segunda-feira, outubro 04, 2010

O valor do voto e a 2a volta

Tudo indica que haverá segunda volta nas eleições presidenciais no Brasil. Na comunicação social portuguesa (e certamente no resto do mundo) surgem afirmações que culpam o candidato em 3º lugar pela segunda volta.

No Público, no texto da responsabilidade de Alexandra Lucas Coelho, a ideia surge repetidas vezes e em destaque: "Dilma e Serra na segunda volta, por causa de Marina", "Marina rouba votos a Dilma", "Foi devido à votação de Marina que Dilma não consegue ser eleita presidente do Brasil".

Este tipo de linguagem é típico de uma concepção eleitoral bipolar ou onde só os candidatos viáveis à primeira são legítimos. Os outros fiquem em 3º ou 30º lugar "roubam votos" aos restantes. Isto é não só uma visão distorcida do processo eleitoral como uma ofensa aos eleitores. Este tipo de linguagem, e os cálculos que implicam, encontram-se presentes já durante as campanhas eleitorais e promovem a bipolarização. Como tal, condicionam o eleitor: «se este quiser votar num vencedor terá que votar em X ou Y; se este não quiser estragar as possibilidades de X ganhar à 1ª volta, ou ganhar de todo, não deve "gastar" o seu voto em Z». É toda uma mentalidade que impele o eleitor a optar pelo cálculo político em vez de exercer livremente o seu voto no candidato que acha melhor para o cargo. Desvaloriza o voto individual, incentivando o eleitor a convergir no "melhor do possível" dadas as sondagens, projecções, ou especulações dos comentadores.

O eleitor deve comparar os candidatos e avaliá-los pelos seus méritos individuais, seus programas, sua base de suporte; e não em função das previsões sobre que candidatura tem melhores capacidades de vitória. Promover esse tipo de comportamento é um atentado ao funcionamento da democracia, pois distorce a conversão da vontade popular em votos. O resultado da votação deve corresponder à opinião popular sobre os candidatos, e não o seu enviesamento em função de jogos de casino eleitorais. Colocar o boletim de voto na urna não deve ser o mesmo que escolher cara ou coroa, e deixar que outros atirem a moeda ao ar.

A lógica bipolar é tão pervertida que na sua linguagem revela a premissa que os eleitores se repartem por (em geral) dois candidatos (ou partidos) viáveis. Só isso explica expressões como "Z rouba votos a X". Os votos não eram de X. Nem de Z. Cada voto era do eleitor. Ele até pode votar em branco, anular o boletim, ou não ir votar (infelizmente uma ocorrência cada vez mais comum). A abstenção é aliás algo que muito claramente ilustra a vacuidade da lógica bipolar. Se um 3º candidato chamar mais eleitores a votar, o seu eleitorado próprio, a votação no candidato X não é afectada. Mas mesmo se potenciais eleitores em X votarem em Z, é seu direito, e tais deslocações ocorrem por mérito de Z e falha de X, de modo que acusações a posteriori de roubo são indevidas.

Assisti a este tipo de mentalidade nos EUA durante a eleição presidencial de 2000 (a que levou à condução de Bush à Casa Branca com 5 votos contra 4, mas isso é outra questão). Durante essa campanha eleitoral, Ralph Nader foi o candidato do Partido Verde, e houve uma pressão tremenda por parte do Partido Democrata, da campanha de Al Gore e seus eleitores sobre os apoiantes de Nadar para capitularem a sua opção democrata a favor do cálculo de que Nadar iria "roubar" votos a Gore. A premissa era que um eleitor em Nader era um potencial eleitor de Gore, quando era claro que os apoiantes de Nader eram principalmente pessoas que não iriam votar Democrata ou Republicano.

Em jogo estava não só a corrida ao vencedor das eleições, pois nestas eleições em concreto Nader tinha reais possibilidades de chegar aos 5% do voto nacional, o que permitiria ao Partido Verde ganhar subsídio federal, e colorir um pouco mais o axadrezado panorama eleitoral. Portanto os que pressionavam os eleitores de Nader não só pretendiam que estes deixassem de expressar no voto a sua vontade, como pretendiam que estes desperdiçassem uma oportunidade rara de alterar o palco político do país. Houve inclusivamente tal pressão psicológica que surgiram várias formas informais de eleitores de Nader em círculos eleitorais onde Bush e Gore estariam mais perto nas sondagens trocarem o seu voto com um eleitor de Gore num estado seguramente Democrata.

Depois de Bush ter assumido o posto presidencial, os mesmos democratas culparam Nadar e os seus eleitores de terem oferecido a Casa Branca a Bush. Isto apesar de Gore ter ganho o voto nacional, e as contas demonstrarem que somando os votos de Gore e Nader não alterar a eleição de representantes ao colégio eleitoral nacional.
E, finalmente, os democratas deveriam é ter dirigido a responsabilidade no seu próprio candidato: que não pediu uma recontagem em todo o Estado da Florida (que lhe teria dado a vitória), que demonstrou fraqueza no combate popular e nos tribunais; e sobretudo que não teve as características para ganhar um número suficiente de votos que a fraude eleitoral não pudesse sequer ter o efeito que teve.

Voltando às actuais eleições no Brasil. Houve uma outra frase que me chamou a atenção, da mesma Alexandra Lucas Coelho: "Lula não consegue eleger Dilma à primeira volta". Outra frase desfocada em termos da atribuição das reais responsabilidades da eleição ou não de um candidato.

Tudo isto é particularmente relevante para a nossa reflexão, pois estamos em pré-campanha presidencial em Portugal, com dois candidatos do "centrão" e ... os outros. Sendo que entre os outros está o candidato que eu considero ser o que melhores condições oferece para fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa: Francisco Lopes. É certo como a morte que haverá quem queira dissuadir eleitores a votarem em Francisco Lopes, com a "ameaça" de que tal voto arrisca que Cavaco seja eleito logo à primeira volta. Como se um eleitor decidido a votar em Francisco Lopes pudesse contemplar um voto em Manuel Alegre como uma alternativa equivalente ou aproximada, em vez de opções qualitativamente distintas.

sexta-feira, outubro 01, 2010

títulos reveladores

Por vezes não há tempo para ler os textos de um jornal, mas os títulos dão um retrato das contradições dos nossos dias. Foi o que me sucedeu olhando para o RSS da TSF ainda agora. Reordenados contam uma história:

+Sócrates admite que medidas de austeridade serviram para sossegar mercados
+Falta de funcionários impede abertura de serviços em escolas
+Escola Básica em Lisboa fechada a cadeado
+CGTP convida UGT a juntar-se à greve geral de 24 de Novembro

Primeiro ministro impôs mais austeridade para satisfazer os livros de contabilidade e o mercado, enquanto os serviços públicos sofrem destruição e os portugueses desemprego e baixa da qualidade de vida, mas estes não estão resignados e vão para a luta por um país com futuro, produtivo, no qual a riqueza criada beneficie o país e não uma mão cheia de bancos.

terça-feira, setembro 21, 2010

Dia Internacional da Pax

Para assinalar o Dia Internacional da Paz, hoje, dia 21, a Campanha Paz Sim! NATO Não! estará na Praça dos Restauradores, em Lisboa pelas 17h.
Para além da distribuição de materiais da Campanha e do contacto com o público, será marcada para este local uma conferência de imprensa.
Esperamos contar com a vossa participação!
Agradecemos, desde já, a divulgação desta iniciativa.
Saudações de Paz,

A Comissão Coordenadora da Campanha

Subscrevam o NOVO apelo individual (esta é uma NOVA petição; se já assinou uma, assine esta também)

http://www.pazsimnatonao.org/apelo/individual/

Está também ainda em aberto o apelo para subscrição por organizações em http://www.pazsimnatonao.org/apelo/as-organizacoes/

segunda-feira, setembro 20, 2010

Cumprir a Constituição, dizer não à NATO

O Bruno Peixe fez uma excelente análise do panorama colocado a um eleitor de esquerda perante o actual leque de candidatos. Efectivamente a trajectória de Manuel Alegre desde de antes da última corrida presidencial tem sido a de tentativa de equilibrismo – e o homem tem alguma envergadura física para essas andanças, e vai-lhe faltando o olfacto político. A sua tentativa de criar um espaço de convergência de esquerda esteve condenado à partida por antipatia natural com uma secção inultrapassável da esquerda. Mas procurou manter um discurso anti-sistema que lhe permitiu a aproximação ao Bloco de Esquerda, aos Renovadores e alguns independentes, embora depois nas várias horas de verdade, enquanto parlamentar, não leva-se o discurso até ao voto na Assembleia.
No decurso desta campanha, defraudou completamente o espaço de convergência de parte da esquerda ao aceitar (e agradecer) o apoio oficial do PS. A sua base de apoio é assim uma salada mista, temperada apenas com vinagre. O período de campanha será um teste à capacidade de coesão da sua actual base de apoio. Quais as linhas unificadoras entre forças que estão no governo e na oposição? É a plataforma do candidato viável para bater Cavaco? Parece uma base muito pobre no reino das ideias e princípios.
Não pretendo neste texto defender a minha opção pelo apoio na candidatura de Francisco Lopes (mas queria deixar isso claro). Pretendia antes lançar uma das possíveis perguntas aos que se afirmando de esquerda pretendem apoiar Alegre, recordando que ao eleger o próximo PR estarão também a eleger o Chefe Supremo das Forças Armadas Portuguesas. Quem vencer as eleições presidenciais prestará o juramento de cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portugues, incluindo o Art 7 onde se “preconiza a abolição do imperialismo (…) [e] a dissolução dos blocos político-militares”.

Publicado no blog «5 dias»