicas candidaturas: ao todo existem 6 a nível nacional, entre as quais destaco Nader/Gonzalez (independente) e McKinney/Clemente (Partido Verde). Estas listas antimonopolistas, antiguerra e por mais justiça social e económica têm sido excluídas dos debates e da comunicação social.
Obama tem liderado as sondagens nacionais e também algumas pesquisas que têm em conta as sondagens estaduais (e portanto prevêem a composição do colégio eleitoral).(4) Cada Estado elege um número de delegados ao colégio eleitoral, valor diferente consoante o Estado; é o colégio que depois elege o presidente. Isto reduz a corrida eleitoral a apenas alguns Estados, os chamados Estados pendulares (swing states), cujo resultado é muito incerto, e sobretudo, entre estes, aos que elegem mais delegados ao colégio eleitoral, como Ohio ou a Florida.
Prevendo-se um aumento de afluência às urnas nestas eleições(5), já está a decorrer uma batalha por quem aparece nos cadernos eleitorais. Recorde-se que foi, em parte, através da exclusão de eleitores dos cadernos, em particular africano-americanos (que votam sobretudo no Partido Democrata), e da redução do número de mesas de voto (aumentado assim o tempo de espera), que Bush conseguiu vitórias tangenciais em localidades-chave garantindo (fraudulentamente) a maioria no colégio. Acrescem problemas com o voto electrónico, como no Estado pendular de Ohio, onde decorre um batalha judicial em torno dos cadernos. Um em seis eleitores foi apagado dos cadernos pela Secretária de Estado do Colorado (Republicana); mais de 2,7 milhões de eleitores foram apagados nacionalmente sob as novas regras aprovadas por Bush.(6) A luta vai até o próprio dia das eleições.
_______________
(1) Este valor ultrapassa os orçamentos anuais conjuntos dos ministérios estadounidenses da Educação, Saúde e Defesa [só este gigantesco], o que corresponde ao triplo do PIB português (actualmente nos 232 mil milhões dólares/ano).
(2) New York Times, 17 October 2008
(3) Economic Policy Institute; epi.org
(4) O escrutínio eleitoral presidencial não é nacional (como demonstrou a derrota de Al Gore, em 2000, que obteve a maioria dos votos a nível nacional). Para projecções da composição do colégio eleitoral vejam o sítio do New York Times ou fivethirtyeight
(5) A taxa de abstenção para as presidenciais ronda os 45 por cento. Mas só em Ohio, Estado pendular, registaram-se 700 mil novos eleitores.
(6) gregpalast
domingo, outubro 26, 2008
sábado, outubro 18, 2008
Fim da Ocupação Já
Dezenas de milhares de Iraquianos, na sua maioria xiitas seguidores do clérigo Moktada al-Sadr, marcharam em Bagdade, exigindo a retirada imediata das tropas estaunidenses e opondo-se a quaisquer negociações entre o Governo Iraquiano e os EUA que cedam autoridade e soberania aos EUA. É redutor caracterizar esta afirmação simplesmente como «anti-americana». É uma manifestação de auto-determinação, de defesa da soberania de um povo, de resistência a uma ocupação.O acordo em consideração permitiria a presença de tropas dos EUA no Iraque até 2011, em função da evolução das forças Iraquianas, passaria a conceder jurisdição ao Iraque sobre as empresas privadas estadunidenses, incluindo as forças de segurança privadas e mercenário, mas manteria a imunidade às forças militares dos EUA. (ver)
Perante a multidão al-Sadr declarou:
"Estou com todo o Sunita, Xiita, ou Cristão que se opõe ao acordo ... e eu rejeito, condeno e renuncio a presença das forças e cases occupantes na nossa terra. (...) Se vos dizem que o acordo põe fim à presença da ocupação, deixem-me dizer-vos que o ocupante vai reter as suas bases. E quem vos diga que isso nos dá a nossa soberania é um mentiroso."
O analista Iraquiano Abdulhay Yahya Zalloum, disse à Al Jazeera que o acordo enfrenta resistênca da maior parte das comunidades no Iraque.
"Não é apenas al-Sadr que se opõe ao chamado pacto de segurança ... a comunidade Cristã, pelo menos uma boa parte dela, tal como a maior parte da comunidade Sunita também se opõe ao pacto.
Recentemente a comunidade Sunita declarou que seria contra o Istão aceitar um pacto de segurança com os EUA.
Temos de entender que, primeiro, os EUA vieram sem convite e, segundo, que este suposto acordo foi negociado enquanto 150,000 tropas estadunidenses mais pelo menos 50,000 mercenários ainda estão no Iraque. Terceiro, o governo foi na verdade escolhido pelos estaunidenses, assim quando temos um país sob ocupação, com pseudo-independência, não se pode esperar que os termos seja do interesse do Iraque."
Por qué no te callas?
O Ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha, Miguel Moratinos, declarou hoje que irá trabalhar para que a Geórgia venha a integrar a NATO e criar relações de maior proximidade com a União Europeia, quando a Espanha assumir a presidência da UE em 2010. Num momento em que as relações entre a Geórgia e a Rússia continuam tensas devido à situação na Ossétia do Sul e Abkázia, estas declarações são de uma enorme irresponsabilidade, só ultrapassada pelo extemporâneo reconhecimento, por Portugal, da auto-proclamada independência do Kosovo. Ambas posturas reforçam a ideia de escalada da aliança atlântica contra a Rússia.As tensões ainda não se dissiparam. Ainda hoje, depois de um suposto ataque pela Geórgia, forças separatistas da Ossétia do Sul receberam ordens para disparar caso sejam novamente atacadas por forças Georgianas. O líder da província, Eduard Kokoity, acusou os monitores da UE de parcialidade, de não estarem a conseguir sustentar o cessar-fogo, e de tornar a situação pior. Porque havia a Espanha de inistir neste contexto em trazer um país em tamanha instabilidade para dentro da NATO, se não para dar cobertura a resposta coordenadas da Aliança Atlântica?
A Geórgia ocupa uma posição geoestratégica central na crítica zona do Cáucaso. Além de permitir a instalação de bases militares da NATO perto da Rússia e do Irão, a Geórgia é local de passagem de planeado oleoduto Baku-Tbilisi-Erzrum-Ceyhan, que transportará petróleo do Mar Cáspio até ao Mediterâneo e daí até à Europa e EUA, neutralizando a influência dos oleodutos que transportam daquele Mar, através da Rússia, até o Mar Negro.
A amizade com os EUA remonta já ao ano de 2002, através do treino por mais de 2500 militares Georgianos pelas forças militares do EUA, e pelo envio de tropas Georgianas para o Kosovo (250 homems), Afeganistão (50) e Iraque (2000). Depois da cimeira em da NATO em Istambul (em 2004), lançou-se uma campanha massiva de promoção da adesão à NATO, que incluiu conferências, concertos, comunicações nas universidades e escolas. Mas, segundo o Partido Comunista Unificado da Geórgia: «houve uma supressão ditatorial de quaisquer posições contra a consolidação com a NATO, contra a via militar para alançar a integridade territorial do estado, e contra o agravamento das relações com a Rússia.» O referendo que teve lugar escrutinou 79% de apoio à integração da Geórgia na NATO.
sexta-feira, outubro 17, 2008
Homenagem a Urbano Tavares Rodrigues
O escritor, professor catedrático, jornalista, investigador, crítico literário e teatral, resistente anti-fascista e militante comunista Urbano Tavares Rodrigues, aos 84 anos, vai lançar o seu último livro: "A Última Colina".Deu uma recente entrevista ao programa "A quinta essência", na Antena Dois. Podem ouvir a entrevista, seus comentários sobre a escrita e o seu activismo e militância comunista em mp3 (47MB).
A «Jangada de Pedra» presta assim a sua humilde homenagem a este grande escritor português e querido camarada. Que a saúde te mantenha entre nós ainda por muitos mais anos. Avante!
Vejam também a seguinte recente entrevista sobre o seu último livro:
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Andre Levy
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quinta-feira, outubro 16, 2008
Batalha eleitoral nos EUA
No próximo dia 4 de Novembro, os olhos do mundo irão acompanhar atentamente as eleições dos EUA, para ambas as câmaras do Congresso e, particularmente, para a Casa Branca. Apesar do seu declínio como potência económica, os EUA constituem ainda a principal potência imperialista global, são responsáveis por metade das despesas militares mundiais, e possuem centenas de bases militares em 36 países estrangeiros. O resultado eleitoral terá, inevitavelmente, reflexo sobre o decurso histórico global, em particular em zonas de grande tensão como o Médio Oriente e o Cáucaso.
O dia das eleições será o culminar de um processo que teve o seu início há quase dois anos, logo após as eleições intercalares de 2006, envolveu um longo período até à nomeação dos candidatos dos Partido Democrata (PD) e Republicano (PR), e superou todas as anteriores eleições em termos de angariação de fundos: 1.2 mil milhões de dólares (somando os fundos do PD e PR), quantia 81% superior à do período homólogo nas eleições de 2004 (ver).
Contrariando a tendência história mais recente, o PD tem superado o PR na recolha de fundos, o que descreve em certa medida a tendência de voto da burguesia Estadunidense e certamente reflecte que na corrida para a Casa Branca o dólar é quem mais ordena. As exigências financeiras e a bipolaridade imposta pelo sistema eleitoral e pelos média tem ofuscado a existência de outras candidaturas, fora do habitual espectro do PD e PR. Na verdade existem ao todo 6 listas candidatas à Casa Branca, entre as quais, pelo seu caracter mais progressista, destaco apenas duas.
Ralph Nader, uma voz anti-monopolista e pela defesa do consumidor, volta a candidatar-se, como independente, juntamente com Matt Gonzalez. Recorde-se que Nader nas eleições de 2000, enquanto candidato do Partido Verde (PV), quase atingiu os 5% de votos a nível nacional, meta necessária para que este partido viesse a receber financiamento federal. A lista do PV em 2008 distingue-se por apresentar duas mulheres, uma afro-americana e uma latina, Cynthia McKinney com Rosa Clemente. McKinney foi, enquanto membro da Casa de Representantes pelo PD, das vozes (e voto) mais activas contras as políticas reaccionárias e imperiais de Bush, pela investigação dos eventos do 11/Setembro, e pela defensa das vítimas do Furação Katrina. O seu “radicalismo” conduziu à sua derrota, durante as primárias do PD, para a reeleição como representante do seu distrito no Congresso.
Todas as atenções, porém, estão apontadas para as candidaturas “viáveis” de Obama/Biden e McCain/Palin. De pouco valerá recordar as inconsequentes convenções partidárias, feitas para televisão, e as escolhas dos candidatos vice-presidenciais: o experiente mas tépido Joe Biden (PD) e Sarah Palin (PR), inexperiente e extremista religiosa e política. Ou descrever os insossos debates televisivos, que pouco terão contribuído para esclarecer as posições dos candidatos. Ou descrever os múltiplos ataques televisivos à personalidade dos candidatos. Ou recordar as inúmeras peripécias da corrida presidencial, como a tentativa de golpada de McCain ao interromper a campanha para regressar a Washington e defender o acto de Bush/Paulson de disponibilizar 700 mil milhões de dólares destinados a socorrer diversas instituições financeiras (valor que ultrapassa os orçamentos anuais conjuntos dos ministérios Estadunidenses da Educação, Saúde e Defesa). A discussão pública sobre os temas de maior importância para os Estadunidenses tem sido parca e pouco diferenciadora.
Uma vitória de Barack Obama terá sem dúvida grande significado, sendo o primeiro presidente africano-americano. Existem sem dúvida diferenças entre eles, em termos da sua experiência (Obama como constitucionalista, McCain como senador de longa data), na postura diplomática face ao resto do mundo, no entendimento de matérias económicas e medidas a tomar, nos grupos e sectores sociais que os influenciam, e nas suas nomeações governativas e judiciais. Mas ambos, por exemplo, aceitam uma continuação da presença militar ocupante no Iraque, uma escalada militar no Afeganistão, e ataques preventivos ao Paquistão (sem conhecimento prévio do seu presidente). No seio do PD é marcante a diferença de discurso face ao início das primárias, quando a presença de outros candidatos, como Edwards e Kucinich, forçaram todos os candidatos a discutir os problemas que afectam a classe trabalhadora empobrecida.
As sondagens a que temos acesso projectam uma vitória de Obama. Contudo, as sondagens apresentadas pelos média portugueses são a nível nacional. O escrutínio porém é repartido por estados. Cada estado elege um número de delegados para o colégio eleitoral, e é a maioria neste colégio que elege o presidente. Como a derrota de Gore para Bush, em 2000, demonstrou, é possível assegurar a maioria dos votos a nível nacional, mas perder as eleições no colégio. Isto reduz a corrida eleitoral a apenas alguns estados, os chamados estados pendulares (swing states), cuja vitória por um dos partidos não está à partida assegurada, em particular, entre estes estados, aos que elegem um maior número de delegados ao colégio eleitoral. Os votos no colégio de um estado como a Califórnia (55) ou o Texas (34) são quase garantidos para o PD e PR, respectivamente. Por outro lado, vitórias em estados como Ohio (20) e a Florida (27) podem ser determinantes para assegurar a eleição. Nestes estados, a afluência às urnas poderá repercutir no resultados finais. A taxa de abstenção nacional nas corridas presidenciais tem variado, entre 1988 e 2004, entre os 47-50%.Obama tem alguma vantagem, neste respeito, tendo sido capaz, no início da campanha, de mobilizar muitos novos eleitores. Tendo em conta o escrutínio por estado, alguns média projectam uma vitória de Obama, embora este ainda não tenha garantido os 270 votos no colégio eleitoral (ver).É de esperar que o PR tente fazer uso de pressões e fraude para alcançar pequenas margens de vitória locais, com impacto no resultado nacional, como sucedeu na Florida em 2000 e Ohio em 2004.
O certo é que estas eleições põem termo à era Bush/Cheney, que tanto dano causou a nível doméstico e internacional. A menos de 100 dias da saída da Casa Branca, Bush já dá mostras de estar farto do encargo e querer ir descansar para o seu rancho.
O dia das eleições será o culminar de um processo que teve o seu início há quase dois anos, logo após as eleições intercalares de 2006, envolveu um longo período até à nomeação dos candidatos dos Partido Democrata (PD) e Republicano (PR), e superou todas as anteriores eleições em termos de angariação de fundos: 1.2 mil milhões de dólares (somando os fundos do PD e PR), quantia 81% superior à do período homólogo nas eleições de 2004 (ver).
Contrariando a tendência história mais recente, o PD tem superado o PR na recolha de fundos, o que descreve em certa medida a tendência de voto da burguesia Estadunidense e certamente reflecte que na corrida para a Casa Branca o dólar é quem mais ordena. As exigências financeiras e a bipolaridade imposta pelo sistema eleitoral e pelos média tem ofuscado a existência de outras candidaturas, fora do habitual espectro do PD e PR. Na verdade existem ao todo 6 listas candidatas à Casa Branca, entre as quais, pelo seu caracter mais progressista, destaco apenas duas.
Ralph Nader, uma voz anti-monopolista e pela defesa do consumidor, volta a candidatar-se, como independente, juntamente com Matt Gonzalez. Recorde-se que Nader nas eleições de 2000, enquanto candidato do Partido Verde (PV), quase atingiu os 5% de votos a nível nacional, meta necessária para que este partido viesse a receber financiamento federal. A lista do PV em 2008 distingue-se por apresentar duas mulheres, uma afro-americana e uma latina, Cynthia McKinney com Rosa Clemente. McKinney foi, enquanto membro da Casa de Representantes pelo PD, das vozes (e voto) mais activas contras as políticas reaccionárias e imperiais de Bush, pela investigação dos eventos do 11/Setembro, e pela defensa das vítimas do Furação Katrina. O seu “radicalismo” conduziu à sua derrota, durante as primárias do PD, para a reeleição como representante do seu distrito no Congresso.
Todas as atenções, porém, estão apontadas para as candidaturas “viáveis” de Obama/Biden e McCain/Palin. De pouco valerá recordar as inconsequentes convenções partidárias, feitas para televisão, e as escolhas dos candidatos vice-presidenciais: o experiente mas tépido Joe Biden (PD) e Sarah Palin (PR), inexperiente e extremista religiosa e política. Ou descrever os insossos debates televisivos, que pouco terão contribuído para esclarecer as posições dos candidatos. Ou descrever os múltiplos ataques televisivos à personalidade dos candidatos. Ou recordar as inúmeras peripécias da corrida presidencial, como a tentativa de golpada de McCain ao interromper a campanha para regressar a Washington e defender o acto de Bush/Paulson de disponibilizar 700 mil milhões de dólares destinados a socorrer diversas instituições financeiras (valor que ultrapassa os orçamentos anuais conjuntos dos ministérios Estadunidenses da Educação, Saúde e Defesa). A discussão pública sobre os temas de maior importância para os Estadunidenses tem sido parca e pouco diferenciadora.
Uma vitória de Barack Obama terá sem dúvida grande significado, sendo o primeiro presidente africano-americano. Existem sem dúvida diferenças entre eles, em termos da sua experiência (Obama como constitucionalista, McCain como senador de longa data), na postura diplomática face ao resto do mundo, no entendimento de matérias económicas e medidas a tomar, nos grupos e sectores sociais que os influenciam, e nas suas nomeações governativas e judiciais. Mas ambos, por exemplo, aceitam uma continuação da presença militar ocupante no Iraque, uma escalada militar no Afeganistão, e ataques preventivos ao Paquistão (sem conhecimento prévio do seu presidente). No seio do PD é marcante a diferença de discurso face ao início das primárias, quando a presença de outros candidatos, como Edwards e Kucinich, forçaram todos os candidatos a discutir os problemas que afectam a classe trabalhadora empobrecida.
As sondagens a que temos acesso projectam uma vitória de Obama. Contudo, as sondagens apresentadas pelos média portugueses são a nível nacional. O escrutínio porém é repartido por estados. Cada estado elege um número de delegados para o colégio eleitoral, e é a maioria neste colégio que elege o presidente. Como a derrota de Gore para Bush, em 2000, demonstrou, é possível assegurar a maioria dos votos a nível nacional, mas perder as eleições no colégio. Isto reduz a corrida eleitoral a apenas alguns estados, os chamados estados pendulares (swing states), cuja vitória por um dos partidos não está à partida assegurada, em particular, entre estes estados, aos que elegem um maior número de delegados ao colégio eleitoral. Os votos no colégio de um estado como a Califórnia (55) ou o Texas (34) são quase garantidos para o PD e PR, respectivamente. Por outro lado, vitórias em estados como Ohio (20) e a Florida (27) podem ser determinantes para assegurar a eleição. Nestes estados, a afluência às urnas poderá repercutir no resultados finais. A taxa de abstenção nacional nas corridas presidenciais tem variado, entre 1988 e 2004, entre os 47-50%.Obama tem alguma vantagem, neste respeito, tendo sido capaz, no início da campanha, de mobilizar muitos novos eleitores. Tendo em conta o escrutínio por estado, alguns média projectam uma vitória de Obama, embora este ainda não tenha garantido os 270 votos no colégio eleitoral (ver).É de esperar que o PR tente fazer uso de pressões e fraude para alcançar pequenas margens de vitória locais, com impacto no resultado nacional, como sucedeu na Florida em 2000 e Ohio em 2004.
O certo é que estas eleições põem termo à era Bush/Cheney, que tanto dano causou a nível doméstico e internacional. A menos de 100 dias da saída da Casa Branca, Bush já dá mostras de estar farto do encargo e querer ir descansar para o seu rancho.
Contributo para o «Jornal da Voz do Operário»
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