segunda-feira, junho 11, 2012

O Hino Português

Não gosto d'A PORTUGUESA, o hino de Portugal. A melodia não me move como A MARSEILLAISE ou o hino da Rússia. Não gosto mesmo nada da letra. E sempre me pareceu estranho que com o 25 de Abril esse símbolo nacional nunca tenha sido posto em causa. Por curiosidade fiz uma pesquisa no diário da Assembleia Constituinte e o hino nacional nunca foi debatido ou questionado (as únicas referências a discussão, dizem respeito à possibilidade de um hino diferente para as regiões autónomas). Bem sei que o hino data de antes do fascismo, que foi composta (em 1890) como oposição ao Ultimato Inglês ("contra os canhões" foi originalmente "contra os bretões"), tendo depois sido adoptada pelo movimento republicano ainda durante a Monarquia e consagrado como hino juridicamente em 1911.

O fascismo manteve o hino republicano, durante os seus 48 anos de existência. E pelos vistos esse símbolo musical apegado a um regime nacionalista, colonialista e opressivo conseguiu manter-se incólume. Que sentiriam os Portugueses anti-fascistas a cantar o hino durante o fascismo? Certamente que enquanto militares na guerra colonial seria diferente do que antes de um jogo da selecção com o Eusébio, Coluna, Torres e companhia. Mas naqueles momentos oficiosos associados ao regime, não se gerava nenhuma associação entre o regime e o hino, seu símbolo? Ou o há efectivamente algo nacional que transcende o regime político? Se assim é, vem traduzido numa canção tão probrezita. Só mesmo por razões históricas.

Vejo um contraste tão grande entre esta passividade face ao nosso hino (e outros símbolos nacionais) e a ruptura de símbolos durante as transições nos países da Europa de Leste. Na Rússia, curiosamente, a melodia que serviu de hino da União Soviética foi abandonado durante o período de Ielstine, mas voltou a ser a melodia do hino no ano 2000 (e que grande melodia que é). Mas houve alteração da letra. A Alemanha também manteve a melodia que existiu antes e durante o período nazi, mas passou depois a usar a 3ª estrofe da letra original, abandonando a primeira estrofe com o seu simbólico "Deustchland uber alles".

A 2ª e 3ª estrofes d'A PORTUGUESA ainda são mais fracos que a 1ª, com a sua evocação de uma glória passada mística e o seu apelo militarista. Lembro-me de em pequeno fazer alguma confusão porque se apelava a ir contra os canhões, pois para mim os canhões, as chaimites, os militares, eram o MFA. Durante quanto mais tempo vamos cantar uma letra tão anacrónica? Armas contra canhões? Parece-me uma má táctica militar. Se os canhões vêm por terra, isto é de Espanha, não valeria mais um bombardeamento aéreo antes de enviar a infantaria? Se os canhões estão no mar, enviar a infantaria parece-me ainda pior táctica. E quem é que hoje em dia diz "egrégios"?; ou sabe o que quer dizer ("ilustre" ou "notável", para quem tem dúvidas).

(E já agora, tenho também problemas com a métrica da letra em Português d'A INTERNACIONAL. Mas essa tem uma melodia do caraças. E em algumas línguas, a letra tem vindo a ser actualizada.)

É claro que um símbolo como o hino não pode estar constantemente a ser alterado. A sua constância é uma das qualidades que se procura num símbolo dessa natureza. Só gostava é que fosse outra constância, que não esta.

Assim, muito frequentemente, não canto o hino de Portugal. (Não é por não saber a letra. Sei até bem demais.) Há outros hinos que me movem mais, que aprecio mais musicalmente, com que me identifico mais. Guardo a minha voz para esses. E guardo a minha avós também.