sábado, setembro 18, 2010

Última nota sobre a Festa do Avante! de 2010

Desculpem voltar à carga com o tema da Festa, mas tenho de aproveitar enquanto ainda faz o mínimo de sentido. E há tanta pequena história da Festa do Avante! Esta é uma que diz muito. Na sexta uma jovem camarada ao sair de turno na sexta feira deu-se conta que perdeu o telemóvel. Apesar dos esforços não o conseguiu encontrar, e deu-o por perdido. Na segundo, numa última tentativa já sem grande esperança, telefonou para o seu móvel e respondeu uma camarada dos perdidos e achados da Festa. Alguém havia encontrado o móvel e tido o trabalho de o entregar nos perdidos e achados. Aí foram entregar, durante a Festa, não só outras dezenas de móveis, como dezenas de carteiras pessoais, ainda com os cartões e dinheiro em numerário.E não pensem que foram só as pessoas de idade que lá foram fazer as entregas. Segundo os camaradas de serviço, muitos jovens foram lá fazer depósitos. O que não queriam era ficar depois a preencher o impresso da entrega, porque feita a devolução, queriam era voltar à festa. Isto é, não se trata de um incidente isolado de sentido de dever comunitário, mas de um sentimento compartilhado. Não digo que não tenham ocorrido furtos. Ouvi casos de vários. E no parque de campismo exterior é um problema sintomático (a tenda para um ladrão deve ser como um embrulho cheio de prendas à espera de ser colhido). Mas não deixa de ser animador que haja tanta devolução aos perdidos e achados. (Tal como o facto de serem reduzidos o número de casos de crianças que se perdem das suas famílias, no meio de tanta confusão, poderia ser muito pior).
Claro que isto é apenas uma pincelada. Mas que compõe a tela distinta que é a Festa do Avante!, sobretudo quando comparada com as dezenas de Festivais de vão surgindo como cogumelos, e dos quais, tirando um ou outro, apenas se distinguem pelo patrocinador.

Festa do Avante! à distância

Já lá vão quase duas semanas que terminou a Festa do Avante! de 2010. Para os visitantes. Os militantes do Partido ainda estão na desimplantação. Pois, aquela cidade de alegria e combatividade é preciso construir e depois de apenas 3 dias, começar a desmanchar.
Os militantes e amigos da Festa que durante os seus 3 dias dão o seu contributo das mais variadas maneiras são imprescindíveis para o seu funcionamento e sucesso. Mas sem querer marcar uma hierarquia (pois cada um dá o que pode e quando pode), o construtor da Festa tem com esta uma relação especial, que o visitante não se dá conta.
Uma prego na parede, uma escada, um cano de água, uma decoração, do qual um visitante faz uso sem se dar conta, pode conter para os construtores toda uma história. Há construtores que passam meses a erguer a Festa, e habitam aquele espaço antes de entrar a enchente de visitantes dos 3 dias. Nunca passei mais que algumas semanas na construção da Festa, mas o suficiente para constatar a atenção a detalhe dos construtores, por vezes em torno de questões que é sabido na altura os visitantes nem notarão. Horas de sono perdidas, dezenas de dias antes da festa abrir, e até à décima primeira hora (pois a Festa só abre quando está acabada, e só está acabada quando abre), num trabalho de atenção ao detalhe só justificado pelo amor e dedicação ao Partido e à Festa. O que abre espaço a um convívio especial entre os construtores antes da Festa abrir. Depois vem a enchente de visitantes, e os turnos, as tarefas que exigem resposta imediata.É como passar a noite num Museu, onde estão só presentes os artistas, cada um em torno da sua tela ou escultura, e chegada a manhã entra a público, e os artistas tornam-se anónimos, pois a obra tem a assinatura nobre de "colectivo partidário".Abertas as comportas, os construtores camaradas, que antes sabiam onde se encontrar, que se juntavam à noite para jantar, agora estão no meio do mar de gente. Gente para o qual a Festa foi construída.Muitos dos quais têm presente o espírito colectivo e generoso com que a Festa foi montada e funciona. O que tento explicar é que esse espírito é mais profundo e puro do que pode ser transcrito em meras palavras, ou inferido pela sua proclamação ou observação durante a Festa ou até participação numa Jornada diária de trabalho.O que tento é saudar, agradecer, louvar, os construtores do evento político e cultural sem paralelo no mundo. E não exagero na comparação. Tendo tido vários anos a oportunidade de contactar com membros das delegações estrangeiras, é comovente ver a reacção dos que vêm pela primeira vez à Festa e vêm a quantidade e diversidade de gente, de oferta de diversão e cultura, da expressão de luta. Reacção elevada ainda quando compreendem que o espaço foi montado e é mantido pelo colectivo partidário.
A Festa é exigente. Poderá ser um desvio de alguns esforços da luta social e política, mas é um espaço de formação de consciência, de trabalho colectivo, de teste das capacidades, de convívio. A Festa do Avante! não são só 3 dias. É uma faceta do projecto de transformação social do PCP.

sábado, setembro 11, 2010

Onze de Setembro

Este dia do ano passou a ter uma carga emocional imensa. Talvez nenhum outro dia do ano, à excepção talvez de feriados religiosos, tenha a mesma ressonância mundial. Quer se queira quer não a referência a este dia, devido aos ataques de 2001, remete a um conjunto de emoções diversas consoante a pessoa, desde um dia de tragédia, um dia de vingança, um dia que veio precipitar uma escalada imperialista que incluiu até agora duas invasões, ocupações e colonizações imperiais (no Afeganistão e Iraque), assente em mentiras e meias-verdades, que causou mais mortes civis que os ataques de 2001.

Nos EUA, a expressão «911» foi durante os anos seguintes a 2001 uma constante no discurso político, qualquer que fosse o tema: aumento de despesas militares, limitação de liberdades democráticas, aperto nas fronteiras, apelo ao consumo, razão para arrasar países que nada tiveram que ver com os incidentes desse dia.

Apesar do impacto que o 11 de Março de 2004 teve em Madrid, ou o 7 do 7 de 2005 em Londres, a nível mundial, é o 11 do 9 que persiste em ter o maior significado.

É compreensível que por esta altura sejam lembrados outras efemérides associadas a este dia. Nunca é por demais recordar que foi neste dia, em 1973, que o fascismo de Pinochet assassinou centenas de chilenos e derrubou o legítimo governo de Salvador Allende e o progresso de democracia popular em curso, seguindo-se anos escuros de ditadura e submissão aos ditames dos experimentalistas económicos de Chicago. Este golpe é recordado agora muitas vezes como forma de contraste com os incidentes de 2001 nos EUA, para sublinhar que este dia carrega outra tragédia, no qual o EUA teve um papel condutor nada desprezável.Mas esta forma de contraste deixa-me sempre insatisfeito. Primeiro, porque o golpe no Chile merece ser relembrado por si só, sem necessidade de se falar "no outro Onze de Setembro". Mas também porque independentemente das causas dos incidentes nos EUA e da forma como os interesses financeiros e o seu governo Bush-Cheney-Rumsfeld-Powell-Rice veio a tirar proveito da ocasião, não devemos deixar de também sentir pesar pelos que faleceram na zona das torres gémeas, no Pentágono e em Pensilvânia. Entre os falecidos estão trabalhadores das zonas atingidas e dos serviços de socorro que acorreram aos locais. Não se trata de comparar responsáveis, ou a quantia de mortos. Apenas frisar que o nosso humanismo não deve deixar de se estender às vítimas desse dia nos EUA. Os membros do povo que nesse dia faleceu foi vítima directa dos responsáveis pelos ataques e pela historial de política externa dos EUA, e não é responsável pelo que foi feito em seu nome – como muito bem frisaram muitos familiares dos falecidos.

Talvez esteja a reagir exageradamente. Nunca se irritaram quando numa notícia de um acidente aéreo ou natural algures no mundo a segunda e última frase da notícia consta da presença ou não de algum português. Como se as restantes vítimas, pela ausência de co-nacionalidade, não fossem dignas de registo. Talvez eu sinta este aspecto de forma mais vincada por ter passado o dia 11 de Setembro de 2001 nos EUA. Mas tal não me impede de sentir vivamente as mortes no estádio de Santiago do Chile, ou os "danos colaterais" no Afeganistão quando um esquadrão dispara sobre um casamento. A nossa solidariedade e humanismo não deve ter barreiras entre povos. Não devemos deixar também que o anti-imperialismo nos impeça de sentir solidariedade perante vítimas civis por serem cidadãos de um país imperialista, pois como é evidente a luta imperialista não é para com o povo mas para com os dirigentes e exploradores do Império.

Ironicamente foi também no dia Onze de Setembro, que Ghandi, em 1906, na África do Sul, primeiro usou o termo "Satiagraha" para descrever o movimento de não violência.

Este dia é também feriado nacional na Catalunha (La Diada), relembrando a derrota catalã, após o cerco de Barcelona em 1714, durante a guerra de sucessão espanhola, que abriu as portas para duzentos anos de supressão da autonomia catalã e uma maior centralização do poder na monarquia espanhola.

Também muitas vezes esquecido em Portugal é o facto do dia 11 de Setembro assinalar o dia da morte, do assassinato, de Bento Gonçalves, secretário-geral do PCP, no Campo da Morte Lenta, no Tarrafal, em 1942.

Foi neste dia também que morreu o meu primeiro cão, o Charlie. Nunca gritei tanto e vindo de tão fundo na minha vida.

Por fim, é também aniversário de uma amiga (cujos anos ficaram perdidos mas não esquecidos no meio de tanta efeméride): parabéns Nena!

quinta-feira, setembro 09, 2010

Reentrada para um fim de ano cheio

Depois de um interregno para terminar trabalho antes das férias e das férias propriamente ditas, isto é, dias preenchidos na construção fraterna da Festa do Avante!, e da recuperação das férias, volto agora ao ciber-espaço. Até ao fim do ano, isto promete. O calendário político está marcado pelas eleições presidenciais, sendo de destacar a apresentação do candidato que pode ser referido sem hesitações como de esquerda e como defendendo a letra e espírito da Constituição da República Portuguesa (CRP): Francisco Lopes.

Estamos a semanas da importante Jornada de Luta Nacional convocada pela CGTP a 29 de Setembro. Dada a ofensiva de direita é de antecipar novas e mais fortes jornadas nos meses que se seguem.

No final de Novembro, Portugal vai acolher duas cimeiras de enorme importância para o realinhamento geo-estratégico mundial, uma cimeira entre a UE e os EUA e a cimeira da NATO, estando já antecipado uma manifestação no dia 20 de Novembro convocada pela plataforma PAZ SIM, NATO NÃO pela paz, contra blocos militares (tal como estipula a CRP), e contra o imperialismo e a NATO.
Estamos num momento de resistência, em que a ofensiva do capital através dos seus meios económicos, seus actores políticos e seus instrumentos ideológicos, tenta ultrapassar a crise mimando-se com subsídios (ie, dinheiros públicos), fugindo ao fisco, e aumentando a exploração.
Às contestações e protestos o Cavaco apela à serenidade, o Governo à estabilidade governativa. Como muito bem disse Jerónimo de Sousa no encerramento da Festa do Avante!, os protestos devem-se à instabilidade social criada pelas medidas do governo, instabilidade laboral e financeira, e consequentemente nos nossos lares. Se o governo não garante justiça social, pelo contrário agrava-a; se cada vez mais é clara a natureza de classe dos seus apoios e medidas (comparem-se as recuperações e lucros dos Bancos com a subida de desemprego e redução de apoios aos desempregados) então é o Governo que conduz à instabilidade governativa através das suas medidas anti-sociais e anti-populares. Estabilidade governativa teve o Salazar e o povo português não ganhou muito com isso. Mas o Champalimaud, Mellos e outros monopolistas sim.

Desta fase de resistência, com uma luta organizada à altura, é possível tomar a ofensiva. Mais que uma possibilidade, é uma necessidade: Civilização ou Barbárie. Os Encontros de Serpa retomaram muito bem este slogan de alerta. Está em marcha a realização de mais um Encontro Internacional em Serpa, no final de Outubro (30,31Out/1Nov), com a participação de vários participantes nacionais e internacionais e elevado nível, que oportunamente complementarão a acção de rua e no local de trabalho com reflexões mais gerais sobre o estado do capitalismo e imperialismo.

Um fim de ano em cheio sem dúvida.

sexta-feira, julho 30, 2010

Conheçer a Terra ou o espaço

O Carl Sagan foi quem despertou meu interesse pela ciência, já lá vão muitos anos. A leitura de verão d’ «O Contacto» levou-me a ler «O Cosmos» e por daí em diante. Primeiro muita física (de astronomia à das partículas) e eventualmente muito mais biologia (onde me vim a especializar). Há hoje uma área que pretende fundir os dois campos, a Astrobiologia, que em parte se preocupa com a descoberta de formas de vida noutros planetas. Não me parece uma área de estudo demasiado descabido. Admito que suscite alguma curiosidade. Mas num contexto de recursos financeiros e humanos limitados, parece-me um enorme desperdício de tempo e dinheiro, que não me entusiasma particularmente e por vezes chego a considerar uma aberração.
Como é que se admite que se conheça melhor a superfície da Lua e Marte que a do fundo dos oceanos na Terra (que como Arthur C. Clarke disse apropriadamente, dada a % de coberto oceânico do nosso planeta, se devia chamar antes Mar)?
Como é que se admite que havendo ainda tanta espécie de vida, macro- e, sobretudo, microscópica no nosso planeta se invista dinheiro na vã tentativa de descobrir indícios de vida noutros planetas?
É certo que as missões espaciais têm como principal objectivo a descoberta de vida, mas sim a exploração do espaço. Os instrumentos de detecção de vida vão à boleia. Mas mesmo esse esforço de exploração do espaço me parece, reitero num contexto de recursos limitados, um desperdício. Gastam-se milhares de milhões para planear, construir, preparar equipa e lançar um Vai-Vem, mas um quantia comparativamente menor em explorar o fundo dos nossos Oceanos, que contêm não só inúmeras e curiosas espécies, muito distintas das terrestres e das marinhas que vivem perto da costa ou superfície. Provavelmente existem milhões de espécies de bactérias nos oceanos ainda por descobrir, algumas certamente com sistemas químicos totalmente distintos, que muito nos poderiam ensinar sobre a história da vida na Terra. Mas há quem defenda de alma e coração, no espírito dos descobrimentos e certamente depois de uma overdose de ficção científica, que a próxima fronteira é o espaço. Um certo cinismo da minha parte, não pode deixar de pensar que os produtos militares que resultam da investigação para a exploração espacial, e que a perspectiva de explorar recursos naturais nos planetas mais próximos é o que realmente motiva os que promovem a exploração espacial. A suportar esta hipótese está o facto da NASA já não construir Vai-Vens há vários anos (vai reciclando os antigos) – a nova geração de Vai-vem resulta de investimento privado.
A ficção científica é complementada pela ideia de que a vida na Terra pode ter tido origem extra-terrestre (panspermia), uma ideia promovida por exemplo pelo físico heterodoxo Sir Fred Hoyle. Li sobre esta ideia na altura que lia «O Cosmos» e outros livros do Sagan, e sempre me pareceu uma fuga à questão da origem da Terra. Em vez de investigar como pode ter surgido na Terra, atira-se a origem para o Espaço, sob condições totalmente desconhecidas e à escolha do freguês. Isto quando existem hipóteses e investigação muito plausível para responder à questão difícil da Origem da Vida na Terra.
Há esta ideia que se descobrir-mos indícios de vida extra-terrestre, não nos sentiremos “sozinhos no universo”. Mas a ser descoberta alguma forma de vida, será certamente de vida, muito possivelmente já extinta, na forma de bactérias, talvez nanobactérias. Eu cá não me sentirei menos sozinho na vastidão do Universo por saber que existiram umas bactérias em Marte ou Úrano. Não iremos certamente descobrir as formas de vida que tipicamente surgem nos filmes de ficção científica, seja na forma de monstros ou antropomorfos falando inglês ou em música (como no “Encontros de Terceiro Grau”. O Universo é tão vasto e o tempo de viagem entre galáxias de uma ordem de grandeza tão grande que, admitindo que exista vida, e que esta seja inteligente, e que nós fossemos capazes de comunicar com ela, a probabilidade de ambas as formas de vida – terrestre e extra-terrestre – é avassaladoramente pequena.
Temos muitas espécies na Terra a descobrir. Temos espécies na Terra conhecidas a desaparecer por actividade antropogénica. Deixemos a vida extra-terrestre para a ficção científica.

[Publicado no blog Viver a Ciência]