quinta-feira, fevereiro 25, 2010
quarta-feira, fevereiro 24, 2010
Ser precário é bom? Mentiras com números.
Os números oficiais indicam um aumento de 30% na taxa de desemprego, entre Dezembro de 2008 e 2009, que atingiu particularmente os trabalhadores com vínculo e teve menos impacto sobre os trabalhadores precários. Isto tem sido aproveitado para argumentar que a precariedade é boa, menos sujeita ao desemprego. Mas este argumento é falacioso. A verdade é que temos de ter em conta tanto a criação como a destruição de postos de trabalho. Os trabalhadores com vínculo têm sido sujeitos a violentos ataques e despedimentos. À destruição destes postos de trabalho correspondeu uma escassa (ou quase nula) criação de novos vínculos. Por outro lado, os trabalho precário têm aumentado. Mas a repartição da taxa de desemprego não significa que estes não sejam vítimas do desemprego. Significa que tem havido uma transferência de postos de trabalho com vínculo para trabalho precário, e que os trabalhadores com vínculo (muitos na casa dos 40-50 anos de idade) não têm conseguido trabalho.
Interpretar a maior incidência do desemprego nos trabalhadores com vínculo como expressão de que o trabalho precário é "melhor" porque menos sujeito a desemprego é uma obscenidade.
Igualmente obsceno é exigir que os desempregados tenham de provar que procuram emprego activamente, tendo eles por vezes de se dirigir ao patrão que não os emprega e pagarem 5€ para apresentar uma declaração de como tentaram procurar emprego. Dinheiro que lhes sai do subsídio de desemprego, que já de si é uma miséria.
sábado, fevereiro 13, 2010
Caravana ao Sahara Ocidental

O CPPC organiza uma caravana de solidariedade aos acampamentos de refugiados saharauis, localizados em Tinduf, Argélia, por forma a reforçar a divulgação e sensibilização da opinião pública portuguesa face a este flagelo.
Durante a estadia será inaugurada a escola de ensino básico em Dajla que foi reabilitada através do CPPC e com o apoio de vários municípios portugueses.
Apelamos a integrar a Caravana de Solidariedade.
Mais informações poderão ser disponibilizadas na sede do CPPC, através dos contactos telefónicos (21 386 33 75) e de e-mail (conselhopaz@netcabo.pt).
Pela Paz no Sahara Ocidental, A Direcção do Conselho Português para a Paz e Cooperação
quinta-feira, janeiro 28, 2010
Faleceu Howard Zinn
Diz-se que os vencedores escrevem a história. Por isso, obras que contam a história do ponto de vista dos colonizados, dos oprimidos e explorados são de significativo valor. Obras como «As veias abertas da América Latina» de Eduardo Galeano, ou «As cruzadas vistas pelos Árabes» de Amin Maalouf. Nesta linha histórica, «Uma história do povo do Estado Unidos» de Howard Zinn (e o seu livro de acompanhamento «Vozes da história do povo dos Estados Unidos» que Zinn compilou juntamente com Antony Arnove). Esta obra constitui um marco na historiografia dos EUA pois conta a não a "gloriosa" história deste país, mas os efeitos da colonização sobre as populações indígenas; os custos da escravização, da exploração durante o desenvolvimento industrial e da política capitalista e imperialista dos EUA; e a opressão dos movimentos pelos direitos cívicos das mulheres, da minorias raciais e dos movimentos pela paz.Zinn alistou-se na Força Aérea dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial, e foi a sua participação na Guerra e, em particular, o bombardeamento de populações civis, que o conduziu ao pacifismo e à oposição activa nas subsequentes aventuras militares dos EUA. Além de académico, em Boston, e autor de inúmeras obras, Zinn sempre foi uma voz activa e crítica à política capitalista e imperialista dos EUA, participante destacado no movimento pelos direitos e liberdades cívicos, na oposição à Guerra do Vietnam e no Iraque.
Ontem faleceu Howard Zinn, vítima de um ataque cardíaco. É uma perda, mas produziu um legado que dará frutos.
Shalom

Presos de Auschwitz abraçam os libertadores soviéticos
Comemoram-se nestes dias o 65º aniversário da libertação dos presos do campo de extermínio de Auschwitz pelas tropas Soviéticas que avançavam para Oeste, fazendo recuar o exército Nazi em declínio militar. Face à intensa e longa campanha de revisão história sobre a Segunda Guerra Mundial, sinto que devo sublinhar que esta libertação foi possível pelo Exército Vermelho, aquele que objectivamente derrotou militarmente o regime fascista de Hitler, à custa de grandes sacrifícios (a URSS perdeu 20 milhões de pessoas na Guerra). Só em Hollywood é que os EUA e os Ingleses sobressaem como os grandes vencedores, com grande importância dada ao tardio desembarque na Normandia (D-day).
Há outro mito que convém esclarecer: a de que os presos de Auschwitz não resistiram durante a sua captura. Caso esse fosse o caso, também não seria causa de grande admiração. Dadas as condições a que eram sujeitos os detidos (o medo, a fome, a doença), tão bem descritas em inúmeros comoventes relatos pessoais de sobreviventes ajudam a entender como a estratégia de desumanização cientificamente orquestrada pelos seus captores nazis, criaram condições onde a solidariedade entre os presos era difícil, em que cada um, reduzido a uma condição animalesca, fazia o que podia pela mera sobrevivência até o dia seguinte. Dia que poderia bem ter na agenda a ida para os fornos.
Apesar disso, muitos resistiram sobre diferentes formas. Há que ter nesta instância um entendimento lato de resistência. Manter esperança e fé no ser humano foi uma forma de resistência espiritual pessoal. Atirar-se aos arames farpados electrificados, tomando para si a escolha e modo da sua morte, era uma forma de resistência. Mas houve também resistências organizadas, das quais destaco a acção de uma equipa de Sonderkommando (Unidades Especiais). Estas equipas de presos eram forçados a ajudar os Alemães a limpar os crematórios. Devido ao seu conhecimento do modo e taxa de mortandade nos campos, eram mantidas isoladas dos restantes presos. Geralmente tinham um tempo de vida de apenas alguns meses. A primeira tarefa de um Sonderkommando era limpar os restos do Sonderkommando precedente.
Em Outubro de 1944, a resistência do campo informou o então Sonderkommando que o seu assassínio estava planeado para o dia 7. Cientes do seu futuro, atracaram os SS e kapos com machados, facas e granadas de fabrico próprio, matando 3 SS que foram enfiados vivos para dentro do crematório, tendo depois feito explodir o Crematório IV (Birkenau, parte do complexo de Auschwitz 5 crematórios). A confusão permitiu a fuga de alguns presos, e levou a um levantamento geral. Alguns foram recapturados no próprio dia. Dos que não foram logo abatidos durante o levantamento, 200 foram forçados a despir-se, deitar-se virados para o chão, e baleados na nuca. Um total de 451 Sonderkommando foram mortos nesse dia. Mas não sem reconquistarem a sua liberdade espiritual, resistirem e atacarem os seus opressores. A destruição do Crematório IV salvou incontáveis presos. Milagrosamente, testemunhos dos Sonderkommando sobreviram e estão publicados («Des voix sous la cendre. Manuscrit des Sonderkommandos d'Auschwitz-Birkenau»).
Tive oportunidade de visitar o complexo de Auschwitz-Birkenau, durante uma visita à Polónia no versão de 2006 (ver foto álbum). A primeira unidade, mais perto da população polaca de Oświęcim (re-denominada Auschwitz durante a ocupação Alemã), é a que possui o portão metálico com a frase «O trabalho libertar-te-á». É um campo de vários edifícios de tijolo, agora convertido num museu emocionante. Diversas exposições explicam o tratamento a que foram submetidos o judeus de diferentes partes da Europa, os cristãos, os activistas políticos, os Roma, os homossexuais, descrevem as experiências médicas ali conduzidas, e expõem os montes de malas, utensílios, cabelo, dentes etc que eram roubados e extraídos dos presos. Os alemães eram tão meticulosos no aproveitamento dos seus presos como nas aldeias se aproveitam todos os pedaços de uma vaca. É possível também ver e entrar no único câmara de gás que os Alemães não conseguiram destruir antes da sua retirada. O campo de Birkenau, a alguns quilometros de Oświęcim é também visitável. Aqui encontramos o arco de tijolo por onde entrava o comboio para descarregar os presos. Era aqui que se encontravam grandes parte deles, em barracas de madeira, grande parte delas já destruídas, permanecendo apenas as colunas das lareiras de cada barraca. Algumas foram reconstruídas para fins museológicos. É impressionante ver em presença os beliches de 3 andares onde se amontavam os presos, as condições sanitárias (se é que merecem essa designação). Mas o mais impressionante é a dimensão do campo, pontuado pelas chaminés de tijolo. Visitei o campo no verão, pelo que estava um dia acalorado de céu azul. Havia relva pelo campo. Um tremendo contraste com a lama sobre a qual caminhavam os presos, e o frio que os presos sofreram nos invernos polacos. Ainda assim, há quem negue o Holocausto.





