terça-feira, março 25, 2008

Alguns mitos sobre o Tibete

Reina em Portugal, e não só, algum desconhecimento sobre a história do Tibete, que aliado a alguma manipulação de informação, alguma desinformação, e uma visão um pouco idealizada sobre os tibetanos e o Dalai Lama, tem oferecido de bandeja uma oportunidade de ouro para atacar a República Popular da China. Eis uma lista, não exaustiva, de alguns mitos e suas desconstruções:
  • «A China ocupou o Tibete" — o Tibete foi uma parte integrante de vários reinos, incluindo o Mongol, Chinês, Nepalês, e sofreu inclusivamente uma tentativa de conquista por parte do império britânico no início de século XX. Durante a maior parte da sua história, parte ou todo o Tibete foi parte integrante da China, como região autónoma. Em 1951, foi celebrado o "acordo dos 17 pontos" entre a República Popular da China e os delegados do 14º Dalai Lama (o actual), acordo depois confirmado pelo governo do Tibete, que reestabeleceu a soberania da RPC sobre o Tibete. Esta soberania é reconhecida por todos os estados mundiais, e pelo próprio Dalai Lama. O ponto de contestação tem sido o grau de autonomia da região e o poder dos nobres e mosteiros tibetanos. Em 1951, à semelhança de noutras regiões da China, a RPC implementou em duas regiões do Tibete (Kham e Amdo), que considerou fora da administração central do governo do Tibete em Llasa, medidas de reforma agrária. Foram retiradas propriedades os nobres e monges, e redistribuidas aos servos, a vasta maioria da população. Tal desencadeou, em 1956, a resistência daqueles dois grupos (incluindo do Dalai Lama), insurreição esta que recebeu o apoio da CIA, algo largamente documentado. Foi no decurso do combate do RPC à insurreição dos grandes donos de propriedade que ocorreram conflitos armados, e foi após a derrota desta revolta que o 14º Dalai Lama se exilou para a India. No seguimento dessa derrota, o Tibete viu seu grau de autonomia diminuido, ou seja o poder dos latifundiários e dos monges, a reforma agrária foi alargada a todo o Tibete, e a servidão abolida.
  • «Há violações de direitos humanos no Tibete» — a abolição da servidão e o fim do regime feudal dos monges permitiu tremendos avanços económicos, políticos e culturais. A população cresceu, de 1959 até agora, de um milhão para 2,4 milhões, 95% dos quais são Tibetanos, e esperança de vida de 35,5 anos para 67 anos, sinais de melhorias na área de saúde e alimentação. A taxa de escolaridade cresceu de 2% para 81,3%.
  • «A China reprime a identidade Tibetana, comete genocídio cultural» — a China é um país multi-etnico, que engloba 56 etnias, sendo os Han a maioria (92%), mas contribuindo todas para a cultura Chinesa. No Tibete, a educação é bilingue, garantindo-se a aprendizagem da língua Tibetana. A rádio e televisão tem 20 horas diárias de emissões em Tibetano.
  • «O santo homem [Dalai Lama] e os tibetanos amantes de Buda não são ameaça para ninguém» (escrevia hoje Sérgio Coimbra, director do gratuito Meia Hora) — Há esta imagem que os Tibetanos são todos monges e muito zen. Se fossem todos monges, teriam grande dificuldade em reproduzir-se. Tão pouco são todos muito zen e em harmonia com o mundo, incluindo o muito instruido 14º Dalai Lama. Se assim fosse não tinha resistido a reforma agrária e a distribuição equitativa da terra usando a violência, em 1956; nem seriam capazes dos recentes surtos de violência incluindo o incêndio de edifícios, o saque de lojas Han, o espancamento de pessoas da etnia Han, os protestos violentos a 14 de Março em Llasa que resultaram na morte de várias pessoas (não pelos militares chineses, mas às mãos dos amotinados Tibetanos).
  • «O Dalai Lama é um santo homem» — O 14º Dalai Lama é um homem, importante para os budistas tibetanos, terá certamente palavras de grande sabedoria e até moderação. Mas herdou também um regime feudal baseado na servidão, cujo sistema procurou defender e prolongar. Filosoficamente o esoterismo budista exerce um fascínio sobre muitos ocidentais, mas há algumas ligações entre esta religião que me causam preocupação e reserva, em particuar uma ligação entre a última incarnação do Bodhisattva da Compaixão e a extrema direita. Há antes de mais a sua instrução por Heinrich Harrer, o alpinista austríaco, que se afiliou nas 'camisas castanhas' em 1933, e se juntou às SS quando a Alemanha anexou a Áustria. Harrer estava nos Himalaias quando despoletou a Segunda Guerra Mundial, foi preso pelos britânicos, mas logrou escapar e fugiu para o Tibete, onde após alguns anos contactou com o Dalai Lama, que veio a instruir sobre mundo ocidental até 1950, quando se preparava a re-incorporação do Tibete na RPC. Não vou ao ponto de dizer que o 14º Dalai Lama é um nazi, mas recebeu uma rica educação, que terá tido o seu peso na resposta dos monges à reforma agrária. Mais recentemente, ao ler o "Diário de um Skin", escrito por António Salas, um jornalista espanhol que esteve infiltrado no movimento de extrema-direita em Espanha (livro que recomendo vivamente), deparei-me com uma faceta do nazismo que me era desconhecida: o seu esoterismo e misticismo. Esta corrente atribui poderes sobrenaturais a Adolf Hitler, que ouvia uma voz interior providencial. Este tinha inúmeras amizades com esoteristas, astrólogos e videntes. No desenvolvimento desta frente esotérica, e combinada com o ataque ao cristianismo, os Nazis foram beber às religiões germânicas, mas também às religiões orientais, incluindo livros como as Upanishads e o Bhagavadgita. Himmler tinha sempre consigo uma cópia deste livro, e comparava Hitler a Krishna. Haveria um fascínio pelo sistema de castas praticado na Índia, e foi realizado uma expedição ao Tibete para encontrar os arianos primitivos. Um dos mais influentes ideólogos desta faceta esotérica do nacional-socialismo é o escrito chileno Miguel Serrano, que recebeu o 14º Dalai Lama na India quando este iniciou o seu exílio. E em 1992, que o 14º Dalai Lama visitou o Chile, passou «por cima do protocolo para ir abraçar efusivamente Miguel Serrano no Aeroporto de Santiago, perante o compreensível incómodo das autoridades chilenas». Como disse, não estou a sugerir que o 14º Dalai Lama seja um nazi, mas existem indícios inconsistentes com a imagem mais propagada no ocidente.
Não estou aqui a fazer uma apologia transversal da RPC, apenas a contribuir com alguns elementos que desmistifiquem a forma maniqueísta de expor a questão Tibetana. Esta nova vaga de atenção para a questão está indubitavelmente ligada à proximidade dos Jogos Olímpicos. Mas não deixa de ser curioso que tenha lugar num momento de ascenso da aproximação de Taiwan à RPC. O Presidente da República da China, Chen Shui-pien, perdeu as eleições deste último fim de semana, não logrando o terceiro mandato. Para a sua derrota terá pesado inúmeros escândalos de corrupção. Regressou à presidência o Kuomintang, através de Ma Ying-jeou. Este partido,, que esteve na origem da separação das duas Chinas, teve durante a campanha um discurso de aproximação à RPC. Ying-jeou chegou mesmo a cometer o "deslize", em Fevereiro de 2006, de dizer que era a favor da eventual reunificação.

5 comentários:

pedras contra canhões disse...

e bem necessária desmistificação.

Rui Faustino disse...

Pois, sem dúvida que o carácter reaccionário do Dalai Lama é evidente.

Todavia, há 3 questões que não podes esquecer!

A primeira é o direito de todas as nações à autodeterminação. Esse é um princípio leninista que também se deve aplicar ao Tibete, tal como se aplicou a Timor.

A segunda é a seguinte: Claro que a alternativa que devemos defender não é a posição nacionalista, mas internacionalista. Um Tibete "independente" sob regime feudal-capitalista não traria nada de progressivo, pelo contrário, os comunistas devem defender a unidade dos trabalhadores para lá das fronteiras nacionais.

A 3ª questão prende-se com a natureza do Estado e da sociedade chinesa: A china é um país onde a burocracia "comunista" tem vindo a restaurar o capitalismo.

Logo, a alterntiva marxista passa pela unidade do povo tibetano com os trabalhadores e camponeses chineses de modo a combaterem a restauração capitalista e a ditadura da burocracia em prol duma sociedade socialista onde todas as etnias do país, voluntariamente, se associem nesse intento.

Se tiveres paciência consulta

http://esquerda-comunista.blogspot.com/2008/03/tibete-por-uma-alternativa-marxista.html

Anônimo disse...

Post muito bom e muito útil...
um abraço

(ó rui faustino: como provavelmente saberás, o Tibete nunca, em nenhum tempo histórico, foi independente, e sempre foi considerado parte integrante da China - pelo que a comparação com Timor não faz sentido)

Rui Faustino disse...

Anónimo:

Escreves tu:

"o Tibete nunca, em nenhum tempo histórico, foi independente, e sempre foi considerado parte integrante da China - pelo que a comparação com Timor não faz sentido"

Isso é o que se pode dizer de fugir ao essencial para ficar pelo acessório.

A questão central é: Todos os povos têm o direito à autodeterminação.

Havendo uma minoria nacional dentro dum Estado - seja o Estado britânico, espanhol ou chinês -, essa minoria tem o direito à autodeterminação.

E repara que essa nem sequer é uma "originalidade": sempre foi a política de Lenine.

Claro que, ao mesmo tempo que que esse direito à autodeterminação deve ser exercido por qualquer minoria nacional, a secessão, a política do nacionalismo, não é, não pode ser, a política dos comunistas.

Creio que concordarás comigo que todas as nacionalidades da República Popular da China devem-se unir (VOLUNTARIAMENTE) em torno da construção da sociedade socialista por nós todos almejada.

A construção do socialismo na China enfrenta um grande obstáculo: a casta burocrática que controla o aparelho de Estado e que tem peseguido a restauração do capitalismo do país.

De resto, nenhum Estado (por maior ou por mais recursos naturais que tenha) é suficiente para contruir o socialismo: o desenvolviemento dos meios de produção impôs a chamada gloablização.

Desse modo, a revolução será internacional - ou não será nada!

Ao invés de introduzir o "mercado" na China, o P"C" Chinês deveria ter uma política activa de introduzir a revolução nos outros países...

Mas isso, infelizmente, sabemos não ser assim...

Hugo Besteiro disse...

Bom artigo

Acho que falta ainda salientar que não deixa de ser caricato a defesa, pelos arautos da liberdade e democracia, de um regime e um ícone renovados por "ressurreição"..