domingo, julho 19, 2009

Sátira Política e censura

Longe vão os tempo da censura fascista, que controlava o que era editado em livros e jornais, emitido na rádio e televisão, e produzido em palco. A liberdade de expressão e de imprensa foram direitos conquistados com Abril. Mas a crescente concentração de capital no sector da comunicação social e proletarização dos jornalistas, que trabalham sob o medo constante de ser despedidos, gera outro tipo de enviesamento do que é dito e noticiado. Quantas não terão sido as vezes em que jornalistas honestos cobrem eventos políticos do PCP, para estes depois serem arrumados pelos redactores ou editor, não por falta de espaço, mas por opção política.

A mercantilização da música e do teatro conduz a que estes sectores produzam materiais sem substância. Os projectos que efectivamente desejam intervir no espaço político, através da produção cultural, são remetidos a espaços e financiamentos limitados. Chame-se a este estrangulamento censura ou não, a verdade é que opinião, crítica e discussão política efectiva ocupa um espaço cada vez mais reduzido na produção cultural e na comunicação social.

Vem muito a propósito uma mensagem que recebi hoje do Qatrelcolectivo indicando que
O espectáculo "Amor", de André Sant'Anna, encenado por Marcos Barbosa e interpretado por Flávia Gusmão, programado pelo Director do TNDM II, Diogo Infante, para o Festival ao Largo hoje, dia 19 de Julho, às 22h, no Largo de S. Carlos, foi cancelado.

Menos de 24 horas antes da sua apresentação, o espectáculo foi cancelado pela OpArt, na pessoa do director do festival, Pedro Moreira, após ter assistido apenas a uma parte do ensaio geral, sob pretexto de ser “ousado”. Trata-se de um acto de CENSURA.

Às 21h00 de hoje, os criadores deste espectáculo estarão presentes no Largo de S. Carlos, em Lisboa, assim como diversos artistas e cidadãos que não querem deixar impune esta posição inadmissível da OpArt que, independentemente de se colocar em causa a sua legalidade, constitui desde já um atentado à liberdade de expressão.

Vejam no fim deste post o manifesto a ser distrubuído hoje à noite no S. Carlos.
Durante o fascismo, os artistas encontravam formas de passar mensagem nas entrelinhas, quer através da poesia e canção de intervenção, quer através da Revista. Os artistas partilhavam com os espectadores uma linguagem que, escapando à censura do estado, permitia uma crítica ao fascismo e um tubo de escape. Infelizmente, a revista está reduzida ao brejeiro e a canção de intervenção, quando surge, é tão ocasional que até consistiu notícia (como o caso recente da canção dos Xutos e Pontapés, que inclusive gerou exegese sobre se seria ou não crítica política).

Neste panorama há, felizmente, algumas excepções, como a sátira política de grupos que mereceram alguma projecção e influência nacional, como os Gato Fedorento e Os Contemporâneos. A desconstrução da argumentação dos Gato Fedorento da mensagem de Marcelo Rebelo de Sousa (ver) marcou o debate em torno do referendo sobre a IVG como poucas intervenções políticas. Alguns projecto, porém, como o "Vai tudo abaixo" são de um niilismo tão feroz que não fomentam o pensamento político, mas a descrença e apatia, e não a participação e a reflexão. Na minha opinião, tais projectos já descarrilaram da sátira política, nada contribuem para a democracia, não deixam espaço para a proposta, contributo positivo, nem ao protesto cívico (fazendo troça de quem se manifesta), e embarcado num tsunami onde nada resta senão a destruição.

Na linha da sátira política, enviaram recentemente este vídeo de um grupo amador que tem feito algum trabalho em palco e usa também a internet para divulgação: Projectos Diferidos. Vejam este vídeo recente sobre o Sócrates:



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OBSCENIDADE A SÃO CARLOS

A entidade pública promotora do festival ao ar livre no Teatro São Carlos, OPART, cancelou o espectáculo “Amor”, previsto para as 22 horas deste domingo 19 de Julho de 2009. Vinte e Quatro horas antes aquela entidade pública comunicou ao produtor que a peça, um monologo de 50 minutos seguindo um conto do escritor brasileiro André Sant`Anna, “ não se adequaria ao conteúdo previsto para o ciclo de promoção ao ar livre”.
Estranha-se antes de mais que uma decisão de programação, envolvendo desde o momento da sua adopção custos públicos, estabelecendo legítimas expectativas entre o público potencialmente interessado e comprometendo antecipadamente os profissionais envolvidos na preparação do espectáculo, seja adoptada em termos práticos à boca de cena.
Esta tarde o site de São Carlos ainda anuncia o espectáculo para as 22 horas.
O texto original de André Sant` Anna está publicado em Portugal há oito anos, permanecendo acessível em qualquer livraria de referencia. Inquieta-nos que a entidade pública promotora do festival ao ar livre esteja desatenta ou ignorante quanto aos conteúdos das obras artísticas que inscreve na sua programação, dado que é evidente que toda a decisão de escolha envolve a ponderação de riscos, que merecem ser devidamente considerados. Tal ponderação aplica-se mesmo a obras de maior dimensão universal como a Carmina Burana, companheira de programação do monologo “Amor”.
Inquieta-nos ainda mais que esta retirada de cena de “Amor”, seja determinada por razões de texto, por “todas aquelas palavras derramadas sobre o sangue das criancinhas esguichando sangue”, e o director de programação comprometido com um publico esguichando sangue, e a teoria de relatividade de tudo isto explicada pelo director de programação, ao público, que ouviu a Carmina Burana, a Menina Júlia e as Produções Fícticias e agora não assistirá ao monologo “Amor”, apenas por uma palavra, das mais obscenas quando praticadas sobre um acto artístico, que é censura. E não por todas as palavras, portuguesas do Brasil e de Portugal, que estão no monologo e nos falam de todas aquelas imagens, que estão no texto e na vida real de todas as pessoas, incluindo o director de programação.
Censura reagindo a palavras ali colocadas, que não nomeamos porque todas as palavras merecem ser cultivadas num texto literário. A obscenidade da censura supera toda a crueza das palavras que se ouviriam no Monologo, porque nenhuma entidade pública responsável por programação cultural pode julgar a adequação de um texto por um juízo de adequação entendido como moral, que cala por hoje o Monologo ao ar livre no Largo de São Carlos para empobrecimento do público.
E imperativo esconjurar a sombra de Censura em todos aqueles que estão em lugares públicos de programação gerindo dinheiros públicos e dinheiros do mecenato que chegam ao Público por virtude de leis que visam o Enriquecimento cultural.
Uma última referencia. o texto de Sant`Anna , embora completamente original, é impulsionado por uma referência ao filosofo – antropólogo Ernest Becker, prematuramente falecido no já distante ano do 25 de Abril e inspirador de alguns diálogos no filme Annie Hall, em 1977.

Ana Toivola Câmara Leme (Funcionária do Parlamento Europeu)
Jorge Lobo Mesquita (Diplomata)
Qatrelcolectivo
Associação cultural
Tel:918636908

http://www.myspace.com/oucontadoresdehistorias
http://sites.google.com/site/qatrel/Home

Um comentário:

joana disse...

'Amor' de hoje foi ontem cancelado mas hoje foi adiado para amanhã!
Viva a coerência!