segunda-feira, outubro 26, 2009

Arqueologia narcisista

Descobri o primeiro texto que escrevi e foi publicado. Tinha 5 anos e andava na Escola da Torre, no Restelo. Cada aluno escrevia o seu texto e fazia a ilustração, e todos imprimíamos o «Jornal da Torre» numa poli-copiadora. Sem máquinas de escrever, sem fotocopiadoras, sem impressoras, computadores ou Magalhães. E era divertido. Escusado será dizer que tenho orgulho da escolha do meu tema e da opinião expressa, apesar da coprofilia. Mas tinha 5 anos ...

sábado, outubro 24, 2009

Depois das eleições, quando será a ruptura?

Terminado o ciclo eleitoral de 2009 (uff!) e estando o novo governo em vias de tomar posse, há que respirar um momento e reflectir não só sobre os resultados, mas sobre o percurso da história. Para a esquerda (os sans-coulotte, não os girondinos) os resultados foram positivos (o PS perdeu a maioria absoluta), mas tiveram deixaram alguma insatisfação. Tanto trabalho, tanta luta, tanta força na campanha, tão evidente o falhanço da política de direita, e tão curtos os passos dados. Face à história luta social dos mais diversos sectores laborais, face à crise que o liberalismo vem evidenciando, face à perspectiva de mais ataques aos direitos dos trabalhadores e à função social do Estado, podia-se esperar uma rejeição mais pronunciada da política de direita, quer protagonizada pela direita tradicional (PSD/PPD e CDS-PP), quer pelo PS de José Sócrates. A ruptura necessária com a política de direita não veio a concretizar-se nas urnas numa dimensão suficiente para que se dê uma viragem política ao nível das instituições burguesas. Não tinha expectativas de que essa viragem ocorresse via o sistema eleitoral determinado pelas forças dominantes, com a consciência do eleitorado fortemente influenciada pela comunicação social ao serviço do Capital. Mas era necessário um sinal mais claro. Não tendo esse surgido nos votos, terá agora que continuar a expressar-se na luta e resistência dos trabalhadores e do povo.

Vem isto também a propósito de duas posturas que tenho constado entre os que lutam pela mudança. Os que assumem tratar-se de um longo processo histórico e os que concebem que esta poderá ocorrer a qualquer momento. A primeira vez que ouvi um camarada de meia-idade afirmar a sua dedicação à luta, mas que já não tinha esperança de assistir a uma mudança no seu tempo de vida, fez-me alguma impressão. Não sendo o equivalente ao cristão que sofre neste mundo, porque conta com a paraíso além da morte, mas expressava um travo de desânimo. Desalento que, de um momento para o outro, se podem traduzir num abandono da luta, na prioridade dada à melhoria das condições individuais. Alguns seguirão essa caminho, outros continuam a lutar afincadamente na perspectiva de melhorar as condições para as gerações seguintes, e porque lutar é preciso. Um camarada justificou esta atitude com o perigo do desapontamento caso se procure a mudança, e ela nunca mais surja. Mas eu creio ser mais positivo lutar com a perspectiva de que esta é possível, não só num futuro a médio ou longo prazo, mas também a curto prazo. Numa intervenção, exagerando esta posição, apontei até uma data para a revolução. Não me recordo bem, mas foi algo com 12 de Março de 2012. O exagero da data concreta de parte, não creio ser exagerado pensar que uma ruptura pode suceder a curto-prazo. Não cairá do céu. Será fruto da luta, da organização, da mobilização. Mas a história demonstra que mudanças radicais podem surgir rapidamente, que as condições sociais podem amadurecer com grande velocidade, sendo difícil antevê-las a uns anos de distância. A história do século XX está pejada de mudanças rápidas. Quem previa em 1955 que no quintal dos EUA surgisse passados 4 anos uma revolução socialista em Cuba? Quem previa após a queda do muro de Berlim que passados menos de uma década se alastrasse o movimento Bolivariano e anti-imperialista na América Latina?

Por isso, sem ilusões, luto porque é necessário e urgente, mas com a perspectiva que a ruptura pode estar ao virar da esquina. Luto para contribuir para virar essa esquina e andar pela avenida da liberdade e justiça social. Pois essa ruptura, essa revolução é não só necessária como possível, reunidas as condições. E a luta trava-se para criar essas condições. Tenho também cada vez mais consciência que a luta não termina quando se der a ruptura política, económica e social. Esta tomará outra forma mas persistirá durante gerações. Mas recuso, por feitio ou talvez pela minha juventude em erosão acumulada, acatar que não assistirei à ruptura.

Termino com uma citação do recente livro de Miguel Urbano Rodrigues (que recomendo), «Meditação Descontínua sobre o Envelhecimento» (p.90):
Gramsci escreveu na prisão que "o tempo é a coisa mais importante, é um simples pseudónimo da vida." Ele lutou até ao fim, mas esteve sempre lucidamente consciente dos estragos que nas fileiras da esquerda resultam da convicção de que não há alternativa ao capitalismo, quando ela se instala entre gente que começa a vacilar.

0 tempo para a classe dominante é, como lembra lstván Meszaros, o eterno presente e o futuro aparece-lhe como a extensão da ordem natural, isto é o capitalismo.

Ao capital é indiferente que o tempo histórico da humanidade transcenda o tempo dos indivíduos. Mas o revolucionário - e não só - faz suas aspirações e valores que aproximam a humanidade das suas potencialidades temporais, positivas.

0 tempo histórico de cada homem pode portanto entrar em conflito com o da humanidade ou estar em harmonia com ele, se, como ser social, fizer opções que ajudem a libertar a humanidade da ameaça de destruição, encaminhando-a para um futuro sustentável.

Como a vida humana é breve, a passagem do tempo, no processo de envelhecimento, gera, mesmo em jovens envolvidos em processos revolucionários sem perspectivas a curto prazo, um sentimento de inquietação que evolui para um pessimismo que empurra para o abandono, a ruptura do compromisso. Voltando a Meszaros, ele expressa essa realidade ao afirmar que a ordem social do capital "degrada o tempo inescapável do tempo histórico significativo - o tempo de vida tanto dos indivíduos como o da humanidade - à tirania do imperativo do tempo reificado do capital".

quinta-feira, outubro 22, 2009

Novo Governo : Caras Lindas

Já foi anunciada a composição do novo governo (mudanças de pastas estão sublinhadas):

Primeiro Ministro: José Sócrates

Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros – Luís Amado

Ministro de Estado e das Finanças - Fernando Teixeira dos Santos

Ministro da Presidência – Pedro Silva Pereira



Ministro da Defesa Nacional - Augusto Santos Silva (ASS era Min. Assuntos Parlamentares no anterior governo; o anterior ministro era Nuno Severiano Teixeira)

Ministro da Administração Interna – Rui Pereira

Ministro da Justiça - Alberto Martins (o anterior ministro era Alberto Costa)

Ministro da Economia, da Inovação e do Desenvolvimento - Vieira da Silva (Vieira da Silva estava no MTSS; Teixeira dos Santos também assegurava este Min.)


Ministro da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas - António Manuel Soares Serrano (substitui Jaime Silva)

Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações - António Augusto da Ascensão Mendonça (substitui Mário Lino)

Ministra do Ambiente e do Ordenamento do Território - Dulce dos Prazeres Fidalgo Álvaro Pássaro (substitui Francisco Nunes Correira)

Ministra do Trabalho e da Solidariedade Social - Maria Helena dos Santos André (substitui José Viera da Silva)


Ministra da Saúde - Ana Maria Teodoro Jorge

Ministra da Educação - Isabel Alçada (substitui Maria de Lurdes Rodrigues)


Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior - Mariano Gago



Ministra da Cultura - Maria Gabriela da Silveira Ferreira Canavilhas (substitui José António Pinto Riberito)

Ministro dos Assuntos Parlamentares - Jorge Lacão (substitui Santos Silva)

Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros - João Tiago Silveira


Maria de Lurdes: la la la la, yeah yeah, goodbye

quarta-feira, outubro 21, 2009

8!8!8!

Oito horas de trabalho, oito horas de tempo livre e social, oito horas de sono.
Parece uma fórmula simples, equilibrada e saudável.
Quase que custa a acreditar que o limite das oito horas de trabalho diário foram conquistadas tão recentemente.
Mais inacreditável é que esse limita na prática deixado de existir. O novo código de trabalho não só permite jornadas de trabalho de 10 e 12 horas, como pressupõe que os dias livres que assim se ganhem possam ser passados como se de um domingo se tratasse. Como se os outros elementos da família não tivessem afazeres, trabalhos com outros horários, igualmente flexíveis. É a supremacia da eficácia do uso da força de trabalho sobre o bem-estar do trabalhador.

Vejam o blog: 8!8!8!

segunda-feira, outubro 19, 2009

Matar sem risco

A primeira preocupação de um presidente dos EUA quando decide envolver o seu país numa guerra é o número de fatalidades das suas forças militares. Os danos colaterais, isto é, as vítimas inocentes no território alvo não são suficientemente graves para obrigar a repensar uma acção militar. São, quanto muito, um problema de relações públicas a resolver. Mas vítimas Estadunidenses: isso já afecta a opinião pública doméstica. Há que camuflá-las (proibindo a publicação de fotos de caixões re-enviados para os EUA) e minimizá-las. O ideal seria poder infligir danos sem colocar em perigo as suas forças militares. E para isso é que o Departamento de Defesa recebe um orçamento monstruoso e as companhias como a Boeing, Northrop Grumman, Raytheon e Lockheed Martin recebem contratos públicos na ordem dos milhares de milhões de dólares. Nada melhor que as aeronaves de "reconhecimento", como este MQ-9, usado pelos EUA e Grã-Bretanha no Iraque e Afeganistão. Estas aeronaves comandas por via remota, e portanto sem pilotos ou passageiros (em inglês são referidos como drones ou UAVs: Unmanned Aircraft Vehicle), não são apenas para "reconhecimento". Alguns são armados com misseis Hellfire e usados para ataques sobre territórios inimigos ou mesmo sobre territórios "amigos" sem conhecimento e autorização dos mesmos: caso a aeronave seja detectada e abatida, não há risco de piloto capturado e problema diplomático. A aeronave em baixo, o Predador MQ-1, foi primeiramente usado para "assassinatos de precisão" no Afeganistão, a partir de bases no Paquistão e Uzbequistão. Claro que precisão é uma questão de opinião. O embaixador Paquistanês Azmat Hassan afirmou em Julho deste ano que dos cerca de 40 ataques usando UAVs, apenas 8-9 militantes da al-Qaeda foram mortos. O insuspeito Brookings Institute estima que 10 civis morrem por cada militante da al-Qaeda. A revolta entre os civis perante tais ataques e a intensificação do ódio face ao ocupante superam qualquer erosão que os ataques militares provoquem na organização terrorista.
Ora, resulta que o Presidente do EUA e Prémio Nobel da Paz, Barack Obama, já autorizou mais ataques de UAVs sobre território Paquistanês nos seus 9 meses e meio na Casa Branca do que o Bush nos seus 3 anos finais como presidente.

A política dos EUA na região é aliás aparentemente cheia de contradições. Para a entender é preciso rasurar qualquer fragmento de discurso aparentemente diplomático e ambição de estabilização. Como entender que os EUA apoiem o Paquistão e simultaneamente ataquem o seu território e cidadãos, sem autorização do seu governo? Como entender porém que coordenam com esse governo uma ofensiva militar Paquistanesa sobre o sul do Waziristão (no noroeste do Paquistão, junto à fronteira com o Afeganistão) levando 150 civis a procurarem refugio? Como entender que persistem em levar adiante a farsa das eleições no Afeganistão, quando as Nações Unidas reconhece que houve fraude e que aceitar os resultados fará mais para destabilizar o país? E que apoio deu os EUA ao grupo Suni Jundallah que cometeu o ataque no Irão que matou 6 comandantes da Guarda Revolucionário, o mais grave ataque nos últimos 20 anos?

Voltando ainda aos UAVs: estes foram usados também, em Março deste ano, pelas forças armadas Israelitas sobre a Faixa de Gaza, matando 48 civis, incluindo 2 crianças e um grupo de mulheres numa rua deserta. Mais uma demonstração de precisão. Apesar do cessar-fogo com o Líbano, Israel é acusado de voar UAVs sobre o território do Líbano em violação da Resolução 1701. Israel aliás tem outros meios de ataque à distância. Uma investigação das Nações Unidas sobre explosões no passado fim de semana no sul do Líbano revelou que foram devidas a aparelhos aí colocados durante o recente invasão de Israel, e detonados via remota por Israel, felizmente sem resultar em feridos.