domingo, junho 27, 2010

Insustentável

Cavaco Silva afirmou, no seu Roteiro da Juventude que:
"A maioria dos que estão aqui sabem que há bastante tempo que o país se encontrava numa situação económica insustentável (...) bastava ter presente a evolução de três variáveis: o desequilíbrio das contas externas, a dimensão da dívida externa e o pagamento ao exterior de juros e outros rendimentos. Analisando estas três variáveis nós sabíamos de certeza que chegaria o dia em que os mercados internacionais exprimiriam dúvidas quanto à capacidade de Portugal gerar riqueza para cumprir os compromissos assumidos no passado"
o país "numa situação económica insustentável". [ver]
Caiu-lhe a boca para a verdade. Não só admitiu que a situação é grave, como que as causas não são recentes. Aliás, com um pouco mais de honestidade, até faria meia culpa pelo desequilíbrios entre importações e exportações, já que teve a sua mãozinha na destruição do aparelho produtivo nacional.

Em abono da verdade, o seu tom não foi totalmente negativo. Face a jovens empreendedores afirmou existir "uma nova geração de empreendedores" no país que "não se resignam" e devem ser apoiados, para que não se vejam forçados a "partir para outras partes do mundo". [ver] E como todos sabemos, a juventude é o futuro.

Acho curioso que estas confissões de Cavaco tenham suscitado declarações de ex-presidentes e candidatos à presidência.

Para Mário Soares um Presidente da República deve "dar sugestões úteis e construtivas" e não "denunciar uma situação" que as pessoas sentem em casa. [ver]. Talvez se Cavaco desse um passeio em cima de um elefante animasse a malta. Pessoalmente, prefiro um presidente que fale a verdade, e prefiro esta versão de Cavaco à sua imitação de avestruz, apelando à calma e serenidade.

Manuel Alegre, sobre um fundo escuro e tenebroso, num jantar em Setúbal, disse que ao "Presidente da República cabe, não palavras de depressão que desmobilizem os portugueses, mas uma palavra de confiança" (...) Diz a SIC: «Reconhecendo que o país está a atravessar momentos difíceis devido à crise provocada pelo sector financeiro, Manuel Alegre defendeu que é preciso encontrar outras soluções para a crise, que não as que estão a ser defendidas pelos defensores do neoliberalismo. » Mas Cavaco não poderia dar soluções alternativas ao neoliberalismo, pois com um ou outro tempero, ele é um dos seus defensores, à semelhança do Primeiro-Ministro Sócrates.

Este recusou-se a comentar o discurso de Cavaco alegando desconhecê-lo (sinal de demência), mas referiu que "muitas vezes se sente sozinho a puxar pela confiança e as energias do país". [ver] Lá está o Zé a fazer um dos seus papeis preferidos: o de vítima misturado com Hércules. Então os seus ministros, Zé, não ajudam a puxar a carroça? O Passos Coelho não tem dado uma mãozinha no PEC? O patronato não tem aplaudido os seus ataques aos direitos laborais? "O que o país precisa de saber é que nos primeiros três meses o crescimento da economia portuguesa foi muito positivo, que nos primeiros cinco meses a nossa execução orçamental é muito encorajadora [pudera com a promessa de privatizações e congelamentos salariais] e quer deveremos deixar uma palavra de confiança a todos os empresários e a todos os agentes económicos" (...) "Não gostaria de comentar as palavras do Presidente da República, eu digo as minhas. O que o país precisa é de confiança. Não acentuem o negativismo".

É preciso dizer a verdade, mesmo que seja negativa. Isso não é negativismo, é enfrentar a realidade. Claro que é preciso também palavras de confiança, mas o Sócrates não tem dito nada de inspirador. A evocação de indicadores económicos de curto prazo não é nada encorajador. O país está mal, e não se perspectiva nenhuma solução dentro dos moldes de pensamento da direita que venha a orientar estruturalmente o país num rumo de recuperação sustentável. Para oferecer confiança, é preciso um outro rumo.

domingo, junho 20, 2010

Em homenagem a Saramago

Pouco poderei adiantar ao muito que foi escrito e dito sobre José Saramago, o jornalista, o escritor, o humanista, o provocador socrático, o activista, o comunista.
Apenas algumas notas pessoais. Recordo-me, jovem adolescente do impacto do Memorial do Convento. Lembro-me da primeira tentativa de o ler. Do confronto com um estilo diferente. De ter finalmente ultrapassado a dificuldade de leitor virgem de Saramago, ao lê-lo em voz alta, e entender quão oral era a sua escrita. Oral falado e pensado. Com isso presente, abriam-se dimensões.
Li já todos os seus romances – sentia sempre antecipação pela edição de mais um, e corria a comprá-lo e lê-lo. Nem todos achei bem conseguidos, como romances. Todos partiam de um génese genial e cativante, mas nem sempre navegavam e chegavam a um porto (caso por exemplo, na minha opinião, de «Jangada de Pedra», que dá nome a este blog). Mas todos continham pérolas. Dos primeiros que li, o que mais me marcou foi o «Levantado do Chão», mas foram muitos os que me marcaram: "Ensaio da Cegueira", "Todos os Nomes", «As intermitências da Morte»,
Estando traduzido para inglês, mesmo antes do Nobel, tornou-se prenda frequente para amigos Estado-unidenses. (A caricatura é do «New York Review of Books», a mais prestigiada revista literária nos EUA.) Saramago era escritor Português, mas universal, e merece ser conhecido. O Nobel foi merecido, e contrariamente de outros assim honrados, fez bom uso desse estatuto em prol das causas da paz e justiça social. Por isso deve ser também lembrado como mais do que um escritor.Merece que recordado pelo muito que deu de si (e disse de si, nos «Cadernos de Lanzarote» e na sua pequena autobiografia de infância «As peqienas memórias»), pela arte, pela divulgação de Portugal (pelos romances, e na obra «Viagem a Portugal»), e por diversas causas, incluindo o Povo Palestino que hoje continua a precisar da solidariedade de pessoas do seu calibre, e de todos nós.

sexta-feira, junho 18, 2010

Ai a minha saúde

A ver se entendo isto.

Primeiro – o Governo Sócrates encerra Serviços de Atendimento Permanente e de urgência, com argumentos de gestor financeiro (o número de doentes não justifica a despesa de ter os serviços abertos), como se fosse possível quantificar economicamente a saúde das pessoas.

Segundo – tenta tranquilizar as populações atingidas dizendo que as zonas serão cobertas por ambulâncias de Suporte Imediato de Vida (SIV). Já vários casos demonstraram que o tempo de resposta de um SIV versus ter um SAP pode ser uma questão de vida ou de morte. Mas admitamos que os SIV são uma resposta adequada.

Terceiro – dos 300 enfermeiros previstos para o quadro do Instituto Nacional de Emergência Média (INEM) só metade foram admitidos e colocados em funções. Portanto, o serviço contínuo de 24 horas das cercas de 60 ambulâncias do INEM a nível nacional (15 SIV e 42 de emergência e reanimação) estão a ser assegurados por 150 enfermeiros, que para colmatar a falta de recursos humanos têm de trabalhar horas extraordinárias. O Governo preferiu pagar milhões de euros/ano em horas extraordinárias para manter os enfermeiros a trabalhar sob condições de cansaço, do que estar a a admitir mais enfermeiros na carreira do INEM.

Quarto – o Governo pretende prosseguir na sua senda de poupanças, que nem um mateiro de olhos vedados e machete na mão, cortando estas horas extraordinárias e para tal desactivando SIVs, as mesmas que supostamente compensariam o encerramento dos SAPs.

A mensagem é clara. Portugueses, não fiquem doentes. Custa muito dinheiro. Agrava a nossa dívida. Não estimula o crescimento económico. Cria instabilidade. Mantenham-se saudáveis.

Informação retirada da coluna do Henrique Custódio no Avante! de 17-6-2010

sábado, junho 05, 2010

Mais um navio para Gaza bloqueado

Na madrugada de Sábado (5/Junho), as forças militares Israelitas (IDF) bloquearam mais um barco do movimento Free Gaza – sediado no Chipre; seguir no Twitter) – que transportava ajuda humanitária para Gaza, forçando-o a atracar no porto Israelita de Ashod. O navio, alcunhado Rachel Corrie – em homenagem à activista Estado-unidense assassinada por uma escavadora Israelita, em 2003, defendendo um povoado Palestino em Gaza – transportava apenas onze passageiros. incluindo a Prémio Nobel da Paz Mairead Corrigan (este Prémio às vezes é atribuído a pessoas corajosas que defendem activamente a paz), tencionava desembarcar em Gaza, recusando os apelos de Israel para dirigir-se a Ashod (a 56km de Gaza) e ser inspeccionado. O Director de Política Estrangeira Israelita, Yossi Gal, prometeu transferir toda a carga, excepto armas (!), a Gaza: estou para ver. O ex-coordenador de ajuda humanitária das NU no Iraque, Denis Halliday, informou, a partir do navio, que sindicatos e oficiais de governo já haviam inspeccionado a carga. Os tripulantes recusaram-se e resistiram pacificamente a abordagem naval.

Este incidente difere do assalto ao Mavi Marmara, alcunhado Freedom Flotilla, que envolveu comandos do IDF a descerem de helicópteros militares, e que resultou na morte de vários passageiros. O IDF alega que os tripulantes resistiram com facas e machados. Bom, resistência pacífica é muito bom, mas se eu estivesse num navio em águas internacionais transportando ajuda humanitária para um povo diariamente alvejado de forma indiscriminada e visse comandos a descerem de rapel armados até aos dentes talvez pegasse numa faca para me proteger. Vejam bem, tal era a ameaça, que entre os tripulantes – cerca de 700 – houve mortes, mas entre os comandos apenas li que três foram atingidos, ficarem inconscientes, foram momentaneamente presos, voltando depois para junto dos IDF, ilesos. Segundo Israel vários tripulantes pertenciam ao grupo Turco "Fundação pelos Direitos Humanos, Liberdade e Ajuda Humanitária" (IHH), que consta da lista Israelita de organizações terroristas por alegadas ligações ao Hamas. [Note-se que o IHH não consta da lista análoga do Departamento de Estado dos EUA, que não é propriamente exclusiva.]

A não-violência desta última intersecção Israelita sublinha que o mais repreensível por parte de Israel não são os mortos, ainda que lamentáveis, do Mavi Marmara mas o bloqueio ilegal a Gaza, o desrespeito de Israel pela Lei Internacional, o cerco e lento massacre de um povo. Esse sim é o crime mais profundo.

(Informações extraídas do jornal Israelita Ha'aretz)
Sobre a história recente de Gaza vejam livro de jornalista do Ha'aretz Gideon Levy (nenhum parentesco recente):

quinta-feira, junho 03, 2010

E agora, depois da grande manifestação do dia 29?

A manifestação do dia 29 de Maio foi uma forte resposta por parte dos trabalhadores, que o Governo fará mal em ignorar. Mas a resistência e luta não pode ficar por aqui. Há lutas sectoriais e lutas previstas em vários locais de trabalho. Mas o momento exige a continuação da luta nacional, unida de todos os trabalhadores e camadas anti-monopolistas. O verão aproxima-se. Há quem fale em Greve Geral, à semelhança da luta na Grécia.

Tive uma troca de impressões no Facebook sobre a inevitabilidade de uma ruptura. (MG: lá está a palavra inevitável.) Houve, na história do movimento socialista, quem lendo Marx e as suas previsões sobre as leis do capitalismo, achasse que não era preciso lutar, que o capitalismo acabaria por ruir sozinho. Este tem-se demonstrado demasiado hábil em fazer face às suas crises cíclicas, sendo evidente que sem luta, o capital não cai como um fruto podre. A história demonstra, também, que face à dinâmica exploradora do Capital, mesmo sobre condições de opressão e repressão, os povos do mundo têm demonstrado que surgiram sempre formas de resistência de maior ou menor forma e eficácia. Creio até que onde organizações revolucionárias sejam desmantelados, mais tarde ou mais cedo, estes tenderão a re-estruturar-se, mais uma vez, como maior ou menor força. Mas de forma alguma tomo por garantido que essa resistência e essas organizações sejam depois capazes de impor uma ruptura face ao Capital. Tomo à letra a frase "Socialismo ou Barbárie", isto é, se não houver ruptura com o capitalismo, com a sua tendência para explorar o homem e esgotar os recursos naturais, podemos entrar num retrocesso civilizacional monumental, se não mesmo na extinção das próprias civilizações ou mesmo da nossa espécie. Estou a argumentar talvez algo subtil: que a vitória sobre o capital não é de todo inevitável. Mas que é possível. Requer não só luta e resistência, mas condições sociais para passar da resistência à construção organizada de uma nova sociedade.

Li recentemente um excelente romance de Roger Martin du Gard: "Os Thibault". O romance tem lugar na véspera e início da primeira guerra mundial, e acompanha, através de um dos personagens centrais (Jacques, que abandona a sua família burguesa para se tornar num revolucionário a tempo inteiro), a discussão no seio da Segunda Internacional, que foi incapaz de organizar uma resistência coordenada à guerra. Partilho convosco dois extractos: uma conversa entre Jacques Thibault e um velho revolucionário (Meynestrel) e uma conversa entre estes dois e outros revolucionários refugiados na Suiça, antes da primeira guerra mundial e da revolução Russa. Claro que há que ler o texto tendo em conta tratar-se de um romance, e tendo em conta o momento histórico. É um pouco longo mas, para quem tiver tempo de ler, é alimento para o pensamento em torno deste tema: a diferença entre período revolucionário, momento insurreccional, e uma revolução:
A voz de Meynestrel chegava até ele, seca, cortante, com uma inflexão sarcástica no final das frases:
—Naturalmente! Eu não oponho às «reformas» um não de princípio! A luta pelas reformas pode ser, em certos países, uma plataforma de combate. O bem estar obtido pelo proletariado, pode, elevando o seu nível, contribuir, numa certa medida, para acrescer a sua educação revolucionária. Mas os vossos «reformistas» imaginam que as reformas sejam o meio de atingir o fim. Mas é apenas um meio, entre muitos outros! Os reformistas imaginam que as leis sociais, as conquistas económicas aumentam necessariamente o dinamismo do proletariado, ao mesmo tempo que a sua comodidade... Havemos de ver! Eles imaginam que as reformas bastarão para fazer surgir a hora em que o proletariado só terá de fazer um gesto para que o poder político lhe caia automaticamente nas mãos. Havemos de ver!... Não há parto sem grandes dores!
—Não há revolução sem crise violenta, sem Wirbelsturm! [Ciclone] disse à parte uma voz. (Jacques reconheceu o timbre germânico de Mithoerg).
—Os vossos reformistas estão redondamente enganados.— continuou Meynestrel.— Enganam-se duplamente: primo, porque sobrestimam o proletariado; secundo, porque sobrestimam o capital. O proletariado ainda está muito longe do grau de maturidade que eles lhe emprestam. Não há suficiente coesão, nem suficiente consciência de classe, nem suficiente... etc., para passar à ofensiva e conquistar o Poder! Quanto ao capital, os reformistas imaginam, porque ele está cedendo terreno, que se deixará roer, de reforma em reforma, até ao fim. Absurdo! A sua vontade contra-revolucionária, as suas forças de resistência, estão intactas.
O seu maquiavelismo não cessa de preparar a contra-ofensiva. Acreditam vocês que ele não saiba o que faz, consentindo nessas reformas que lhe conciliam os oficiais do partido, que dividem a classe trabalhista, estabelecendo diferenciações entre os operá¬rios? Etc.... Naturalmente, bem sei que o capital está profunda¬mente dividido, no interior; bem sei que, a despeito de certas aparências, os antagonismos capitalistas se vão acentuando! Razão de sobra para pensar que, antes de se deixar destruir, o capital jogará todas as suas cartas. Todas! E uma das com que ele mais conta, com ou sem razão, é a guerra! A guerra, que lhe deverá restituir, de um golpe, todo o terreno que as conquistas sociais lhe fizeram perder! A guerra, que lhe permitirá desunir, e aniquilar o proletariado!... Primo, desuni-lo: porque o proletariado ainda não é unanimemente inacessível aos sentimentos patrióticos: uma guerra oporia importantes fracções proletárias nacionalistas às fracções fiéis à Internacional... Secundo, aniquilá-lo: porque, dos dois lados da frente, a maior parte dos trabalhadores será dizimada nos campos de batalha; e o resto será, ou desmoralizado, no país vencido; ou fácil de paralisar, de adormecer, no país vencedor...


—O difícil—enunciou Charchowsky—é saber em que mo mento se deve passar da acção legal à acção violenta, insurreccional.
Skada ergueu o nariz arrebitado:
—Quando o vapor tem muita pressão salta a tampa do sa movar!
Irromperam risos, risos selvagens: o que Vanheede chamava «os seus risos de canibais».
—Bravo! — gritou Quilleuf.
—Enquanto a economia capitalista dispuser de poderes—fez notar Boissonis passando a língua pelos lábios rosados—a reivin dicação popular das liberdades democráticas não poderá fazer pro gredir a verdadeira revolução...
—Naturalmente!—lançou Meynestrel, sem ao menos olhar para o velho professor.
Houve um silêncio.
Boissonis quis retomar a palavra:
—A história aí está... Veja-se o que houve...
Dessa vez foi Richardley quem o interrompeu:
—Sim, a história! A história autoriza-nos a pensar que se possa prever, que se possa fixar antecipadamente o deflagrar de uma revolução? Não. Um belo dia, o samovar salta... O dina mismo das forças populares escapa aos prognósticos.
—Pode ser!—lançou Meynestrel, num tom definitivo.
Calou-se, mas todos os que estavam habituados à sua maneira de ser perceberam que ele se preparava para falar.
Nas reuniões, ele seguia silencioso os seus próprios pensamen tos, e sabia conter-se bastante tempo antes de entrar nos debates. Contentava-se em interromper de tempos a tempos os discursadores com um enigmático: «Talvez!» ou por um evasivo e desarmante: «Naturalmente!» que, pronunciado por outrem, produzia um efeito cómico; mas a acuidade do olhar, a dureza da voz, aquela vontade, aquela reflexão tensa, que se adivinhava nele, não pre dispunham ninguém a sorrir, e forçavam a atenção até daqueles que censuravam as suas maneiras bruscas.
Convém não confundir...—precisou ele de repente.— Pre ver! Pode prever-se uma revolução. Que é que isso quer dizer?
Todos escutavam. Ele esticou a perna doente e tossiu. A sua mão, que lembrava uma garra, e cujos dedos estavam quase sem pre meio fechados como se segurassem uma bola invisível, ergueu-se, roçou a barba e apoiou-se contra o peito:
—Convém não confundir revolução e insurreição. Convém não confundir revolução e situação revolucionária... Nem toda a situação revolucionária engendra necessariamente revolução... Ainda que engendre insurreição... Exemplo: em 1905, na Rússia: primeiro, situação revolucionária; depois, insurreição; mas não revolução. — Concentrou-se durante alguns segundos: — Richardley disse: «Prognósticos». Que é que isso quer dizer? Prever, com precisão, o momento em que uma situação se torne revolucionária, é difícil. No entanto, a acção proletária, exercendo-se sobre uma situação pre-revolucionária, pode favorecer, pode precipitar, o desenvolvi mento duma situação revolucionária. Mas o que, de facto, a de flagra, é quase sempre um acontecimento exterior a ela, inesperado, mais ou menos imprevisível; isto é: cuja data não pode ser fixada antecipadamente.
Apoiara um cotovelo sobre o espaldar da cadeira de Alfreda e encostara o rosto no punho. Por um minuto, os seus olhos de visio nário lúcido fixaram, intensamente, um ponto invisível.
—Trata-se de considerar as coisas tais como elas são. Na realidade. Na prática. (Ele tinha uma maneira própria, estridente como um choque de címbalos de pronunciar a palavra: «prática») —Exemplo: a Rússia... Sempre se volta aos exemplos! aos factos! Apenas isso nos pode ensinar alguma coisa. Não estamos a tratar de matemática. Em matéria de revolução, é como em medicina: há a teoria; e depois há a prática. E há também ainda uma outra coisa: a arte... Passemos adiante. (Antes de prosseguir, dirigiu um leve sorriso a Alfreda, como se a julgasse a única capaz de apreciar a digressão).—Em 1904, na Rússia, antes da guerra da Manchúria, havia uma situação pré-revolucionária. Situação pré-revolucioná- ria que podia, que devia, conduzir a uma situação revolucioná ria. Mas como? Seria possível prever como? Não. Inúmeros abcessos podiam rebentar. Havia a questão agrária. Havia a questão judaica. Havia as histórias da Finlândia, da Polónia. Havia o antagonismo russo-nipónico no Extremo Oriente. Impos sível era adivinhar qual seria o elemento inesperado que trans formaria a situação pré-revolucionária em situação revolucioná ria... E, de repente, esse inesperado produziu-se. Uma camarilha de aventureiros especuladores conseguiu adquirir bastante influência sobre o Czar, para o lançar na guerra do Extremo Orien te, involuntariamente e contra a política do seu ministro dos ne gócios estrangeiros. Quem podia prever aquilo?
—Podia prever-se que a concorrência russo-japonesa na Man chúria provocaria fatalmente um conflito—observou calmamente Zelawsky.
— Mas quem poderia dizer que esse conflito deflagraria em 1905? E que deflagraria não a propósito da Manchúria mas a propósito da Coreia?... Eis um exemplo do que seja o elemento novo, que transforma uma situação pré-revolucionária em situação revo lucionária... Foi preciso, na Rússia, essa guerra, essas derrotas... Somente então se viu a situação tornar-se revolucionária, e desenvolver-se até à insurreição... A insurreição — mas não à revolução! Não a revolução proletária! Porquê? Porque a passagem da situa ção revolucionária à insurreição é uma coisa; mas a passagem da insurreição à revolução, é outra coisa... Não é, filhinha? —acres centou, a meia voz.
Por várias vezes, ao falar, ele inclinara a cabeça, num movi mento rápido, para consultar a fisionomia da rapariga. Calou-se, sem olhar para ninguém. Parecia menos reflectir no que acabara de dizer do que considerar, em tese, aquele conjunto doutrinário cm que gostava de se movimentar sem nunca perder de vista a relação entre a teoria e a realidade, entre o ideal revolucionário tal ou qual determinada situação. Os seus olhos estavam fixos. Naqueles momentos, a sua vitalidade parecia estar toda concentrada na chama escura do olhar; e aquele olhar, tão pouco humano, despertava a ideia de um fogo oculto, ardendo sem trégua no seu íntimo, consumindo o ser, nutrindo-se da sua substância.
O velho Boissonis, a quem as teorias revolucionárias interessavam mais do que a revolução, quebrou o silêncio:
— Sim! Bem! De acordo! E difícil prever a passagem da si tuação pré-revolucionária à situação revolucionária... Mas, mas... Quando se forma esta situação revolucionária, não será possível prever a revolução ?
—Prever!—atalhou Meynestrel, irritado.—Prever... O que importa não é prever... O que importa é preparar, apressar essa passagem de uma situação revolucionária para a revolução! Tu do então depende dos factores subjectivos: aptidão dos chefes e da classe revolucionária para a acção revolucionária. E essa aptidão é a todos nós, formações de vanguarda, que compete levar ao má ximo, por todos os meios. Quando tal aptidão for suficiente, pode então apressar-se a passagem para a revolução. Pode, então, dirigir-se os acontecimentos! Então sim, se vocês o quiserem, pode prever-se!...
[...]
A voz do Piloto [a alcunha de Meynestrel] ergueu-se no silêncio:
—Voltemos ao exemplo russo: à grande experiência. Sempre temos de voltar a ele... Poder-se-ia, em 1904, prever que a situação pré-revolucionária se tornaria revolucionária no ano seguinte, depois das derrotas do Oriente? Não!... Em 1905, uma vez criada pelas circunstâncias essa situação revolucionária, poder-se-ia saber se se iria dar a revolução, a revolução proletária ? Não! E ainda menos se ela podia triunfar... Os factores objectivos eram excelentes, característicos. Mas os factores subjectivos eram insuficientes... Recordem os factos. Condições objectivas, admiráveis! Desastres militares, crise política. Crise económica: crise de munições, miséria... Etc.... E a temperatura sobe depressa: greves gerais, revoltas camponesas, motins, Potenkine, insurreições de Dezembro em Moscovo... Porque é que, no entanto, a revolução não conseguiu brotar da situação revolucionária? Por causa da insuficiência dos factores subjectivos, Boissonis! Porque nada estava no ponto! Não havia verdadeira vontade revolucionária! Não havia directrizes nítidas no espírito dos chefes! Não havia entendimento entre eles! Não havia hierarquia, não havia disciplina! Não havia ligação suficiente entre os chefes e as massas! E principalmente: não havia união entre as massas operárias e as massas rurais: nenhuma forte preparação revolucionária entre os camponeses! [Diria eu e tu MG, não estava ainda estruturado um Partido com características Leninistas.]
—No entanto os mujiks...— arriscou Zelawsky.
—Os mujiks? Eles fizeram, de facto, um pouco de agitação nas suas vilas, invadiram os domínios senhoriais, queimando, aqui e ali, um castelo de barine. Sim! Mas quem foi que consentiu em marchar contra os trabalhadores? Os mujiks! De que se compunham aqueles regimentos que, nas ruas de Moscovo, dizimaram selvaticamente, com as suas fuzilarias, o proletariado revolucionário? De mujiks, só de mujiks!... Carência de factores subjectivos!—repetiu ele com dureza.—Quando se sabe o que se passou em Dezembro de 1905; quando se pensa no tempo perdido, mi discussões teóricas, no interior da social-democracia; quando se verifica que os chefes não se tinham sequer entendido acerca dou fins a atingir, nem mesmo concordado a respeito de um plano táctico de conjunto; a ponto de as greves de Petersburgo terão cessado bruscamente no momento em que começava a sublevação em Moscovo; a ponto das greves dos Correios e Caminhos de Fruo terem terminado em Dezembro, justamente no momento em que a cessação das comunicações teria paralisado o governo, e tê-lu-ln impedido de lançar sobre Moscovo os regimentos que sufocaram a insurreição—então, compreende-se bem porque é que nessa Rússia de 1905, a revolução...—Hesitou, um quarto de segundo,, baixou a cabeça para Alfreda, e murmurou depressa: —...a revolução estava antecipadamente con-de-na-da!
Richardley, que estava sentado e que, com os cotovelos nos; joelhos, o busto inclinado, brincava com os dedos, ergueu o& olhos, surpreendido:
—Antecipadamente condenada?
—Naturalmente! — respondeu Meynestrel.
Houve um silêncio.
Jacques, do seu lugar, arriscou:
—Mas, então, em vez de querer levar as coisas ao fim, não teria sido melhor...
Meynestrel olhava para Alfreda: ele sorriu, sem voltar os olhos para Jacques. Skada, Boissonis, Trauttenbach, Zelawsky e Prezel, faziam sinais de assentimento.
Jacques continuou:
— Porque o czar tinha outorgado a constituição, não teria valido mais...
—  ...entenderem-se provisoriamente com os partidos burgueses—precisou Boissonis.
—  ...aproveitar para melhor organizar metodicamente a social-democracia russa—acrescentou Prezei.
—Não, não sou desta opinião—observou com suavidade Zelawsky.—A Rússia não é a Alemanha. E acho que Lenine tinha razão!
—De modo algum!—exclamou Jacques.—Era Plekhanoff quem tinha razão! Depois da Constituição de Outubro, não era preciso «pegar em armas»... Era preciso parar o movimento! Consolidar o adquirido!
—Eles desanimaram as massas—disse Skada.—Mataram por coisa nenhuma.
—É verdade—tornou Jacques, com ardor.—Eles teriam poupado muitos sofrimentos... Muito sangue inutilmente derramado!...
—Isso depende!—disse Meynestrel, com brutalidade.
Ele já não sorria.
Todos se calaram, atentos.
—Empreendimento condenado?—continuou ele, depois de uma curta pausa.—Sim! E desde Outubro!... Mas sangue inútil? Isso não!...
Levantara-se—o que quase nunca fazia depois de ter começado a falar. Foi até à janela, olhou distraidamente para fora e voltou logo para junto de Alfreda:
—A insurreição de Dezembro não podia levar à conquista do Poder. Seja! Mas seria razão para não agir como se esta conquista fosse possível? Certamente que não! Primeiro, porque não se conhece a importância das forças revolucionárias senão cm prova, quando se faz a revolução. Plekhanoff não tem razão. Era preciso «pegar em armas» depois de Outubro. Era preciso que corresse sangue!... 1905 é uma etapa. Uma etapa necessária; historicamente necessária. É, depois da Comuna, e numa escala maior, a segunda tentativa para transformar uma guerra imperialista em revolução social. O sangue que correu não correu em vão! Até 1905, o povo russo—o povo, e também o proletariado —acreditavam no Czar. Benzia-se ao pronunciar-lhe o nome. Mas desde que o czar mandou atirar contra o povo, o proletariado, e também muitos mujiks, começaram a compreender que não havia nada a esperar do czar, como tão-pouco das classes dirigentes. Num país assim místico, assim retardado, o sangue era indispensável para desenvolver a consciência de classe... E não é só isto! Sob um outro ponto de vista ainda, sob o ponto de vista técnico, técnico-revolucionário, a experiência foi de uma importância extrema. Os chefes fizeram ali uma aprendizagem sem precedentes. Talvez que amanhã percebam isso!
Continuava de pé, o olhar brilhante, pontuando cada frase com um gesto. Os seus punhos tinham uma elegância feminina; e os seus gestos, pela maneira miúda e ondulante que tinha de movimentar os dedos, evocavam o Oriente, as dançarinas de Cambodge, os Hindus que encantam as serpentes.
Acariciou a espádua de Alfreda e tornou a sentar-se:
—Talvez que amanhã percebam isso—repetiu.—A Europa de hoje, como a Rússia de 1905, está nitidamente numa situação pré-revolucionária. Os antagonismos do mundo capitalista trabalham a Europa. A prosperidade é apenas ilusória... Mas quando, como, surgirá o facto novo? Que será ele? Crise económica? Crise política? Guerra? Revolução no interior de um Estado? Quando, como, se formará a situação revolucionária?... Muito astuto será quem o prever!... Pouco importa, aliás. O factor novo surgirá! E o que importa é, nesse dia, estar pronto! Na Rússia de 1905, o proletariado não estava pronto! Por isso, tudo foi por água abaixo. O proletariado da Europa estará pronto? Os seus chefes estarão prontos? Não!... Será suficiente a solidariedade entre as facções da Internacional? Não! A união entre os chefes do proletariado será bastante forte para ser eficaz? Não!... Haverá quem acredite que seja possível o triunfo da revolução sem uma estrita concentração das forças revolucionárias de todos os países? Fundaram, na verdade, esse Centro Internacional. Mas o que é isto? Nada mais do que um órgão informativo. Nem mesmo embrião desse poder central proletário sem o qual nunca será posai urna acção simultânea e decisiva! A Internacional? Uma manifestação da unidade espiritual do proletariado. E isso não é nada... A sua organização real está ainda para ser criada. Tudo está por fazer. Como se exprime a sua actividade ? Por meio de Congressos! Eu não sou contra os congressos: estarei em Viena a 23 de Agosto... Mas, de facto, nada há a esperar dos Congressos!... Exemplo: Basileia, em 1912. Grandiosa manifestação contra a guerra balcânica—naturalmente! Vejamos agora os resultados. Votaram no entusiasmo do momento, resoluções admiráveis. Admirável, sobretudo, a habilidade com que iludiram o problema! E até a expressão «greve geral» nas suas resoluções! Recordem os debates. Alguma vez examinaram esse problema da greve, a fundo, como um problema prático, que se equaciona de modo diferente, conforme o caso, segundo o país ? Qual deverá ser a atitude positiva de tal ou tal proletariado, na eventualidade de tal ou tal guerra ?... A guerra ? Uma entidade. O proletariado ? Uma outra entidade. Sobre essas entidades, os nossos líderes fazem variações oratórias, como o padre no púlpito, acerca do Bem e do Mal. Eis no que estamos! A Internacional permanece no plano dos sentimentos domingueiros. A fusão entre a doutrina, de uma parte, e, de outra parte, a consciência, a força, o impulso revolucionário das massas, ainda não está nem iniciada!