quinta-feira, maio 30, 2013

Do lado de quem?

Este utente do Metro agradece mais esta jornada de luta dos trabalhares do Metropolitano de Lisboa em defesa dos seus direitos laborais, e de um serviço publico de qualidade. Quero manutenção das linhas e máquinas, condutores repousados, tarifas a preços sociais. Quem luta por isso são os trabalhadores. 

quarta-feira, maio 01, 2013

Lutas em 2013

Lutas de 2013

Segue-se um apanhado das lutas realizadas nos primeiros meses de 2013 (usando como principal fonte o jornal Avante!), e que deram continuidade a uma fase de intensa combatividade dos trabalhadores e populações. Ficam por assinalar muitos protestos populares por todo o país, de maior e menor dimensão, incluindo várias "Grandoladas". É de salientar o crescente receio dos membros do governo e do Presidente da República em aparecerem publicamente, dada a presença ubíqua de manifestantes. Hoje, primeiro de Maio, dia do Trabalhador, os secretários-gerais da CGTP-IN e UGT admitem, em entrevista conjunta à Antena 1, um greve geral em breve, indicação clara de que a luta irá continuar, contra a política de austeridade, contra as imposições da Troika, pela demissão do Governo e convocação de eleições antecipadas, por uma política alternativa de emprego e desenvolvimento, por um Portugal livre e soberano.

JANEIRO
  • Vigília dos trabalhadores da Radal Frigoríficos, em Prozelo, Amares, com salários e subsídios em dívida desde Outubro,  frente às instalações da empresa. (5/Jan - )
  • Protesto contra a falta de cumprimento dos compromissos assumidos pelo Governo com o Sindicato da Hotelaria do Norte, junto ao Ministério da Economia, com a participação de meia centena de trabalhadores dos bingos do Salgueiros e Olímpia. (8/Jan)
  • Concentrações contra a retirada de transporte entre a cidade e as instalações dos serviços de higiene, no Algar (7/Jan)
  • Manifestação nacional de ferroviários no activo e reformados para exigir «parem de nos roubar».(17/Jan)
  • A empresa concessionária da cantina da escola de Ermida, em Santo Tirso, decidiu em 2011 não renovar o contracto de Firmina Rocha, que ali trabalhava há 17 anos, com sucessivos contratos a termo certo, de Setembro a Julho. Após caso em tribunal, a empresa foi forçada a reconhecer que os contratos eram ilegais, que não a podia ter despedido, que o Firmina era efectiva e deveria retomar o posto de trabalho. A empresa porém voltou a trás, e a direcção da escola expulsou a trabalhadora das instalações e recusou falar com o sindicato. A trabalhadora decidiu não arredar pé da porta da escola, cumprindo ali o seu horário de trabalho, à chuva e ao frio. Retomou o serviço no dia 17. 
  • Greves parciais no Metropolitano de Lisboa (15, 22 e 29/Jan)
  • Luta dos trabalhadores da Kemet Electronics logrou adiar o despedimento colectivo, de quase metade do pessoal em Évora, e adiar a deslocalização da produção de condensadores de tântalo da Kemet 
  • Luta dos trabalhadores da Scotturb forçou os representantes da transportadora a comprometeram-se a marcar reuniões de negociação num curto espaço de tempo. O conflito laboral deveu-se à disponibilidade da administração para a negociação.
  • Concentração dos trabalhadores da Appicaps (Porto), empresa de calçado, protestando a associação patronal que protela há 15 meses a negociação do contrato colectivo e a actualização salarial, ao mesmo tempo que exibe resultados económicos no sector que são os melhores de sempre. (25/Jan)
  • Manifestação nacional de 40 mil professores contra as políticas de destruição dos serviços públicos e do Estado democrático, contra as medidas do Governo e da troika estrangeira, contra o novo ataque contido no «relatório do FMI», e em defesa da escola pública de matriz democrática e da profissão docente (26/Jan)
FEVEREIRO
  • Greve dos enfermeiros contratados do Porto e manifestação junto à sede da Administração Regional de Saúde do Norte, onde entregaram uma moção exigindo o fim do trabalho precário e a conclusão do concurso, aberto em 2010, para 566 postos de trabalho, o qual permitiria estabilizar a situação destes profissionais. Alguns enfermeiros estão há mais de 10 anos com contratos a prazo, mas a ARS não dá andamento ao concurso invocando questões meramente jurídicas. (5/Fev)
  • A luta dos trabalhadores da Transtejo levaram a administração a aceitar a integração de prémios na tabela salarial, reivindicada nos últimos anos.
  • Centenas de inquilinos manifestaram-se na Praça do Comércio, em Lisboa, para exigir ao Governo e à Assembleia da República a revogação urgente da Lei n.º 31/2012. (7/Fev)
  • Concentração de trabalhadores das cantinas, refeitórios, áreas de serviço e bares concessionados junto à sede do grupo Trivalor (Gertal/Itau), em Leça do Balio (Matosinhos), para exigir aumentos salariais e negociação do contrato colectivo, protestar contra a retirada de direitos e a precariedade nas cantinas escolares, reclamar o cumprimento do caderno de encargos. (12/fev)
  • Concentração junto ao edifício do Banco BPI, protestando contra as declarações de Fernando Ulrich, sobre a generalidade dos portugueses ter que aceitar condições de vida semelhantes às das pessoas sem-abrigo.(14/Fev)
  • Grupo canta «Grândola Vila Morena» nas galerias da Assembleia da República interrompendo discurso de Pedro Passos Coelho (15/Fev)
  • Jornada Nacional de Acção e Luta, convocada pela CGTP-IN, com milhares de trabalhadores em 14 cidades (16/Fev)
  • Relvas interrompido por «Grândola Vila Morena» num debate do Clube dos Pensadores, em Gaia (18/Fev)
  • Greve dos trabalhadores da Sinorgan Produtos Químicos, em Espinho, contra o atraso no pagamento de salários, e concentração à porta da empresa, devido aos salários em atraso e dívida dos subsídios de Natal. (21/Fev)
  • Apupos e «Grândola» de estudantes e activistas pedindo a demissão do ministro Revlas, em conferência em Lisboa, no ISCTE.
  • Grupo de manifestantes, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, interrompeu o ministro da Saúde, Paulo Macedo, cantando o "Grândola Vila Morena" e expondo casos concretos como a falta de dinheiro para comprar medicamentos ou para pagar taxas moderadoras. (20/Fev)
  • Ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, recebido em S. João da Madeira, numa iniciativa da concelhia do PSD, com mais uma manifestação entoada ao som de "Grândola Vila Morena".(22/Fev)
  • Manifestantes, em Faro, entoaram a «Grândola» e gritaram «não foste eleito» e «gatuno» aos Secretários de Estado Franquelim Alves e  Sérgio Monteiro numa iniciativa organizada pelo PSD.(23/Fev)
  • 30 manifestantes cantaram mais uma vez o "Grândola, Vila Morena" ao primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, desta vez à saída de uma conferência, em Lisboa (28/Fev)
MARÇO


  • 2 de Março, contra a Troika, contra a política de direita, exigindo a demissão do governo. Mais de um milhão e meio de pessoas em manifestações em 40 cidades, em Portugal e no estrangeiro, incluindo Angra do Heroismo (50), Barcelona (30), Beja (1,000), Braga (7,000), Caldas da Rainha (3000), Castelo Branco (1000), Chaves (200), Coimbra (20,000), Entroncamento (300), Estocolmo (15), Guarda (500), Horta (160), Lisboa (800,000), Londres (100), Marinha Grande (3,000), Paris (100), Portimão (5,000), Porto (400,000), Santarém (500), Setúbal (7,000), Sines (120), Tomar (200), Torres Novas (250), Viana do Castelo (1,000), Vila Real (1,800)
  • Secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, João Grancho, recebido numa escola de Mangualde, com gritos de protesto contra o Governo, ao som da canção «Grândola, Vila Morena». (4/Mar)
  • Protesto, organizado pelos trabalhadores ferroviários, de centenas de manifestantes bloquearam a circulação ferroviária no Entroncamento em defesa do passe para os trabalhadores ferroviários e para as suas famílias.
  • Greve para dia 7, na empresa Sojitz Beralt, que explora as minas da Panasqueira, e recusa de trabalho extraordinário, visando exigir a melhoria dos salários e das condições de vida e de laboração. (7/Mar)
  • Greves no sector dos transportes: CP, Refer Carris e E.P.E. (6-7/Mar)
  • Greve de cerca de 80% dos 370 trabalhadores da unidade de extração de volfrâmio na Panasqueira (7/mar)
  • Greves no sector dos transportes: Rodoviária de Lisboa, Transportes Sul do Tejo e SCOTTURB.
  • Manifestação dos trabalhadores do sector dos transportes (9/Mar)
  • Greve e concentrações de enfermeiros em Aveiro, Covilhã, Guarda, Castelo Branco, Viseu exigindo que nenhum profissional em regime de contracto individual de trabalho (CIT) receba menos do que o mínimo estipulado pelo Governo (1.201,48 euros).
  • Manifestação nacional de milhares de trabalhadores da Administração Pública incluindo trabalhadores da administração central, regional e local – professores e não docentes, enfermeiros, motoristas, operários, auxiliares, técnicos, bombeiros, profissionais das forças de segurança, funcionários judiciais, das alfândegas e finanças, da Segurança Social (15/Mar)
  • Passos Coelho recebido em Aveiro com protestos de uma centena de trabalhadores (15/Mar)
  • Manifestação de cerca de 200 pessoas frente à CM Portimão, contestando a redução no serviço de transportes públicos.(15/Mar)
  • Concentração de militares e as associações profissionais de praças (AP), sargentos (ANS) e oficiais (AOFA), junto à residência oficial do Primeiro-ministro (20/Mar)
  • Concentração de dezenas de trabalhadores do Casino Estoril, que foram vítimas de um despedimento colectivo em 2010, que abrangeu 113 pessoas. (20/Mar)
  • Semana de luta dos reformados e pensionistas, culminando em concentrações em Lisboa, Coimbra e Covilhã, a par de outras acções no Porto, em Braga, Aveiro, Beja e Évora. (20/Mar)
  • Greve na Sicália (construção) em Abrantes (21/Mar)
  • Vigílias na Sait Gobain Sekurit Portugal, em Santa Iria da Azóia, na luta contra a intenção de despedimento colectivo de 45 camaradas e o encerramento de duas linhas de produção (22, 25/Mar)
  • Caminhada dos trabalhadores das indústrias têxteis, de vestuário e calçado, em Guimarães (23/Mar)
  • Manifestação de mais de 500 trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) em Lisboa, em defesa da viabilização daquela empresa pública e contra os despedimentos. (26/Mar)
  • Trabalhadores da TAP e Metropolitano de Lisboa desconvocam greves depois das administrações terem alterado favoravelmente as suas posições.
  • Conclusão da revisão do Acordo de Empresa (AE) na Caima (celulose) e na CTT, da revisão salarial na REN, com conquistas laborais, fruto da unidade e determinação dos trabalhadores e firmeza dos seus representantes sindicais.
  • Manifestação de Jovens Trabalhadores "Queremos Trabalho! Exigimos Direitos!" (27/Mar)
  • Plenário seguido de manifestação de mais de cinco centenas de trabalhadores da CM de Lisboa pelas ruas da baixa, até ao gabinete do presidente da CML, no Lg Indendente.
  • Greve dos trabalhadores dos regimes especiais de trabalho (turnos) da EDP (29, 31/Mar)
ABRIL
  • No dia do 37.º aniversário da promulgação da Lei fundamental, a CGTP-IN entregou à presidente do parlamento uma petição, com 89 052 assinaturas, «Em defesa das funções sociais do Estado consagradas na Constituição da República». (2 de Abr)
  • Nova greve dos mineiros da Panasqueira (2-3/Abril), em luta por melhores salários.
  • Mobilização geral de professores, sob a consigna «Tolerância Zero» para com o Governo e a sua política, com o objectivo de auscultar os professores sobre a situação na Educação, os objectivos prioritários e as formas de intervenção e luta mais adequadas. (9-13/Abr)
  • Greve dos trabalhadores do sector de inserção automática da Bosch Car Multimedia (Braga), em regime de laboração contínua, para defenderem os horários de trabalho e os direitos que vigoram há cerca de 20 anos na fábrica. (10/Abr)
  • «Marcha contra o empobrecimento», organizada pela CGTP, percorre o país (mais de 40 localidades) e termina frente à Assembleia da República, em Lisboa (13/Abr).
  • Manifestação de agricultores para reclamar melhores políticas agro-rurais e outro governo capaz de as definir e aplicar (17/Abr)
  • Greve às horas extraordinárias nos museus, palácios, monumentos, parques e sítios arqueológicos, e fundações públicas, no dia Internacional dos Monumentos e Sítios, para exigir negociação das reivindicações há muito apresentadas. (18/Abr)
  • Manifestação dos trabalhadores da Sait Gobain Sekurit Portugal e reformados de Loures frente à Instituição de Apoio Social de Bucelas, aquando de visita do sec. Estado da Segurança Social. (18/Abr)
  • 3 dias de Greve dos trabalhadores da SATA (23-25/Abr) porque a administração e o Governo Regional se recusam a aplicar na transportadora aérea açoriana o acordo assinado na TAP e que levou a que fossem desmarcadas as greves de 21 a 23 de Março. 
  • Greve de dois dias  no departamento técnico do Hotel Tivoli da Marina de Vilamoura, contra a retirada de subsídio de horas nocturnas (27-28/Abr)
  • Greve dos guardas prisionais contra a forma como o Ministério das Finanças tem tratado a negociação do estatuto profissional (24-30/Abr.)
  • Grande jornada de comemoração e luta por todo o país, assinalando a Revolução de Abril e defendendo as suas conquistas (25/Abr)

terça-feira, março 05, 2013

Greves no Sector dos transportes


Nos próximos dias vão registar-se várias greves no sector dos transportes (CP, REFER, Rodoviária; ver em http://hagreve.com/
Antes de começarem a refilar com as dificuldades de transportes devido à greve, procurem entender os seus motivos, pois os trabalhadores do sector não lutam apenas pelo cumprimento do seu contrato colectivo de trabalho, lutam também em defesa de todos os contractos colectivos, em defesa do sector público dos transportes e de transportes com qualidade a preços sociais, e contra a postura do Estado, que se desresponsabiliza face aos serviços públicos mas oferece milhões às empresas privadas.
Vejam a imagem anexa para entenderem para onde vai o dinheiro dos bilhetes e passes: as recentes subidas são resposta das administrações que passam o custo de pagamento de juros para os passageiros. 
Como foram incorridas estas dívidas? Por exemplo, as linhas e estações da Fertagus (empresa privada) foram construídas pela REFER (empresa pública) que contraíu uma dívida superior a 500 milhões de euros; e os seus novíssimos comboios foram pagos pela CP (empresa pública). A dívida “da Fertagus” está, assim, escondida nas contas da REFER e da CP, por dívida, ao operador privado. Ou seja, as empresas públicas, e por arrasto os seus utentes, estão a pagar indirectamente os lucros das empresas privadas. Acresce que a Fertagus recebeu cerca de 200 milhões de euros em 'indemnizações compensatórias" previstas nos contratos de Parceria Público-Privado. A Metro Sul do Tejo (consórcio privado que gere o metro de superfície de Almada) recebeu em 2012 7,4 milhões de euros, como compensação "por procura insuficiente", relativo ao primeiro trimestre. Isto é, a PPP prevê que face à falta de passageiros a MST seja compensada pelo Estado, ou dito de outra forma o Estado paga à MST para não transportar passageiros. 
Assim Estado apoia estas empresas privadas directamente e indirectamente, através das "prendas" das empresas públicas, que além de verem o investimento do Estado reduzido, "oferecem" material aos privados, incorrendo dívidas e tendo de pagar os juros agiotas. Não haviam as empresas privadas de ter uma gestão aparentemente tão mais eficaz que as empresas públicas.  (ver mais em http://www.fectrans.pt/index.php/informacao/comunicados/13-populacao/362-saiba-para-onde-vai-o-dinheiro-dos-utentes-da-cp)

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

O papel dos Partidos na democracia

Os dois Partidos que tem gozado da maioria dos votos em eleições em Portugal durante os últimos 30 e tal anos de Democracia, o PS e PSD, têm através das políticas que implementaram (e implementam) deteriorado a democracia nas suas várias facetas, começando pela económica, social (reportou-se hoje que um quarto das crianças portuguesas vive na pobreza!), cultural e também política. Esta última tem sido atacada por algumas das medidas tomadas, mas também pela forma como os seus membros se têm conduzido (o incumprimento de promessas, a mentira, a corrupção, o nepotismo, a caciquismo, o servilismo aos poderes estrangeiros e o grande capital, etc.) e como os partidos funcionam. Fruto das suas políticas e deste comportamento, a maioria dos eleitores (como quem diz pessoas que tem vindo a votar ou PS ou PSD; mas também outros que vão bebendo da mesma fonte) encheu o saco, e conclui generalizando que os partidos são todos iguais e são todos como o PS e o PSD.

Esta desacreditação destes Partidos e dos seus políticos compreende-se. Mas não creio ser justo que se generalize e se veja nesta conclusão matéria para descartar o papel que os Partidos podem ter na nossa Democracia. Não estou com isto sequer a referir-me à minha convicção de que há Partidos e políticos sobre os quais as críticas generalistas não se aplicam. Estou antes preocupado com algumas ilações resultantes deste descontentamento.

 Já escrevi sobre o "apartidarismo ortodoxo", o achar-se que só coisas que não cheiram a influência dos Partidos é que são legítimas, pois basta que qualquer um deles (ou alguns em particular) participem na organização de um evento para o desqualificar. Veicula-se também a opinião de que não se podendo votar num dos Partidos (geralmente opinião de quem acha que já não pode votar PS ou PSD, e nem considera outros Partidos, porque esses não valem a pena, não chegam lá, ou outras desculpas), então devem surgir candidaturas de independentes, pois esses sim podem trazer a mudança. Como se o mal estivesse na concepção do Partido, no seu papel, e não em partidos particulares e em membros desses partidos em particular.

Li há dias uma opinião destas num editorial do Metro, relativamente às eleições para a Câmara Municipal de Lisboa (demonstrando aliás desconhecimento sobre o funcionamento destas eleições, onde não se vota para presidente, mas em listas, pelo que teria que ser uma lista de independentes). Pergunto a quem vê uma solução nos "independentes", quem imagina que eles serão? Ou basta serem independentes de partidos para serem honestos, eficazes, e incorruptíveis? Que capacidade têm os eleitores para os escrutinar o espectro das suas políticas? Que capacidade tem qualquer pessoa singular e independente para apresentar propostas e programa com a abrangência que o cargo implica para que este possa ser escrutinado? Os candidatos de um Partido estão vinculados a um programa elaborado colectivamente. Têm de prestar contas não só aos eleitores, mas também aos membros do seu Partido. Se um partido eleito nas eleições legislativas não satisfizer o eleitorado, não é preciso novas legislativas para o punir, pode levar logo uma coça nas eleições autárquicas. E quem financia a campanha dos independentes? É que a independência face aos Partidos  parece-me minúscula face à importância de independência da influência, particularmente através do financiamento, dos grandes interesses económicos. É certo que o PS e PSD têm sido eficientes máquinas de comércio de influência e de promoção social. Mas não têm dúvidas sobre este tipo de dependência ou comprometimento económico dos chamados independentes?

Hoje no Público foi publicado um artigo de opinião de João Nogueira Santos e Carlos Macedo e Cunha provocatoriamente intitulado «Mais de 99% dos portugueses nunca votaram nas eleições para escolha dos candidatos a primeiro-ministro (dire[c]tas do PS ou PSD)». O texto entre parêntesis faz falta, porque contem a proposta dos autores. Depois de (com alguma justiça) atacarem as máquinas do PS e PSD, concluem que ou os eleitores da esfera destes partidos militam nos Partidos para enquanto militantes os influenciarem (solução que obviamente descartam) ou tem de haver eleições directas para os cabeças de lista propostos por estes partidos, à semelhança do que decorreu em França, Itália ou acrescente-se é prática nos EUA.

 Se o PS ou PSD assim o entenderem estou bem nas tintas. Mas não admito é que venha alguém de fora da estrutura de uma organização ditar como esta se deve organizar, eleger os seus lideres ou decidir sobre os seus candidatos. Para isso já bastou a ingerência da Lei dos Partidos Políticos.

As conclusões parecendo apontar para uma solução muito democrática e participativa, na verdade demonstra um grande cepticismo sobre a capacidade de intervenção dos cidadãos, que só podem quebrar a "tirania" dos partidos através desse acto nobre, mas fácil, de votar. E porque supõem que em tal esquema iriam surgir candidatos a candidato a candidato a primeiro-ministro (porque o Partido do candidato escolhido nas primárias teria que receber a maioria para a Assembleia da República, e depois ser nomeado para o Governo) que não viessem das facções fortes desses partidos?

Mas a solução bífida dos autores é demasiado maniqueísta. Porque existe já implementada uma alternativa, várias vezes praticada. Que grupos de cidadãos insatisfeitos com o PS e PSD forem as suas próprias listas ou partidos. E que se organizem como muito bem entenderem. Imagem

domingo, janeiro 27, 2013

Apartidarismo ortodoxo

"Os políticos/partidos são todos iguais". É frase comum hoje em dia. Face ao comportamento dos 3 partidos (PS, PSD e CDS) que detiveram o governo nos últimos trinta e tal anos de democracia e que consistentemente combateram as conquistas de Abril, hipotecaram a economia e soberania nacional, e conduziram uma contra-revolução impondo políticas de direita, é uma reacção, que como um reflexo admito compreensível. Mas um escárnio que após ponderação, consideração do efectivo leque partidário Português e sobretudo reflexão sobre o que significa ser "político" é desmontável, na minha opinião insustentável, e um afronta aos muitos que fazem política como cidadãos. É uma frase e uma atitude que tem efeitos perversos, pois promove o desânimo, a desmobilização e a desunião, e que serve de arma contra organizações sociais que têm combatido as políticas atrás referidas e os partidos por elas responsáveis. Há quem defenda o apartidarismo integrado numa visão pós-moderna do movimento social, horizontal (ideia que não me importa agora aqui debater.) Muita embora este efeito ideologicamente desmobilizador, tal é a sua prevalência e tal o descrédito da troika partidária nacional que nos últimos anos algumas iniciativas tendo dado destaque, nas suas convocatórias, ao facto de serem 'apartidárias' têm logrado mobilizações notáveis. Não obstante, tal emblema, usado como motivo de honra, como se fosse um elemento identificador e esclarecedor dos seus princípios, não deixa de ser revelador de uma grande ingenuidade política. Parecendo poder servir como congregador de pessoas insatisfeitas com a "classe política", exclui as muitas pessoas que sendo militantes de outros partidos ou organizações sociais (que por sectarismo são misturadas num mesmo bolo) são as que de forma organizada têm resistido a dita contra-revolução, lutado por uma alternativa, bem identificada nos programas das suas organizações e discutida entre os seus membros. Creio ser sinal de evolução positiva que, por exemplo, a plataforma "Que se lixe a Troika" tenha na sua mais recente convocatória para uma manifestação no dia 2 de Março apelado «A todos os cidadãos e cidadãs, com e sem partido (...) todas as organizações políticas e militares, movimentos cívicos, sindicatos, partidos, colectividades, grupos informais, apelamos a que se juntem a nós.» Mas eis que hoje vejo com espanto um evento no Facebook que apela a uma nova revolução de Abril e convoca dois eventos, em Lisboa e no Porto, à margem dos eventos anualmente organizados pela Comissão Promotora das Comemorações do 25 de Abril (CPC25A). Evento no qual o grupo se proclama como APARTIDÁRIO [sic, assim mesmo, com as maiúsculas]. Qualquer grupo é livre de convocar celebrações do 25 de Abril. Não é isso que está em causa. O que me choca é a convocatória implicitamente considerar que as iniciativas organizadas pela CPC25A são 'partidárias', e como tal presumivelmente "contaminadas" e não-inclusivas. Iniciativas que ao longo dos anos têm sempre ido além do mero assinalar da efeméride, actualizando os valores dessa revolução ao momento político e social corrente, tornando-as efectivamente numa manifestação. Como se a CPC25A não fosse uma plataforma aberta. Um busca rápida na internet deu-me acesso ao apelo à participação do CPC25A de 2009, subscrito por: Associação 25 de Abril • Associação Fronteiras • Associação Intervenção Democrática (ID) • Associação Juízes pela Cidadania • Associação Os Pioneiros de Portugal • Associação Portuguesa de Deficientes • Associação Projecto Ruído • Attac • Bloco de Esquerda (BE) • Comissão Coordenadora das Comissões de Trabalhadores da Região de Lisboa (CIL) • Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional (CGTP-IN) • Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto (CPCCRD) • Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) • Ecolojovem “Os Verdes” • Frente Antiracista (FAR) • Inter Jovem-CGTP • Jovens do Bloco • Juventude Comunista Portuguesa (JCP) • Juventude Socialista (JS)• Movimento Democrático de Mulheres (MDM) • Movimento de Renovação Comunista (MRC) • Movimento Unitário de Reformados, Pensionistas e Idosos (MURPI) • Movimento dos Utentes de Serviços Públicos (MUSP) • Partido Comunista Português (PCP) • Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV) • Partido Socialista (PS) • União Geral dos Trabalhadores (UGT) • UGT Jovem • União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) • Diversos independentes (depois ali listadas) Ora admito que haja gente que não se reveja em nenhuma destas organizações, que não se identifique com quaisquer das individualidades, que não se identifique de todo com a forma das iniciativas realizadas, que não ache suficientemente simbólico que em Lisboa se marche na Av. da Liberdade e ache que se devia ir até à Assembleia da República, até que tenha desdém por todas essas organizações e pessoas, incluindo as muitas outras pessoas anónimas que não pertencendo a nenhuma das organizações promotoras se revêem e participam livremente nas iniciativas. Mas que face à abrangência, diversidade, e inclusividade da Comissão Promotora e sobretudo das milhares de pessoas que participam nas iniciativas, que haja quem se sinta intitulado a insinuar que são iniciativas "partidárias" em contraste com a sua iniciativa "APARTIDÁRIA" é uma afronta política e intelectual, que reforça o carácter divisionista de quem propõe iniciativas com este farrapo de bandeira.