terça-feira, julho 06, 2010

Nacionalismo vs Patriotismo

A recente leitura de «Os Thibault» e a actual leitura de «Hitler: ascensão irresistível? - ensaios sobre o fascismo.», de Kurt Gossweiler, publicado pela editorial Avante!, e o campeonato mundial de Futebol (sobre o qual me vou resistir comentar), tem-me levado a reflectir na importante diferença entre dois termos erroneamente tomados muitas vezes como sinónimos: Nacionalismo e Patriotismo. [Atenção: Esta abordagem será necessariamente simplista, primeiro pela sua dimensão reduzida, segundo porque não tenho formação em ciências sociais e um conhecimento aprofundado da história dos dois conceitos.]

Os conceitos têm contexto e história (i.e., uma evolução), logo convém começar pelo conceito com origem mais antiga: Patriotismo.A palavra tem origem no grego patris. Para os gregos antigos a palavra estava associada à identificação com e à devoção a uma língua, tradições e história, ética, lei, e religião comuns. Sócrates acreditava inclusivamente que a prática patriotismo não era algo estanque, mas sempre sujeita a melhoria, embora a sua opinião não fosse partilhada por outros gregos contemporâneos: o seu julgamento foi, em parte, fundado na sua recusa de divindades gregas oficiais. Surgiu portanto muito antes da noção de Estado-nação. Pessoalmente, gosto até mais do neologismo Matriotismo: falamos na terra mãe, em mátria, em matriarca, mas não existe lamentavelmente este equivalente feminino a patriotismo. É uma formulação mais próxima do conceito Hindu, onde a mátria era entendida como a base de consciência cultural. Mesmo no século XVIII, na Europa Ocidental, patriotismo era entendido como a responsabilidade individual perante os outros cidadãos, uma devoção à humanidade e a uma ética de igualdade e caridade perante os mais desfavorecidos e os que faziam parte da comunidade, independentemente do seu perfil cultural ou étnico.Isto é, Patriotismo não estava ligada a uma etnia, a uma localização geográfica, ou a uma organização política autónoma; nem estava necessariamente em contradição com um amor geral pela humanidade, o que podemos hoje designar como Internacionalismo.
Claro que durante esta fase existiam rivalidades entre comunidades, sentimentos de superioridade e desrespeito por outras comunidades, que eram usados para justificar ideologicamente a expansão de uma pátria, como por exemplo, a expansão do Império Romano. Mas note-se que mesmo neste caso, o Império  Romano não procurou inicialmente uniformizar culturalmente os territórios invadidos. Estes ficavam sujeitos à Lex Romana, considerado como um avanço civilizacional, mas mantinham a sua língua e as suas práticas culturais. O objectivo era integrar mais comunidades, diversas, no Império, não expandir o ser Romano da Península Ibérica ao Médio Oriente.

É no século XIX que surge o conceito de Nacionalismo, de nação como entidade política, com direito a um Estado (o Estado-Nação), no qual há condições para que cidadania esteja restrito a um grupo étnico. Mesmo em Estados multi-étnicos, uma étnica (muitas vezes, mas nem sempre, a maioritária) assumia predomínio político (veja-se o caso do Estado Espanhol). A Nação como algo a proteger; daí necessitar de um Estado próprio; daí vários nacionalismos terem conduzido à noção de "espaço vital" para a Nação. Se tem algo a proteger, é porque em certa medida tem algo que outras Nações não têm. Embora isto não implique a noção de que uma Nação, a nossa Nação, é superior em alguma medida a outras, ao "outro", frequentemente os movimentos nacionalistas associam superioridade, quer recorrendo a feitos modernos, como supremacia industrial, quer recorrendo a feitos ou mitos históricos (e.g, no caso no hino nacional Português, o "nobre povo, valente e imortal", a voz dos "os egrégios avós" que surge da "bruma da memória"). Mesmo Nações sem grande história, caso do povo colonial dos EUA, cedo declarou ter um "manifesto destino", que lhe outorgava o dever de expansão para territórios pretensamente desocupados, invasão de outros Estados, e domínio geoestratégico sobre uma vasta região. Foram das tendências nacionalistas que mesmo em Estados multi-étnicos, como os EUA ou o Brasil (durante a ditadura militar), surgiu o slogan "ame-o [a Nação] ou deixe-o", dirigido a cidadãos desses países que não alinhavam na política do Estado-Nação. 

O conceito de Nacionalismo, sim, está em profunda contradição com o conceito de Internacionalismo, ou cooperação e ligação fraterna entre comunidades ou nações (baseadas no facto de nações comungarem a mesma humanidade). Embora as nações pudessem celebrar acordos ou tratados, estes são acordados como realpolitik, estando implícito um clima de competição entre Estados-Nação, que com uma mudança de contexto podem ser ignorados. Como nota Gotweiler, a contradição entre Nacionalismo e Internacionalismo está muito patente dos primeiros discursos políticos do ultra-nacionalista Adolf Hitler, segundo o qual um operário consciente da importância da unidade dos proletários de todo o mundo não poderia ser um bom alemão, pois colocava as relações com operários de outras nações acima da dedicação à Alemanha; como se um operário Alemão internacionalista não estivesse também interessado na melhoria das condições no seu país. O mesmo relativamente aos judeus, que se consideravam uma Nação (sem Estado na altura), e cuja fidelidade à Alemanha não seria possível. O nazismo aliás espelha bem a identificação entre uma Nação e um perfil cultural, político e racial, muito específico. Esta contradição manifesta-se hoje, na era da globalização, na acusação de que os imigrantes roubam emprego aos nacionais, como se aqueles não contribuíssem para a produtividade do Estado para o qual emigraram.
Não há porém, como já referido, contradição entre ser-se Patriótico (ou Matriótico) e Internacionalista, em desejar-se o melhor para a sua comunidade e para todas as comunidades, em recolher o valor da mátria num contexto global diverso, em que todas as culturas têm direito a existir, provindo daí maior riqueza para a humanidade; e em reconhecer que apesar da existência de uma mátria, à ligações entre mátrias de outra classe que assumem grande importância.

É certo que os dois termos - Patriotismo e Nacionalismo - são hoje frequentemente referidos como sinónimos, pelo que é natural que se associe alguns aspectos próprios da corrente nacionalista com o conceito de patriotismo. Mas as suas raízes históricas e o seu uso demonstram tratar-se de conceitos distintos.Admito que pessoas afirmando-se "patriotas" exibem as formas mais retrogradas de xenofobia, e outras sob a bandeira "nacionalista", procuram promover a participação e auto-determinação de uma Nação (caso da corrente de Rousseau). Mas apesar de tais entre cruzamentos, persistem as diferenças históricas dos dois termos, e fundamentalmente a associação predominante de Nacionalismo com formas de dominância, racismo e xenofobia, e sentimentos de superioridade de uma nação sobre outra. Nem todas abertamente assumirão as formas extremas do Nazismo, devido às suas profundas associações negativas, mas é inegável que o Nacionalismo promovido pelo Partido Nacional Renovador (PNR) em Portugal tem um carácter xenofóbico, de Portugal para os Portugueses, como se o nosso povo não tivesse uma longa tradição de migração.

Uma última palavra sobre o direito à auto-determinação dos povos, um direito reconhecido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, pela Carta das Nações Unidas e explicitamente pela Convenção Internacional sobre Direitos Cívicos e Políticos e pela Convenção Internacional sobre Direitos Económicos, Sociais e Culturais. Ambas convenções afirmam
"Todos os povos têm o direito à auto-determinação. Por virtude deste direito, pode determinar livremente o seu estatuto político e procurar livremente o seu desenvolvimento económico, social e cultural"
Noto que são feitas afirmações sobre a auto-determinação, e não sobre a independência, isto é a implicação que a existência de uma povo, ou Nação, tem direito a um Estado independente. Tal caso deve dar-se quando há uma coincidência entre um território e uma Nação. Foi por exemplo o caso do povo de Timor Leste. Sendo uma povo distinto, sob ocupação Indonésia, com história, língua, cultura e história própria constituía não só um povo com direito à auto-determinação, mas por haver uma coincidência entre uma região territorial e o povo Maubere tinha também o direito a reclamar independência da Indonésia. Não fosse esta uma uma potencia opressora e ocupante, o povo Maubere poderia ter optado por auto-determinação num sistema de região autónoma no seio da Indonésia. Caso semelhante sucede, presentemente, no Sarara Ocidental. Já o mesmo não se poderá dizer de zonas com larga história de ocupação de múltiplas nações. Cada uma terá direito a reclamar um nível de auto-determinação, mas não o direito a um território independente, um Estado, no qual outras nações têm raízes históricas. Tal criaria uma contradição entre os direitos de auto-determinação das várias nações existentes no mesmo território. Assim, quando o movimento sionistas declarou "uma nação sem pais, uma país sem Nação" ignorou esta diferença, ao assumir que a região da Palestina era um deserto étnico, pronto a ser ocupado e dominado por uma única etnia, com direito divino a estabelecer um estado judaico numa região onde há milhares de anos coexistiam várias etnias.

Eu posso afirmar, sem reservas e sentido de estar em contradição, dizer que sou patriótica e internacionalista. Por um lado, tenho um grande amor ao povo português, à sua cultura diversa, do Algarve a Trás-os-Montes, do Continente às Ilhas, uma ligação visceral à sua história, ressonância com a sua música e literatura, uma identificação com a sua forma de ser (sem estereotipar), e uma ligação familiar e de amizade com Portugueses. Sinto igualmente uma ligação com outras culturas, mas de outra natureza. Sou movido por músicas de outras culturas, pela literatura de outras culturas, em grande medida porque contêm aspectos que são universais, fazem parte de uma entidade mais alargada ao qual também pertenço: a humanidade. Sinto também solidariedade pelas lutas de outros povos, porque partilho ligações objectivos de classe: a paz e a justiça social. Identificar-me como Português de forma alguma significa que considere o nosso país ou povo superior, mas considero – porque considero a diversidade cultural um valor – que Portugal tem direito a existir enquanto entidade autónoma e independente. E no actual contexto de ingerência imperial, considero um dever defender a soberania nacional, pois só assim se poderão defender os interesses e a viabilidade do nosso povo e país. Porque considero que as ingerências da NATO e da UE na política nacional Portuguesa não estão alinhadas com os interesses nacionais, pelo contrário, tendem a prejudicá-los e eventualmente eliminar a existência da nossa soberania nacional.

Por fim, mais uma citação de um debate sobre este tema extraído do romance «Os Thibault» (vol. II, pp 230-232):

—Fritsch é um sectário—prosseguiu Jacques.—E depois, pare- ce-me que ele confunde uma porção de coisas, de valores muito diferentes: a ideia de Nação, a ideia de Estado, a ideia de Pátria. Daí essa impressão de que ele pensa em falso, mesmo quando diz coisas que parecem justas.
Vanheede escutava, de olhos cerrados. As pestanas incolores escondiam o olhar; um trejeito abaixava a comissura dos lábios. Recuou até à mesa e, afastando um pouco os ficheiros, os objectos de toilette, os livros, sentou-se.
Jacques continuava, num tom hesitante:
—Para Fritsch e para os que pensam como ele, o ideal inter­nacional implica de início a supressão da ideia de Pátria. Será necessário? Será fatal?... Não julgo isso assim muito certo.
Vanheede ergueu a sua mão de boneca:
—A supressão do patriotismo, pelo menos. Como imaginar a revolução somente no cenário estreito de um único país? A revolução, a verdadeira, a nossa, será uma obra internacional! E que deverá ser realizada ao mesmo tempo em toda a parte, por todas as maiorias trabalhistas do Mundo!
—Sim. Mas, tu vês: tu mesmo fazes uma distinção entre a ideia de patriotismo e a ideia de Pátria ?
Vanheede sacudia obstinadamente a sua cabecinha coberta duma cabeleira crespa, quase branca:
—Isso é a mesma coisa, Baulthy. Veja o que fez o século IXI: exaltando por toda a parte o patriotismo, o sentimento dr pátria, fortificou o princípio dos Estados nacionais, semeou o ódio entre os povos e trabalhou para novas guerras.
—De acordo. Mas não foram os patriotas, foram os nacio­nalistas do século dezanove que, cm todos os países, falsearam a noção de pátria. A uma ligação sentimental, legítima, inofensiva eles substituíram um culto, um fanatismo agressivo. Condenar tal nacionalismo, isso sim, sem dúvida alguma! Mas deveremos, como faz Fritsch, rejeitar ao mesmo tempo o sentimento da pátria ? Essa realidade humana, por assim dizer física, carnal?
—Sim! Para ser um verdadeiro revolucionário, é preciso, inicialmente romper todas as ligações, extirpar de si...
— Cuidado—interrompeu Jacques:—tu pensas no revolucio­nário, no revolucionário-tipo que queres ser; e perdes de vista o homem, o homem em geral, tal como o condicionaram a natureza, a realidade, a vida... Aliás, esse patriotismo sentimental de que falo, poderá ser suprimido? Não tenho a certeza disso. O homem por mais que se esforce é um produto do clima. Tem o seu tempe­ramento de origem. A sua constituição étnica. Pertence aos seus hábitos, às formas particulares da civilização que o moldou. Onde quer que esteja, ele conserva a sua língua. Atenção! Isto é muito importante: o problema da pátria talvez não passe, no fundo, de um problema de linguagem! Onde quer que esteja ou que vá, o homem continua a pensar com as palavras, com a sintaxe, do seu país... Olha ao redor de nós! Os nossos amigos aqui de Genebra, todos esses voluntários, que acreditam de boa fé ter repudiado a sua terra natal e formar uma autêntica colónia internacional! Vê como por instinto eles se procuram, se reúnem, se aglomeram e formam pequenos grupos italianos, austríacos, russos... Pequenos clãs indígenas, fraternais, patrióticos. Tu mesmo, Vanheede, com os teus belgas!...
O albino estremeceu. As suas pupilas de pássaro nocturno fixaram-se em Jacques com um lampejo de censura, depois volta­ram a desaparecer sob a franja das pestanas. A sua miséria física acentuava ainda mais a humildade das suas atitudes. Mas o seu silêncio servia-lhe mais do que tudo para proteger a sua fé, mais firme do que o seu pensamento, e que, sob aparências tímidas, era extraordinàriamente segura de si mesma. Ninguém, nem mesmo Jacques, nem mesmo o Piloto, exercia verdadeira influen­cia sobre Vanheede.
—Não, não—continuou Jacques:—o homem pode expatriar-se mas não pode despatriar-se. E esse patriotismo não tem nada de fundamentalmente incompatível com o nosso ideal de revolucio­nários internacionalistas!... Por isso eu pergunto a mim mesmo se não será imprudente a gente declarar-se, como faz Fritsch, contra esses elementos que são essencialmente humanos, que re­presentam forças. Pergunto mesmo se não será nocivo despojar deles o homem de amanhã. —Calou-se alguns segundos; depois, num outro tom, indeciso, como embaraçado por escrúpulos: —
Penso assim e, no entanto, não ouso escrevê-lo. Principalmente num artigo de poucas páginas. Seria preciso escrever um livro inteiro para evitar os mal-entendidos.—Calou-se de novo, e, de repente:—Aliás, esse livro, também não o escreverei... Pois, afinal de contas, não tenho a certeza de nada! Quem sabe lá? O homem despatriado não é inconcebível. O homem adapta-se. Talvez aca­basse por se acomodar com essa mutilação...

domingo, junho 27, 2010

Insustentável

Cavaco Silva afirmou, no seu Roteiro da Juventude que:
"A maioria dos que estão aqui sabem que há bastante tempo que o país se encontrava numa situação económica insustentável (...) bastava ter presente a evolução de três variáveis: o desequilíbrio das contas externas, a dimensão da dívida externa e o pagamento ao exterior de juros e outros rendimentos. Analisando estas três variáveis nós sabíamos de certeza que chegaria o dia em que os mercados internacionais exprimiriam dúvidas quanto à capacidade de Portugal gerar riqueza para cumprir os compromissos assumidos no passado"
o país "numa situação económica insustentável". [ver]
Caiu-lhe a boca para a verdade. Não só admitiu que a situação é grave, como que as causas não são recentes. Aliás, com um pouco mais de honestidade, até faria meia culpa pelo desequilíbrios entre importações e exportações, já que teve a sua mãozinha na destruição do aparelho produtivo nacional.

Em abono da verdade, o seu tom não foi totalmente negativo. Face a jovens empreendedores afirmou existir "uma nova geração de empreendedores" no país que "não se resignam" e devem ser apoiados, para que não se vejam forçados a "partir para outras partes do mundo". [ver] E como todos sabemos, a juventude é o futuro.

Acho curioso que estas confissões de Cavaco tenham suscitado declarações de ex-presidentes e candidatos à presidência.

Para Mário Soares um Presidente da República deve "dar sugestões úteis e construtivas" e não "denunciar uma situação" que as pessoas sentem em casa. [ver]. Talvez se Cavaco desse um passeio em cima de um elefante animasse a malta. Pessoalmente, prefiro um presidente que fale a verdade, e prefiro esta versão de Cavaco à sua imitação de avestruz, apelando à calma e serenidade.

Manuel Alegre, sobre um fundo escuro e tenebroso, num jantar em Setúbal, disse que ao "Presidente da República cabe, não palavras de depressão que desmobilizem os portugueses, mas uma palavra de confiança" (...) Diz a SIC: «Reconhecendo que o país está a atravessar momentos difíceis devido à crise provocada pelo sector financeiro, Manuel Alegre defendeu que é preciso encontrar outras soluções para a crise, que não as que estão a ser defendidas pelos defensores do neoliberalismo. » Mas Cavaco não poderia dar soluções alternativas ao neoliberalismo, pois com um ou outro tempero, ele é um dos seus defensores, à semelhança do Primeiro-Ministro Sócrates.

Este recusou-se a comentar o discurso de Cavaco alegando desconhecê-lo (sinal de demência), mas referiu que "muitas vezes se sente sozinho a puxar pela confiança e as energias do país". [ver] Lá está o Zé a fazer um dos seus papeis preferidos: o de vítima misturado com Hércules. Então os seus ministros, Zé, não ajudam a puxar a carroça? O Passos Coelho não tem dado uma mãozinha no PEC? O patronato não tem aplaudido os seus ataques aos direitos laborais? "O que o país precisa de saber é que nos primeiros três meses o crescimento da economia portuguesa foi muito positivo, que nos primeiros cinco meses a nossa execução orçamental é muito encorajadora [pudera com a promessa de privatizações e congelamentos salariais] e quer deveremos deixar uma palavra de confiança a todos os empresários e a todos os agentes económicos" (...) "Não gostaria de comentar as palavras do Presidente da República, eu digo as minhas. O que o país precisa é de confiança. Não acentuem o negativismo".

É preciso dizer a verdade, mesmo que seja negativa. Isso não é negativismo, é enfrentar a realidade. Claro que é preciso também palavras de confiança, mas o Sócrates não tem dito nada de inspirador. A evocação de indicadores económicos de curto prazo não é nada encorajador. O país está mal, e não se perspectiva nenhuma solução dentro dos moldes de pensamento da direita que venha a orientar estruturalmente o país num rumo de recuperação sustentável. Para oferecer confiança, é preciso um outro rumo.

domingo, junho 20, 2010

Em homenagem a Saramago

Pouco poderei adiantar ao muito que foi escrito e dito sobre José Saramago, o jornalista, o escritor, o humanista, o provocador socrático, o activista, o comunista.
Apenas algumas notas pessoais. Recordo-me, jovem adolescente do impacto do Memorial do Convento. Lembro-me da primeira tentativa de o ler. Do confronto com um estilo diferente. De ter finalmente ultrapassado a dificuldade de leitor virgem de Saramago, ao lê-lo em voz alta, e entender quão oral era a sua escrita. Oral falado e pensado. Com isso presente, abriam-se dimensões.
Li já todos os seus romances – sentia sempre antecipação pela edição de mais um, e corria a comprá-lo e lê-lo. Nem todos achei bem conseguidos, como romances. Todos partiam de um génese genial e cativante, mas nem sempre navegavam e chegavam a um porto (caso por exemplo, na minha opinião, de «Jangada de Pedra», que dá nome a este blog). Mas todos continham pérolas. Dos primeiros que li, o que mais me marcou foi o «Levantado do Chão», mas foram muitos os que me marcaram: "Ensaio da Cegueira", "Todos os Nomes", «As intermitências da Morte»,
Estando traduzido para inglês, mesmo antes do Nobel, tornou-se prenda frequente para amigos Estado-unidenses. (A caricatura é do «New York Review of Books», a mais prestigiada revista literária nos EUA.) Saramago era escritor Português, mas universal, e merece ser conhecido. O Nobel foi merecido, e contrariamente de outros assim honrados, fez bom uso desse estatuto em prol das causas da paz e justiça social. Por isso deve ser também lembrado como mais do que um escritor.Merece que recordado pelo muito que deu de si (e disse de si, nos «Cadernos de Lanzarote» e na sua pequena autobiografia de infância «As peqienas memórias»), pela arte, pela divulgação de Portugal (pelos romances, e na obra «Viagem a Portugal»), e por diversas causas, incluindo o Povo Palestino que hoje continua a precisar da solidariedade de pessoas do seu calibre, e de todos nós.

sexta-feira, junho 18, 2010

Ai a minha saúde

A ver se entendo isto.

Primeiro – o Governo Sócrates encerra Serviços de Atendimento Permanente e de urgência, com argumentos de gestor financeiro (o número de doentes não justifica a despesa de ter os serviços abertos), como se fosse possível quantificar economicamente a saúde das pessoas.

Segundo – tenta tranquilizar as populações atingidas dizendo que as zonas serão cobertas por ambulâncias de Suporte Imediato de Vida (SIV). Já vários casos demonstraram que o tempo de resposta de um SIV versus ter um SAP pode ser uma questão de vida ou de morte. Mas admitamos que os SIV são uma resposta adequada.

Terceiro – dos 300 enfermeiros previstos para o quadro do Instituto Nacional de Emergência Média (INEM) só metade foram admitidos e colocados em funções. Portanto, o serviço contínuo de 24 horas das cercas de 60 ambulâncias do INEM a nível nacional (15 SIV e 42 de emergência e reanimação) estão a ser assegurados por 150 enfermeiros, que para colmatar a falta de recursos humanos têm de trabalhar horas extraordinárias. O Governo preferiu pagar milhões de euros/ano em horas extraordinárias para manter os enfermeiros a trabalhar sob condições de cansaço, do que estar a a admitir mais enfermeiros na carreira do INEM.

Quarto – o Governo pretende prosseguir na sua senda de poupanças, que nem um mateiro de olhos vedados e machete na mão, cortando estas horas extraordinárias e para tal desactivando SIVs, as mesmas que supostamente compensariam o encerramento dos SAPs.

A mensagem é clara. Portugueses, não fiquem doentes. Custa muito dinheiro. Agrava a nossa dívida. Não estimula o crescimento económico. Cria instabilidade. Mantenham-se saudáveis.

Informação retirada da coluna do Henrique Custódio no Avante! de 17-6-2010

sábado, junho 05, 2010

Mais um navio para Gaza bloqueado

Na madrugada de Sábado (5/Junho), as forças militares Israelitas (IDF) bloquearam mais um barco do movimento Free Gaza – sediado no Chipre; seguir no Twitter) – que transportava ajuda humanitária para Gaza, forçando-o a atracar no porto Israelita de Ashod. O navio, alcunhado Rachel Corrie – em homenagem à activista Estado-unidense assassinada por uma escavadora Israelita, em 2003, defendendo um povoado Palestino em Gaza – transportava apenas onze passageiros. incluindo a Prémio Nobel da Paz Mairead Corrigan (este Prémio às vezes é atribuído a pessoas corajosas que defendem activamente a paz), tencionava desembarcar em Gaza, recusando os apelos de Israel para dirigir-se a Ashod (a 56km de Gaza) e ser inspeccionado. O Director de Política Estrangeira Israelita, Yossi Gal, prometeu transferir toda a carga, excepto armas (!), a Gaza: estou para ver. O ex-coordenador de ajuda humanitária das NU no Iraque, Denis Halliday, informou, a partir do navio, que sindicatos e oficiais de governo já haviam inspeccionado a carga. Os tripulantes recusaram-se e resistiram pacificamente a abordagem naval.

Este incidente difere do assalto ao Mavi Marmara, alcunhado Freedom Flotilla, que envolveu comandos do IDF a descerem de helicópteros militares, e que resultou na morte de vários passageiros. O IDF alega que os tripulantes resistiram com facas e machados. Bom, resistência pacífica é muito bom, mas se eu estivesse num navio em águas internacionais transportando ajuda humanitária para um povo diariamente alvejado de forma indiscriminada e visse comandos a descerem de rapel armados até aos dentes talvez pegasse numa faca para me proteger. Vejam bem, tal era a ameaça, que entre os tripulantes – cerca de 700 – houve mortes, mas entre os comandos apenas li que três foram atingidos, ficarem inconscientes, foram momentaneamente presos, voltando depois para junto dos IDF, ilesos. Segundo Israel vários tripulantes pertenciam ao grupo Turco "Fundação pelos Direitos Humanos, Liberdade e Ajuda Humanitária" (IHH), que consta da lista Israelita de organizações terroristas por alegadas ligações ao Hamas. [Note-se que o IHH não consta da lista análoga do Departamento de Estado dos EUA, que não é propriamente exclusiva.]

A não-violência desta última intersecção Israelita sublinha que o mais repreensível por parte de Israel não são os mortos, ainda que lamentáveis, do Mavi Marmara mas o bloqueio ilegal a Gaza, o desrespeito de Israel pela Lei Internacional, o cerco e lento massacre de um povo. Esse sim é o crime mais profundo.

(Informações extraídas do jornal Israelita Ha'aretz)
Sobre a história recente de Gaza vejam livro de jornalista do Ha'aretz Gideon Levy (nenhum parentesco recente):