segunda-feira, outubro 26, 2009
Arqueologia narcisista
sábado, outubro 24, 2009
Depois das eleições, quando será a ruptura?
Vem isto também a propósito de duas posturas que tenho constado entre os que lutam pela mudança. Os que assumem tratar-se de um longo processo histórico e os que concebem que esta poderá ocorrer a qualquer momento. A primeira vez que ouvi um camarada de meia-idade afirmar a sua dedicação à luta, mas que já não tinha esperança de assistir a uma mudança no seu tempo de vida, fez-me alguma impressão. Não sendo o equivalente ao cristão que sofre neste mundo, porque conta com a paraíso além da morte, mas expressava um travo de desânimo. Desalento que, de um momento para o outro, se podem traduzir num abandono da luta, na prioridade dada à melhoria das condições individuais. Alguns seguirão essa caminho, outros continuam a lutar afincadamente na perspectiva de melhorar as condições para as gerações seguintes, e porque lutar é preciso. Um camarada justificou esta atitude com o perigo do desapontamento caso se procure a mudança, e ela nunca mais surja. Mas eu creio ser mais positivo lutar com a perspectiva de que esta é possível, não só num futuro a médio ou longo prazo, mas também a curto prazo. Numa intervenção, exagerando esta posição, apontei até uma data para a revolução. Não me recordo bem, mas foi algo com 12 de Março de 2012. O exagero da data concreta de parte, não creio ser exagerado pensar que uma ruptura pode suceder a curto-prazo. Não cairá do céu. Será fruto da luta, da organização, da mobilização. Mas a história demonstra que mudanças radicais podem surgir rapidamente, que as condições sociais podem amadurecer com grande velocidade, sendo difícil antevê-las a uns anos de distância. A história do século XX está pejada de mudanças rápidas. Quem previa em 1955 que no quintal dos EUA surgisse passados 4 anos uma revolução socialista em Cuba? Quem previa após a queda do muro de Berlim que passados menos de uma década se alastrasse o movimento Bolivariano e anti-imperialista na América Latina?
Por isso, sem ilusões, luto porque é necessário e urgente, mas com a perspectiva que a ruptura pode estar ao virar da esquina. Luto para contribuir para virar essa esquina e andar pela avenida da liberdade e justiça social. Pois essa ruptura, essa revolução é não só necessária como possível, reunidas as condições. E a luta trava-se para criar essas condições. Tenho também cada vez mais consciência que a luta não termina quando se der a ruptura política, económica e social. Esta tomará outra forma mas persistirá durante gerações. Mas recuso, por feitio ou talvez pela minha juventude em erosão acumulada, acatar que não assistirei à ruptura.
Termino com uma citação do recente livro de Miguel Urbano Rodrigues (que recomendo), «Meditação Descontínua sobre o Envelhecimento» (p.90):
Gramsci escreveu na prisão que "o tempo é a coisa mais importante, é um simples pseudónimo da vida." Ele lutou até ao fim, mas esteve sempre lucidamente consciente dos estragos que nas fileiras da esquerda resultam da convicção de que não há alternativa ao capitalismo, quando ela se instala entre gente que começa a vacilar.
0 tempo para a classe dominante é, como lembra lstván Meszaros, o eterno presente e o futuro aparece-lhe como a extensão da ordem natural, isto é o capitalismo.
Ao capital é indiferente que o tempo histórico da humanidade transcenda o tempo dos indivíduos. Mas o revolucionário - e não só - faz suas aspirações e valores que aproximam a humanidade das suas potencialidades temporais, positivas.
0 tempo histórico de cada homem pode portanto entrar em conflito com o da humanidade ou estar em harmonia com ele, se, como ser social, fizer opções que ajudem a libertar a humanidade da ameaça de destruição, encaminhando-a para um futuro sustentável.
Como a vida humana é breve, a passagem do tempo, no processo de envelhecimento, gera, mesmo em jovens envolvidos em processos revolucionários sem perspectivas a curto prazo, um sentimento de inquietação que evolui para um pessimismo que empurra para o abandono, a ruptura do compromisso. Voltando a Meszaros, ele expressa essa realidade ao afirmar que a ordem social do capital "degrada o tempo inescapável do tempo histórico significativo - o tempo de vida tanto dos indivíduos como o da humanidade - à tirania do imperativo do tempo reificado do capital".
quinta-feira, outubro 22, 2009
Novo Governo : Caras Lindas
Já foi anunciada a composição do novo governo (mudanças de pastas estão sublinhadas):
Primeir
o Ministro: José Sócrates
Ministro de Estado e dos Negócios E
strangeiros – Luís Amado
Ministro de Estado e das Finanças - Fernando Teixeira dos Santos
Ministro da Presidência – Pedro Silva Pereira
Ministro da Defesa Nacional - Augusto Santos Silva (ASS era Min. Assuntos Parlamentares no anterior governo; o anterior ministro era Nuno Severiano Teixeira)
Ministro da Administração Interna – Rui Pereira
Ministro da Justiça - Alberto Martins (o anterior ministro era Alberto Costa)
Ministro da Economia, da Inovação e do Desenvolvimento - Vieira da Silva (Vieira da Silva estava no MTSS; Teixeira dos Santos também assegurava este Min.)
Ministro da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas - António Manuel Soares Serrano (substitui Jaime Silva)
Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações - António Augusto da Ascensão Mendonça (substitui Mário Lino)
Ministra do Ambiente e do Ordenamento do Território - Dulce dos Prazeres Fidalgo Álvaro Pássaro (substitui Francisco Nunes Correira)
Ministra do Trabalho e da Solidariedade Social - Maria Helena dos Santos André (substitui José Viera da Silva)
Ministra da Saúde - Ana Maria Teodoro Jorge
Ministra da Educação - Isabel Alçada (substitui Maria de Lurdes Rodrigues)
Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior - Mariano Gago
Ministra da Cultura - Maria Gabriela da Silveira Ferreira Canavilhas (substitui José António Pinto Riberito)
Ministro dos Assuntos Parlamentares - Jorge Lacão (substitui Santos Silva)
Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros - João Tiago Silveira
Maria de Lurdes: la la la la, yeah yeah, goodbye
quarta-feira, outubro 21, 2009
8!8!8!
Parece uma fórmula simples, equilibrada e saudável.
Quase que custa a acreditar que o limite das oito horas de trabalho diário foram conquistadas tão recentemente.
Mais inacreditável é que esse limita na prática deixado de existir. O novo código de trabalho não só permite jornadas de trabalho de 10 e 12 horas, como pressupõe que os dias livres que assim se ganhem possam ser passados como se de um domingo se tratasse. Como se os outros elementos da família não tivessem afazeres, trabalhos com outros horários, igualmente flexíveis. É a supremacia da eficácia do uso da força de trabalho sobre o bem-estar do trabalhador.
Vejam o blog: 8!8!8!
segunda-feira, outubro 19, 2009
Matar sem risco
Ora, resulta que o Presidente do EUA e Prémio Nobel da Paz, Barack Obama, já autorizou mais ataques de UAVs sobre território Paquistanês nos seus 9 meses e meio na Casa Branca do que o Bush nos seus 3 anos finais como presidente.
A política dos EUA na região é aliás aparentemente cheia de contradições. Para a entender é preciso rasurar qualquer fragmento de discurso aparentemente diplomático e ambição de estabilização. Como entender que os EUA apoiem o Paquistão e simultaneamente ataquem o seu território e cidadãos, sem autorização do seu governo? Como entender porém que coordenam com esse governo uma ofensiva militar Paquistanesa sobre o sul do Waziristão (no noroeste do Paquistão, junto à fronteira com o Afeganistão) levando 150 civis a procurarem refugio? Como entender que persistem em levar adiante a farsa das eleições no Afeganistão, quando as Nações Unidas reconhece que houve fraude e que aceitar os resultados fará mais para destabilizar o país? E que apoio deu os EUA ao grupo Suni Jundallah que cometeu o ataque no Irão que matou 6 comandantes da Guarda Revolucionário, o mais grave ataque nos últimos 20 anos?
Voltando ainda aos UAVs: estes foram usados também, em Março deste ano, pelas forças armadas Israelitas sobre a Faixa de Gaza, matando 48 civis, incluindo 2 crianças e um grupo de mulheres numa rua deserta. Mais uma demonstração de precisão. Apesar do cessar-fogo com o Líbano, Israel é acusado de voar UAVs sobre o território do Líbano em violação da Resolução 1701. Israel aliás tem outros meios de ataque à distância. Uma investigação das Nações Unidas sobre explosões no passado fim de semana no sul do Líbano revelou que foram devidas a aparelhos aí colocados durante o recente invasão de Israel, e detonados via remota por Israel, felizmente sem resultar em feridos.
domingo, outubro 18, 2009
Está tudo doido?!
Passei as últimas duas semanas de cama, doente, e pude prestar uma atenção mínima às notícias. Mas as que vi convenceram-me que a minha cabeça ainda não estava recuperada.Quando vi um referência à atribuição do Prémio Nobel da Paz ao novo presidente dos EUA, Barack Obama, não sabia se havia estado em coma durante uns anos, ou se Obama havia salvo o mundo do apocalipse durante os dias em que estive doente e desatento.
Agora que estou com a cabeça um pouco mais clara, entendo que Obama ganhou mesmo o prémio e, pelo que se pode concluir, não por nada que tenha concretizado. Quanto muito terá sido por ter feito os juízes sentirem esperança no futuro. Diz a texto do júri: «pelos seus esforços extraordinários para reforçar a diplomacia e cooperação internacional entre os povos.»
Não é primeira vez que há controvérsia em torno do galardoado. Basta recordar Henry Kissinger, Lech Walesa, Mikail Gorbatchev, Frederick de Klerk, Shimon Peres,
A sua nomeação tem levantado naturalmente perguntas. Cabe perguntar se não teria mais sentido nomear alguém ou alguma organização com mais tempo para concretizar os seus planos. Há assim tão poucos candidatos? Não. O comité recebeu um número recorde de nomeações (205), incluindo 33 organizações.
As nomeações são aceites pelo comité de nomeação até 1 de Fevereiro. Os membros do comité podem fazer nomeações até à primeira reunião do comité. Mas Obama foi inaugurado para a Presidência dos EUA a 20 de Janeiro de 2009. Isto é, por muito extraordinárias que fossem as actividades de Obama durante os primeiros meses da sua presidência, estas não deveriam contar para a avaliação do comité.
Ora, que me lembre, nas primeiras semanas na Casa Branca Obama não erradicou a fome na terra, não fez desaparecer as minas terrestres, não resolveu alguns dos conflitos militares persistentes, nem transformou água em vinho. Tomou alguns passos interessantes no sentido da redução de armas nucleares, mas é ainda cedo para ver onde irão conduzir. Por outro lado, reforçou a presença militar no Afeganistão e apoiou as eleições fraudulentas. Mas é escusado por os pesos nos dois pratos da balança, pois muitas dessas decisões e acções foram posteriores ao período sob consideração pelo comité Nobel. A menos que simplesmente incutir esperança, qual Prozac, tenha mais peso que acções concretas. Será que as outras 200 nomeações eram assim tão fraquinhas?
quinta-feira, outubro 01, 2009
O futuro é a juventude
«Mais duro contra os golpistas!»
«Passo firme em direcção ao socialismo!»
«Micheletti, saia daí. Saia!»
Há quem vendo este vídeo sejam incapaz de acreditar que uma criança tão nova possa, de forma tão articulada e apaixonada, ter ideia do que diz. O seu cinismo leva-lhe à conclusão que esta criança não difere das que aparecem a actuar no Chuva de Estrelas, ou outro programas que exploram as crianças. Mas a realidade política e evolução social afectam profundamente uma criança, podendo acelerar rapidamente a sua consciência política, o seu sentimento de justiça, a sua maturidade atingida não pela via do ensino da escola, mas pela escola da vida. As crianças sem infância de Soeiro Pereira Gomes ou Jorge Amado não são ficção. E para que se veja que não é apenas sob um clima repressivo que pode despertar a eloquência e a claridade de pensamento político, mas que este também pode emergir no decurso de um processo revolucionário que abre portas e dá condições ao pleno desenvolvimento, veja-se o seguinte vídeo da jovem Rosa de Monagas, cujo fervor revolucionário deixa o Chávez um tanto atónito.
E porque inevitavelmente, haverá os que tendo visto este último vídeo opinem que na Venezuela, Hugo Chávez é um ditador (apesar de eleito democraticamente) e suprime as liberdades, veja-se mais um vídeo demonstrando como só num programa de humor jornalístico é que há coragem para admitir as distorções de informação:











