quinta-feira, fevereiro 12, 2009

200 anos do nascimento do Darwin

No dia 12 de Fevereiro comemorou-se o 200º aniversário do nascimento de Charles Robert Darwin, autor da Origem das Espécies, e um dos mais significativos biólogos e cientistas da história. A 24 de Novembro deste ano farão 150 desde da primeira publicação dessa obra.
Escrevi um pequeno texto sobre a importância das comemorações Darwin em Portugal no blog Cinco Dias, onde chamo particular atenção para a falta de ensino da biologia evolutiva nos programas no nosso ensino básico e secundário.
Para informações sobre os eventos comemorativos nacionais e outras informações consultem o sítio biologia-evolutiva.net.
Eu próprio irei dar uma palestra sobre Darwinismo e Marxismo no Espaço Cultural Vitória, no dia 26 de Fevereiro, no âmbito do Programa de Iniciativas Culturais promovidas pelo Sector Intelectual de Lisboa do PCP. Nesse evento, focarei o contexto histórico de Darwin e outras figuras, como o Reverendo Malthus que teve alguma influência sobre o pensamento biológico (não político) de Darwin, e a sobre a forma como as suas ideias foram recebidas por Marx e posteriores Marxistas.
No dia 12, tive o prazer de encarnar a figura de Darwin durante a inauguração da exposição «A Evolução de Darwin» organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian, e que estará na Praça de Espanha, em Lisboa, até o dia 24 de Maio. Recomendo vivamente a exposição. Além de uma excelente exposição e forma de aprender sobre Darwin, evolução e biologia em geral, trata-se de uma exposição que me causa algum orgulho nacional (sentimento que não me é frequente), pois é a maior exposição sobre Darwin no Mundo, em termo de área e diversidade de temas e objectos, que vão desde moldes de animais no seu habitat e do Darwin em jovem, até formas multi-média muito bem integradas (há uma animação de uma transformação gradual de um esqueleto humano em esqueleto de cavalo), até animais e plantas vivas (incluindo orquídeas, uma grande paixão de Darwin, e plantas trepadeiras, que estão a ser fotografadas periodicamente, permitindo visualizar num computador próximo o seu rápido crescimento e movimento). Abaixo coloco uma foto minha (em forma Darwin) juntamente com o paleontólogo Octávio Mateus.

domingo, fevereiro 08, 2009

«Lindos Dias» no NEGÓCIO/ZDB

Lindos DiasTexto Samuel Beckett | tradução João Paulo Esteves da Silva | apoio à dramaturgia Miguel Castro Caldas | encenação Bruno Bravo | interpretação Raquel Dias, Gonçalo Amorim | cenário Stephane Alberto | figurinos Ana Teresa Castelo | assistente de encenação Ricardo Neves Neves | direcção de Produção Mafalda Gouveia | produção Primeiros Sintomas | co-produção Galeria Zé dos Bois

De 4 a 21 de Fevereiro de quarta a sábado às 21:30 no NEGÓCIO/ZDB, Rua do Século 9, Lisboa
Tel: 213 430 205
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Há meses que não ia ao teatro, um dos meus grandes prazeres. Finalmente, tive oportunidade de ir ver a estreia de «Lindos Dias». Que grande re-entrada. Beckett não um teatro fácil, de encenar, de interpretar. Mas Bruno Bravo já havia demonstrado grande competência, sensibilidade e sucesso com «EndGame», que ganhou o Globo de Ouro em 2004.

«Lindos Dias», estreado em em 1962, corresponde a um período semelhante ao de «À Esperan de Godot (1953) e «Endgame» (1957): o período pós-guerra, em Beckett vivia em França (à semelhança do seu amigo e irmão-intelectual James Joyce). Peças despidas de artificialismos teatrais, de um simplicidade de diálogo extrema, e sem ambições de grande subtexto, colocando (poucas) personagens, de interioridade quase oca, a interagirem num mundo indescrito, tentando sobreviver num mundo incompreensível, desesperante sem ser violento.

A peça centra-se na personagem de Winnie, que surge primeiramente enterrada até à cintura num pequeno monte relvado, tentando preencher o seu dia com pequenas actividades rotineiras, e com uma interacção, pouco reciprocada, do seu companheiro Willie, que no primeiro acto se encontra por detrás do monte, e apenas se ouve (raramente) do qual se vêem apenas pequenos traços. Winnie tenta sobrepor-se à sua prisão, com óbvio esforço, entretanto-se com os objectos da sua mala, procurando reacções de Willie, citando trechos de poesia, cantando. Mas o desespero acaba por atingí-la recorrentemente. Mas estas fases vão sendo ultrapassadas com pequenos incidente que ela toma como "grande benesses": um grunhido de Willie, o sol, uma pequena formiga. Vai passando o seu tempo com recordações e interrogações de pouca importância, como o que entender exactamente o que está escrito na sua escova de dentes. Durante o primeiro actos, a comédia equilibra o desespero com a comédia dos pequenos nadas.

A atmosfera torna-se substancialmente mais trágica no segundo acto, em que Winnie surge já enterrada até ao pesoço, e portanto sem uso dos seus braços, incapaz de se entreter com as antigas rotinas, que preenchiam antes o seu dia. Sobre-lhe apenas a palavra. O esforço de Winnie para manter os espírito é palpável, e sentimos de forma mais intensa a sua dificuldade em extrair prazer do que a rodeia, da memória, da palavra. Mas Winnie logra manter ainda um resquício de esperança. Delira com o aparecimento à sua frente (e em plena visão do público) de Willie, que em movimentos lentos tentar acariciar Winnie (ou assim entende ela) ou agarrar o revolver que Winnie havia sacado da mala anteriormente, e pôr assim fim ao seu desespero.

A peça é em largamente soportada pela figura de Winnie, que assume a larga maioria do texto ao longo da peça. Raquel Dias faz um trabalho incrível, subtilmente oferecendo o desespero e o ânimo (ingénuo), natural e humano num situação sem perspectiva de uma saída positiva, que não oferece aos olhos do espectador qualquer esperança. O seu trabalho no segundo acto é notável, pois neste faz apenas uso da cara, como se houvesse um grande plano sobre a sua cara (invocando o filme «Caras» de John Cassavetes). Com recurso apenas à expressão facial e à voz, com grande elasticidde e criatividade, Raquel Dias continua a transmitir toda a subtileza das mudanças de humor de Winnie.

A tradução de João Paulo Esteves da Silva retém não só a simplicidade e universalidade do texto de Beckett, como logra introduzir pequenos elementos que tornam o texto muito português.

Embora Beckett rejeitá-se quaisquer interpretações simbólicas do seu texto cru, cada espectador não pode deixar de reagir e ir criando relações com a sua experiência pessoal. Para mim, o texto ganhou especial relevância por estar em cena num momento em que Portugal (e o Mundo) enfrentam uma histórica crise económica e social, em o desespero e a falta de esperança proliferam, e encontrava na atitude de Winnie grande paralelos como os portuguêses vão tentando manter algum ânimo, alguma esperança, embora não vislumbrem uma saída próxima para crise e suas dificuldades. O facto de esta louvável encenação ter lugar num espaço alternativo, de condições limitadas, é por si só uma illustração das dificuldades que os profissionais das artes do espectáculo entrentam para pôr peças de qualidade em cena. É uma peça que merecia outras condições e outra capacidade de lotação, e conforto para os espectadores. Mas infelizmente, os grandes palcos estão monopolizados por peças de outra natureza, com outros objectivos, não o de provocar e estimular o espectador a pensar e sentir, o de ofereçer uma experiência teatral sem artifícios, mas centrado na qualidade do texto e dos actores. «Lindos Dias» merece ser visto e recomenda-se.

sábado, fevereiro 07, 2009

Acordar a meia da manhã

Calçar os sapatos.
Primeiro, há que calçar as meias.
Onde está a outra?
Só uma não me serve de nada.
Uma, ou Meia?
Há de ser Uma.
Diz-se "par de meias".
Duas Meias são uma Unidade.
É matemático.

Há o par de calças.
Esse par é só Um.
Um par para duas pernas.
Duas Meias são só Um par.
Uma Meia é Um.
Um par de Meias.

Onde está a outra?
Só uma não me serve de nada.
Às vezes trocam de par.
Por distracção.
Para variar.
Desemparelham-se e volta a emparelhar-se.
E anda à roda.
São todas tão parecidas.

Às vezes desaparece uma metade do par.
Acontece. Demasiado.
Para onde vão, não sei.
Estão no vácuo.
Em protesto.
À espera da cara metade.
Da Meia metade.

Onde está a outra?
Só uma não me serve de nada.
Meio par de Meias não me serve para nada.
Olha, uso outro par.
Hoje, troco de Meias.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

«Professores Unidos» por um SPGL mais interventivo


Sem dúvida que um dos marcos da vida nacional de 2008 foi a luta dos professores, que ainda prossegue. Greves, resistências, vigílias e duas das maiores manifestações por parte de um sector profissional jamais vistas em Portugal. Na organização destas diversas iniciativas tiveram um papel os vários espontâneos movimentos de professores, mas particularmente os sindicatos e a estrutura unitária da Plataforma Sindical dos Professores e Educadores [1]. Nesta luta, merece particular destaque o papel da FENPROF, pela sua capacidade de intervenção e mobilização.

Infelizmente, como os professores e educadores da área de Lisboa conhecem bem, a intervenção do sindicato afiliado na FENPROF na região, o Sindicato de Professores da Grande Lisboa (SPGL), tem sido dos sindicatos que integram a federação (FENPROF) o menos interventivo, dos que menos procura contactar os professores nas escolas, aí colocar informação, e mobilizar os professores para as suas iniciativas. A falta de dinâmica do SPGL tem sido em parte ofuscada pela actividade nacional da FENPROF e da Plataforma Sindical. Mas para continuar a luta por uma escola melhor, por melhores condições de carreira para os professores na área de Lisboa, é necessário uma direcção do SPGL mais forte e interventiva. Tal não será certamente alcançado pela actual direcção, cuja eleição em Junho de 2006, só foi possível após um processo eleitoral controverso e pouco transparente (ver). Um SPGL mais forte e combativo, implica também uma FENPROF, uma União dos Sindicatos de Lisboa (UGL), e uma CGTP-IN mais fortes.

Aproximam-se as eleições para a direcção do SPGL. Está em formação uma lista alternativa à actual direcção, «Professores Unidos», uma lista unitária, combativa, que segundo o seu manifesto defende
um sindicato que apoie mais os professores, que alargue a mais escolas a rede de delegados sindicais, que debata com os professores a situação nas escolas e as formas de luta a adoptar em cada momento, única forma de conseguir derrotar as políticas da 5 de Outubro.

É neste contexto que consideramos que só o projecto consubstanciado neste Manifesto pode gerar uma direcção para o SPGL mais próxima das escolas e dos problemas dos professores e do ensino, capaz de responder aos grandes desafios que se colocam ao movimento sindical docente, convocando-nos a participar, à volta do lema “UNIR OS PROFESSORES E EDUCADORES, REFORÇAR A LUTA! ELEGER UMA DIRECÇÃO DE CONFIANÇA.
Visita o blog dos «Professores Unidos» e subscreve o manifesto. Contribui para melhor o SPGL.


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[1] A Plataforma Sindical dos Professores e Educadores é composta pela FENPROF – Federação Nacional dos Professores; FNE – Federação Nacional dos Sindicatos da Educação; SPLIU – Sindicato Nacional dos Professores Licenciados pelos Politécnicos e Universidades; SNPL – Sindicato Nacional dos Professores Licenciados; SEPLEU – Sindicato dos Educadores e Professores Licenciados pelas Escolas Superiores de Educação e Universidades; FENEI – Federação Nacional do Ensino e Investigação; ASPL – Associação Sindical de Professores Licenciados; PRÓ-ORDEM – Associação Sindical dos Professores Pró-Ordem; FEPECI – Federação Portuguesa dos Profissionais da Educação, Ensino, Cultura e Investigação; SIPPEB – Sindicato dos Professores do Pré-Escolar e do Ensino Básico; SIPE – Sindicato Independente dos Professores e Educadores; USPROF – União Sindical dos Professores; SINPROFE – Sindicato Nacional dos Professores e Educadores; e SNPES – Sindicato Nacional dos Professores do Ensino Secundário.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Quo Vadis: Presos de Guantánamo

«O encerramento de Guantanamo levanta o problema do que fazer com os detidos. Alguns dos países da nacionalidade dos presos – não necessariamente o país onde foram apreendidos – recusam-se a recebê-los. Eis que Portugal, na linha da cooperação de Durão Barroso na Cimeira dos Açores, da cooperação com os voos da CIA para Guantanamo – que o actual Governo recusa admitir ou ver investigado – decide oferecer o nosso território como possível destino para alguns dos detidos cujos países nacionais se recusam a recebê-los. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, terá certamente querido dar maior pompa à sua declaração por ocasião do 60.º Aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem (10/Dez.)(1). Mas Amado, ofuscado pela oportunidade de ajudar o «amigo americano» e dar ares de grande humanitário, não terá certamente pensado em todas as consequências da sua oferta. Tal ficou claro quando os deputados do PCP lhe colocaram questões práticas durante uma sessão da Comissão Parlamentar de Negócios Estrangeiros. Amado não tinha respostas, gerando ainda mais interrogações.»